Postcards from Liverpool #2

In My Life*

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Há lugares de que me lembro, é assim que começa ‘In My Life’ dos Beatles. Liverpool será provavelmente por mim lembrado como uma cidade silenciosa. Falo do centro da cidade, evidentemente, que para mim, hoje, vai do Knowledge Quarter até aos Pier Head e Albert Dock, passando pelo Hope Street Quarter, pelo Ropewalks Quarter e, claro, pelos Stanley Street e Cavern Quarter. Talvez tivesse uma ideia diversa de Liverpool, mas, na verdade, eu sabia pouco sobre esta cidade. Não é que agora saiba mais, mas sei do seu silêncio e da sua calma. Talvez os habitantes de Liverpool estejam de férias em Portugal ou noutro país do sul da Europa. Ontem, um dos rapazes da recepção disse-me, diante da minha queixa sobre os preços dos bilhetes de comboios (e sobre a necessidade de ele me imprimir as referências dos que, depois, comprei, pela internet), que aqui é tudo caro e que é exatamente por isso que os britânicos vão de férias para Espanha e Portugal. Em qualquer caso, sei que ele foi hoje de férias. Para a Flórida.

Não acordei muito cedo, mas não me importei logo. Mais tarde haverei de me importar, quando descobrir que tudo termina cedo. Os museus, as viagens de autocarro turístico, a comida e o café. Mas agora acordei e ainda não estou preocupada com isso. Tomo um pequeno almoço extraordinariamente calórico (bacon, ovos, dispensei os feijões guisados mesmo se já eram 11h30, sumo de laranja e um café horrível). Deixo a Cheapside e viro à esquerda para a Dale Street que se junta mais adiante à Water Street. Faz sentido que assim seja, já que esta é a principal rua que desagua no porto. Os edíficos da Dale e da Water são belíssimos, principalmente os desta última e sobretudo quando nos aproximamos do rio Mersey, já muito largo, quase a desaguar no mar da Irlanda. Tal como eu, acabada de sair da Water Street, desaguo no porto. À minha esquerda as Três Graças, como aqui lhe chamam. Três edifícios – do Royal Liver, do Cunard e do Porto de Liverpool – imponentes. O primeiro deles tem dois relógios enormes, hei-de saber mais tarde que maiores que os do Big Ben, e dois pássaros igualmente enormes de pedra em cada torre. Hei-de também saber mais tarde que reza a lenda que se estes pássaros voarem ou cairem, Liverpool cairá também. Espero que nunca voem, estes grandes pássaros de pedra.

Falando em pássaros, o porto – aliás toda a cidade – está cheia de gaivotas. O canto, se assim lhe podemos chamar, das gaivotas é, acho eu, imensamente triste. Talvez seja por isso que gosto de gaivotas. Pousam em tudo e são amigáveis, apesar do seu lamento constante. Também do lado esquerdo de quem entra no Pier Head vindo da Water Street se encontra o Liverpool Museum, outro edifício belo, apesar de completamente diverso dos anteriores. Estou ali a observar tudo aquilo quando reparo – aparte as gaivotas – no incrível silêncio que me rodeia. Há pessoas e barcos. Mas tudo é silencioso e tranquilo. Reparo que há poucos turistas, pelo menos estrangeiros, em Liverpool. Não consigo perceber porquê. Ou melhor, o céu cinzento sobre mim e a temperatura de 20 graus talvez expliquem. Por mim, estou encantada com ambos e reparo também nos autocarros turísticos ali em frente de uma das Três Graças. Compro um bilhete e vou. A viagem toda dura uma hora, ao que parece, e vamos – como é habitual nestes autocarros – recebendo informações sobre os locais. Ali o memorial às vítimas do Titanic, além a Igreja de S. Nicolau, mais à frente o Hotel A Hard’s Day Night (os Beatles, sempre, claro) decorado com os Fab 4 nas fachadas. A zona dos Museus é muito bonita, tal como os edfícios que os albergam. A Lime Street Station onde cheguei ontem à noite e a torre da rádio. O Knowledge Quarter onde estão as universidades e logo ali…uma igreja católica romana. Não fico surpreendida exatamente por encontrar uma igreja católica romana em Liverpool, mas pela arquitetura deslumbrante – para mim – e inusitada da Metropolitan Cathedral of Christ the King.

Fico indecisa se saio ou se continuo até Albert Dock para ir à Tate Liverpool – o maior museu de arte contemporânea do Reino Unido, fora de Londres (e toda a gente sabe que eu gosto de arte contemporânea e que sou absolutamente fã das Tate). Continuo no autocarro. Passamos China Town, onde as placas estão escritas em inglês e em chinês, o que me agrada. O céu continua cinzento, ainda que não chova, e empresta uma cor de gelo a tudo à minha volta. Deixamos o Ropewalks Quarter também para trás e alcançamos Albert Dock. Imediatamente me entusiasmo pelos grandes edifícios de tijolo, antigos armazéns do porto, agora reconvertidos em bares, cafés e, claro, na Tate. Saio do autocarro e ponho-me às voltas por ali. Bebo um expresso decente numa cadeia de cafés conhecida – e fico agradecida, de verdade – e entro na Tate serão umas três da tarde. É um museu magnífico, que tem, na sua coleção permanente, Picasso, Cézanne, Man Ray, Louise Bourgeois, Joseph Beuys, Renoir, Braque, Modigliani, Max Ernst… e muitos outros. Algumas obras da coleção permanente, cuja visita é, como em todos os museus do Reino Unido, gratuita, estão agora agrupadas na exposição Constellations. Esta ocupa o primeiro e o segundo andares da Tate Liverpool. No quarto andar a exposição (que não é gratuita, porque é temporária) que me trouxe aqui: Jackson Pollock. Ganho a viagem, claro está, com ‘Blind Spots’ e sobretudo por ter visto pela primeira vez, ao vivo, o magnífico Portrait and a Dream. Mas no mesmo piso está igualmente outra exposição temporária fabulosa – Encounters and Collisions – organizada (e com obras também de) por Glenn Ligon. Ganho portanto a viagem outra vez. A última exposição tem um carga política evidente, sobretudo relacionada com os direitos civis e a luta dos negros. Saio da Tate muito satisfeita, duas horas e meia depois de ter entrado. A Tate Liverpool é bastante mais pequena que a Tate Modern e mesmo que a Tate Britain, em Londres, mas nem por isso menos rica.

Resolvo retomar o autocarro turístico e regressar à Catedral. Assim faço. É a mais bela e original igreja onde já estive e conto entre elas a de Ronchamp , de Le Corbusier, há muitos anos e a Temppeliaukio Kirkko, em Helsínquia, que visitei, maravilhada, em 2009 (desenhada por Timo e Tuomo Suomalainen). A Metropolitan Cathedral of Christ the King, em Liverpool, é espantosa. Por fora, seguramente, mas sobretudo por dentro. A catedral é obra do arquitecto Frederick Gibbert e foi construída entre 1962 e 1967. O ano em que a minha vida começou. Lembro-me de ficar contente por a minha vida ter começado, quando entro na igreja, exatamente porque este será um dos lugares que recordarei por muito tempo. A igreja é redonda e enorme. Tem um altar a meio e por cima dele uma cúpula que não sei descrever e a que as fotografias – com a minha máquina automática, bastante simples – jamais farão justiça. Fico fascinada com aquela luz que vem dali e se derrama sobre o altar e é então que reparo na pequeníssima (sobretudo atendendo às dimensões da igreja) figura suspensa, pairando em cima do altar. Um cristo leve, quase como uma fada. Aquilo comove-me. Aquela fragilidade. E comovida me sento num dos bancos, como se futuasse também eu, como a figura, no meio de toda a beleza que pode haver no mundo. Não é suficiente, no entanto, para me converter ao catolicismo. Estou, como sempre estive, convertida à imensa beleza de tudo isto. E da vida. E ao silêncio. E à fragilidade.

Quando saio da catedral já escureceu bastante, desço até ao centro devagar. Ainda comovida, acho eu. Não sei se com vocês se passa o mesmo, mas a mim a beleza esmaga-me frequentemente. Acho que mais que a tristeza ou a desgraça. Vou a pensar nisto e demoro bastante tempo a chegar a Cheapside e ao hotel. Descanso um bocado e saio para jantar às oito e meia. Vou a um pub em que havia reparado ontem e o empregado anuncia-me que a cozinha está já fechada. Não sei em que espécie de país a cozinha fecha às oito e meia… mas, na verdade, basta um segundo e consigo lembrar-me de alguns. Ainda bem que sou portuguesa. A meio da Dale Street viro para a North John Street e encontro mais à frente um pub aberto. Entro. Visivelmente a cozinha ainda está a funcionar. A comida é razoável e o empregado diz-me que se quero beber cerveja local… ‘there’s nothing more british than a Carling’. Seja. É leve. Está fresca. Podia ser pior.

Quando acabo de comer peço um expresso. Desligam a máquina às nove da noite, respondem-me. Não sei em que espécie de país as máquinas de café são desligadas às nove da noite mas, uma vez mais, basta-me um segundo, para que me venham vários à cabeça. Saio e acendo um cigarro. Duas mulheres pedem-me lume. Uma delas agradece-me ‘Merci beaucoup’ com um sotaque muito britânico. Respondo-lhe em francês, com excelente sotaque, claro, ‘Je suis pas française’ e depois repito em inglês ‘I am not french’. Ela pergunta-me de onde sou e eu respondo ‘Portuguese’. Abre um sorriso e diz qualquer coisa que soa a ‘Evaristô’. Momentaneamente não compreendo e, de novo em dois segundos, percebo. ‘Efcharistô’ is greek, I am Portuguese. In Portuguese is ‘obrigada”. Encolhe os ombros e ri-se. A amiga também. Mas não tentam repetir o ‘obrigada’. Fico a pensar nisto enquanto caminho de volta ao hotel. Não me importava de ser grega. Já inglesa tenho as minhas sérias dúvidas. Ser de um país em que as cozinhas fecham às oito e meia da noite e em que as máquinas de café se desligam às nove? Não. Nada disso vai fazer parte da minha vida, se depender de mim.

Lembro-me, pelo caminho, que o hotel tem uma máquina de café. Quando chego constato que a máquina está ‘out of order’. Volto a sair. Preciso de um café, que diabo! Em frente ao hotel há ainda um pub aberto. Entro. Pergunto ‘do you have coffee?’. A senhora diz que café tem, mas não pode servir porque não tem leite. Faço um ar de estupefacção e digo… ‘but I do not want milk…. I want black coffee’… nesse caso, ok. Sento-me ao balcão e sinto-me um pouco estranha. Só estão homens no pub e todos a beber cerveja, A senhora chega com o café. Juro-vos que me trouxe ‘half pint of coffee’… ainda lhe digo que um pequeno bastava… mas ela sorri e eu começo a beber o café. O café, quero dizer, água com um ligeiro sabor a café. Bebo tudo, assim mesmo, devagar porque está muito quente, e vou observando o pub, os homens, a senhora que anda de cá para lá. Quando acabo a enorme caneca de café pergunto quanto é. A senhora diz que não é nada. ‘It’s on the house’. E faz um sorriso enorme. Eu faço um sorriso enorme também e agradeço muito. Não o café que não era exatamente café, mas o gesto. Há sítios na minha vida que recordo bem, onde vou quase todos os dias, onde nunca me ofereceram um café… e isto parece-me agora que estou aqui, longe deles, absurdo.

Apetece-me dizer à senhora ‘Evaristô’ quando saio e reparo que começou a chuviscar, mas digo ‘bye bye, thank you so much’ e realizo que se calhar, apenas se calhar, poderia ser inglesa.

* Título de uma canção dos Beatles* (https://www.youtube.com/watch?v=UKQpRgxyyqo)

Comments

  1. Manuel Santos says:

    Aprecio estas suas ‘crónicas de viagem’. Bem escritas (estou a ‘ler um postal). Mas porquê redigidas segundo o AO90? Meu Deus, porquê?! Não se vê inglesa, mas neste caso particular, eu gostava que se sentisse inglesa. É que ela (a Língua Inglesa), não tem qualquer acordo ortográfico, nem quer ouvir falar disso – porque não tem sentido. Boas férias.

  2. Pedro says:

    Escreva mais. Com a ortografia que lhe apetecer, incluindo o AO90. Estou farto de ver cenas parvas e mal escritas com a nota de rodapé “eu não escrevo com o acordo”, qualquer coisa assim.

  3. Caro Manuel, ossos do ofício levaram-me a escrever segundo o novo AO, mesmo antes de o mesmo entrar em vigor. Assim, espero que continue a ler os meus postais de viagem, mas tenho de lhe dizer que não mudarei o modo de escrever. Já me habituei, mesmo quando escrevo à mão. Não me parece assim tão grave como parece a muitos. Podia dizer que lamento que não me pareça grave… mas também não lamento. Obrigada por ler.

  4. Pedro, sobre o Ao já respondi ali em cima ao Manuel. Quanto a escrever mais… pode ficar descansado. Gosto de escrever. Obrigada por ler.

    • Pedro says:

      Tem uma forma muito especial de escrever, única. E percebo perfeitamente o que escreve… 😉 O AO é uma falsa questão.

  5. obrigada Pedro, e ainda be, que percebe. Estou de acordo com o que diz sobre o AO. Para mim não é uma questão relevante. 🙂

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  1. […]   *** o Postcard from Liverpool a que me refiro pode ser lido aqui:https://aventar.eu/2015/08/14/postcards-from-liverpool-2/   #’Strawberry Fields Forever’, também dos Beatles, aqui: […]

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