Lettres de Paris #69


En plein hiver Au Printemps

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A aplicação de meteorologia que tenho instalada no meu computador, de que não sei o nome, mas que tem sido mais ou menos eficaz, anunciava para hoje ‘light rain, snow e uma máxima de 4º para Paris. Quanto à temperatura não sei, já não sinto o frio que dizem que está (embora as temperaturas até me ir embora estejam anunciadas como oscilando entre 2 e 3 de máxima e o e -3 de mínima e isso me cause alguns arrepios), mas a chuva não foi assim tão light e neve, claro está, nem vê-la. Quando acordei, outra vez tarde e a más horas e abri a janela fiquei desconsolada com o cenário. Chuva, céu cinzento, um dia perfeitamente desolador. Tomei o pequeno almoço descansada, preguiçei mais um bocado, descansada também enquanto avaliava se valeria ou não valeria meter o nariz na rua, além da janela. Ontem queria ter ido ao terraço do Au Printemps, umas galerias comerciais muito famosas – tanto quanto as famosíssimas Galeries Lafayette – situadas no Boulevard Haussmann (enfim, tal como as Lafayette há pequenos Au Printemps por toda a Paris e, creio, por toda a França), muito perto da Opéra também. Não fui ontem por causa do tempo e, sim, das horas a que me levantei. Hoje o tempo estava pior ainda e, bom, as horas a que acordei não foram muito melhores. De maneira que estava preguiçosamente a ponderar se saía ou não saía, se ia ao terraço do Au Printemps ou não, se ia antes ao cinema (cheguei a ver a programação das salas aqui à volta e tudo) e o tempo a passar e o dia a ficar mais cinzento e as pingas de chuva a ficarem mais grossas…

Decidi sair e ir ao tal terraço. Tomei o costumeiro café no Le Saint-André, servido pelo Franco, na esplanada, debaixo do toldo, como uma verdadeira parisiense. Lembrei-me que nunca mais vi a Julie mas o Franco já tinha entrado no café e não podia perguntar-lhe por ela. Palpita-me que já não trabalha lá, mas amanhã ou depois hei-de perguntar. Depois fui comprar bilhetes de metro e autocarro à tabacaria, do outro lado da praça. Atravessei a praça Saint-Michel e pus-me à espera do autocarro 27 para a Gare Saint-Lazare. Desde que experimentei andar de autocarro não quero outra coisa, nas minhas deslocações. Muito melhor que o metro, pelas vistas e, provavelmente, dado que evita que andemos debaixo de terra, longas distâncias em estações ventosas, pela eficiência e rapidez e comodidade. Devia ter-me dedicado a aprender as linhas dos autocarros mais cedo é o que é. Saint-Michel é uma zona extremamente bem servida de transportes. Aqui passam o RER B e C, a linha 4 do metro que em Châtelet permite mudar para quase todas as outras linhas, e um sem fim de linhas de autocarros (96, 38, 21, 27, 85, 24… enfim… e algumas mais) que nos ligam a quase todos os pontos da cidade e arredores.
Enquanto esperava pelo autocarro começou a chover cada vez mais e a paragem tornou-se pequena para as pessoas que se acumulavam. Vi passar e parar um 96 e ainda pensei ir até Saint-Paul e, finalmente, visitar a Maison Européenne de la Photographie, mas sou teimosa, já se sabe e já tinha decidido ir ao terraço do Au Printemps e pronto. Finalmente apareceu o 27. Ia meio vazio e pude sentar-me a uma janela, do lado certo da paisagem, digamos assim. E que paisagem. O autocarro vai pelo Quai des Grands Augustins, depois pelo Quai Conti, depois pelo Quai Malaquais, acompanhando o Sena até à Pont du Carroussel, onde o atravessa para entrar literalmente no Louvre, sair na Place du Carroussel, atravessar a enorme Rue de Rivoli, a Rue Saint Honoré, entrar na Avenue de l’Opéra, chegar à Place de l’Opéra, onde, apesar das grandes gotas de chuva, uma banda completa toca nas escadas animando os transeuntes, passar para a Rue Auber e, por fim chegar ao Boulevard Haussmann, onde saio.
Tentar tirar fotografias num autocarro em andamento, com os vidros cobertos de gotas de chuva é uma tarefa inglória, sobretudo para alguém, como eu, que não aprendeu a tirar partido de todas as potencialidades da máquina fotográfica (e estou segura que serão algumas)… ficam todas com ar de pintura impressionista, embora obviamente fosse preciso muita imaginação para ver nelas quadros de, por exemplo, Monet, evidentemente. Mas eu acho graça aqueles borrões e na volta tiro mais fotografias, do mesmo autocarro 27, agora cheias de cores das luzes por entre as gotas de chuva. Sou uma criança de 50 anos, nada a fazer.
Quando saio no Boulevard Haussmann continua a chover, viro para a Rue du Havre e entro no edifício do Au Printemps à minha direita (havia outro á minha esquerda onde não cheguei a entrar e provavelmente fiz mal, já que este primeiro estava em obras e lá se foi a minha intenção de ver a abóbada que, nas fotografias dos outros, parece bem bonita). Subo até ao 9 andar pelas escadas rolantes, reparando logo que são extremamente vagarosas e que, por isso, não me vão causar problemas na descida. No 9º andar há um café. Penso primeiro que vou ver a vista apenas através do vidro e fico desanimada, apesar da vista ser de se lhe tirar o chapéu. É realmente uma vista soberba, não fosse o tempo estar tão cinzento, seria a vista mais perfeita de todas. Depois reparo numas pessoas do lado de fora do vidro, à minha esquerda e entro pelo café dentro até encontrar uma porta. Encontro-a e saio para um terrível inverno. Se cá em baixo o tempo estava mau, aqui em cima, no terraço do Au Printemps (que quer dizer, como saberão, na primavera) está péssimo. Um inverno a sério. Tento abrir o chapéu de chuva e ele vira-se imediatamente. Ponho o carapuço da doudoune (a sério, para que quero eu outros casacos desde que sou a feliz proprietária desta pequena maravilha quente e impermeável? Para os ter guardados nos armários, claro) e tento tirar fotografias. Tento. A lente da máquina enche-se de gotas, quando a tento limpar embacia-se. Um drama, portanto. O Sacré-Coeur, a Tour Montparnasse, a grande roda da Place de la Concorde e especialmente a Tour Eiffel estão meias apagadas pelo nevoeiro e pela poluição, como se estivessem prestes a desaparecer do horizonte de Paris. Há um certo enquanto nisto, no entanto as fotografias ficaram terríveis, a condizer com este inverno absoluto no terraço da primavera.
Ainda tive a vaga ideia de beber um café à espera que anoitecesse, mas a simples imagem de mim à noite naquele terraço invernoso, impediu-me de a concretizar. Desci os 9 andares, pelas vagarosas escadas rolantes e cá em baixo decidi voltar pelo mesmo caminho, até à Rue Suger. De novo o 27, um percurso ligeiramente diferente do anterior, mas na mesma com magníficas vistas por entre as gotas de chuva do vidro, tornando Pari, coo já disse numa série de quadros impressionistas feitos de pura beleza. Apesar da chuva, havia montes de gente nas imediações do Au Printemps, na Place de l’Opéra, nas esplanadas, nas pontes sobre o Sena e na Place Saint-Michel, onde desci do autocarro. Pensei em ir diretamente para casa mas o meu estômago queixou-se e fui lanchar à Maison Pradier. A seguir voltei para casa, admirarando a minha praça preferida em toda a Paris, a minha praça, onde entronca a minha rua. Admirei aquilo tudo sob a chuva e senti-me bem. Entrei em casa, trabalhei uma ou duas horas na apresentação que tenho de fazer amanhã. Deixei-me estar para ali no quentinho. A chuva parou entretanto, embora a primavera não tenha chegado ao inverno, nem sequer – e mais adequadamente – a neve.
(nota: a carta foi escrita ontem, domingo – antes que alguém se lembre de me vir dizer que não trabalho e tal)

Comments

  1. Paulo Só says:

    Eu tinha pensando isso mesmo, mas depois lembrei-me que deveria ser domingo. Então está bem, aos domingos pode ficar mais um bocadinho na cama ;-).

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