Dos livros, das listas, das crianças


Gustave Doré, ilustração para «O Pequeno Polegar»

Gustave Doré, ilustração para «O Pequeno Polegar»

Continuam, ainda hoje, as variações sobre o livro do Valter Hugo Mãe. Parece que a Comissão de especialistas veio dizer que a selecção da obra foi um lapso. Pior a emenda que o soneto.

Pessoalmente, não sendo admirador da escrita do autor, acho toda esta história caricata. Na verdade, a obra consta de uma lista de centenas de livros de leitura não obrigatória, apenas sugerida, e foi atacada por argumentos surpreendentes, quando se lêem as várias listas propostas.

Pergunto-me mesmo – desculpem-me os “especialistas – se os seus autores leram os livros que recomendam e ainda mais me pergunto sobre que diabo de critérios alinham aquela salada sem sentido. Como declaração de interesses, aqui garanto que não saberia fazer uma tal lista nem, valha a verdade, lhe vejo qualquer valor. Quando muito saberia fazer uma curta lista de obras sem as quais “não sois nada neste mundo”, como no dito popular. Pessoal, claro, mas pela qual saberia responder.

Deixo de lado os reparos mais brejeiros que nos asseguram que os miúdos, na net, lêem material bem mais pesado que as frases sob acusação. O que me espanta é que estas almas púdicas sejam tão atentas as estas minúcias e não olhem para a lista no seu conjunto. Indignam-se com as breves e raras referências grosseirecas das personagens do Hugo Mãe mas acham normalíssimo que anos antes – entre o 3º e o 6º anos – já estejam propostas obras tão ternas e inocentes como os contos completos de Andersen, dos irmãos Grimm, de Charles Perrault e, espantemo-nos, o Ali Baba e os 40 ladrões retirado das Mil e Uma Noites.

Notem: por mim, as crianças que leiam o que lhes der na gana, que nós cá estamos para ajudar. Mas a crença de que os contos destes autores são dirigidos às crianças – por isso os escolhi como exemplo – dá bem a dimensão da distracção dos “listadores”. Quer dizer, a “pila” do personagem do Mãe é intolerável para pré-adolescentes, mas as crianças devoradas pelas bruxas, pelos ogres e pelos gigantes -“as crianças são o frango de aviário dos contos de fadas”, diz a Mafalda -, a criança e a avozinha comidas – honi soit…- pelo lobo, a madrasta que pede para devorar as entranhas da pobre Branca de Neve, os corpos desmembrados e os homens fritos em azeite a ferver no Ali Baba, os cadáveres das mulheres do Barba Azul pendurados na sala sombria, tudo isso é perfeitamente apropriado para crianças dos 7 aos 11 anos. E há muito, muito mais. Isso é mau para as crianças? Francamente, não acho, já que estas coisas da apreensão do material lido pelas crianças são muitos mais complexas do que parecem nestes debates epidérmicos. Mas as almas mais sensíveis façam favor de ser coerentes.

Fica a pergunta final: como e porque fazem os ” comissários” estas escolhas? Lembra-me uma cena passada há muitos anos numa assembleia da Faculdade de Letras. Debatia-se uma moção cujos termos eram bastante consensuais, mas que via a sua aprovação atrasada por um Professor que insistia em minúcias de pontuação. Quem resolveu o impasse foi o velho e ilustre Paulo Quintela que, erguendo a sua voz de trovão, sentenciou:

– ” Meus senhores, aprovem sem demora esta moção e passem-na depois ali ao sr. professor para que ele a polvilhe com vírgulas!”.

Deve ser mais ou menos assim que os membros da tal Comissão fazem as listas; fartos de lhes dar voltas, acaba, cada um, polvilhando-as com o que lhe vem à cabeça.

Comments

  1. Rui Naldinho says:
  2. ines freixo says:

    Isto é impingir literalmente o que as editoras querem penso eu…quem ganha com este tipo de coisa?são as editoras pois os pais ou quem quer que sejam são obrigados a comprar caso não tenham o livro em questão.nao me venham com violência nos livros e que esta não é admissível para crianças, o que é que há mais nos dias de hoje na televisão como programas infantis?violência vou dar alguns exemplos: dragon ball(com membros cortados e separados do corpo, corpo cortado ao meio…),power rangers idem idem aspas aspas…por isso sinceramente não entendo tanto tabu em relação a violência nos livros infanto-juvenis

  3. Ana A. says:

    Eu não conheço o livro em causa, mas até me está a apetecer lê-lo (o valter agradece), para ajuizar por mim própria!
    Claro, que todos sabemos, que os censores estão muito virados para a enumeração das partes pudendas: (“pila”), o que é isso? Mas quantas crianças/adolescentes já terão ouvido semelhante enormidade?! Deixem-se de brejeirices…
    Agora, a questão da violência nos livros e filmes infantis: mas não é o mundo violento? Para quê esconder? Assim, não os preparamos para a vida! Aliás, uma boa dose de telejornais diários e teremos em curso a melhor preparação para a total dessensibilização à violência.

  4. Não está em causa o texto de Valter Hugo Mãe. E também acho que as crianças devem ler sobre sexo e violência tal como aparecem nos contos de “fadas”, e não está em causa a palavra pila, está lá muito mais que isso. O que está em causa, e pondo-me na pele da criança que já fui, mesmo conhecendo esses termos noutros contextos, ao lê-los num livro recomendado, julgaria serem termos apropriados para a conversação do dia a dia, não lhe reconhecendo o carácter ofensivo e depreciativo para as mulheres em geral que tal linguagem por vezes encerra. As crianças apreendem muito bem aquilo que não deve constituir a norma, e devem compreendê-lo. Faz parte do seu crescimento conhecer a transgressão. Quando se dá um sinal errado do que é transgredir, como queremos que distingam o bem do mal?
    Já ouvi dizer também, que nessas listas está o Príncipe de Maquiavel, que eu acho absolutamente desapropriado a adolescentes, sem que se contraponha o anti-Maquiavel de Frederico da Prússia. Ou será que quem fez a lista pensou que por lá estar a palavra Príncipe, se trataria de um conto de fadas? Já acredito em tudo. Até em bruxas.

  5. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Isto é um bom exemplo do que deve ser feito às tais “listas”. Muito imsplesmente, ignorá-las e devolvê-las ao lixo de onde vieram. Cada professor deveria (deverá?) ser livre de recomendar os livros que achasse (ache) mais apropriados para as respectivas turmas ou mesmo aluno a aluno (caso assim o entendesse). E nem me passa pela cabeça que os professores não sejam capazes de o fazer.
    Infelizmente, penso que estas listas andam a par com a obsessão das autoridades do “eduquês” pelo “acordês” e normalmente nelas só constam livros convenientemente editados nessa “pseudo avançada ortografia”. O negócio subjacente ao dito assim obriga. Caso contrário, não seriam precisas estas listas para nada.
    E sim, também tenho dúvidas que quem elabora as listas tenha lido todos os livros que lá constam.

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