Ainda Soares

Faz hoje um mês que Mário Soares morreu*. Na altura não escrevi nada porque já tinha dito o suficiente mas ao longo destas semanas foram-me ocorrendo vários pensamentos não apenas sobre Mário Soares, mas também sobre uma geração de homens e mulheres políticos que estão claramente em extinção.

Seria cansativo e contraproducente falar da questão da descolonização e dos retornados. Eu conheço de muito perto esta realidade e não pretendo menorizar o drama ou o sofrimento daqueles que foram obrigados a regressar. Contudo, é evidente para qualquer pessoa que perca duas horas da sua vida a tentar ler alguma coisa sobre o assunto, que a academia – e atenção, aqui falo das ciências sociais e não da literatura – não se debruçou ainda sobre esta questão. Ou seja, em relação aos retornados (isto é um post para outra altura) é inútil dizer que são todos uns reaças de primeira água. Tal como é inútil dizer que o retorno provocou uma fricção indelével na sociedade portuguesa. Em relação à primeira afirmação, é impossível saber porque há pouquíssimos estudos sobre o fenómeno do retorno em Portugal. É consensual que o processo do retorno português foi bem-sucedido mas de resto, não se sabe a configuração social dos brancos das colónias. Não há estudos que definam com exactidão quais as diferenças entre a sociedade branca de Moçambique e aquela de Angola. Não há estudos que explicitem o posicionamento político dos portugueses das colónias, nem se havia diferenças entre aqueles que foram para lá nascendo na chamada metrópole e os que já nasceram em África.

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Ora pousa aqui a mochila na balança


5º ano, quarta-feira: 6,3 quilos.

Quando relatar factos é secundário

Nevou numa montanha, no Emirado de Ras Al Khaimah, mas o Observador usou uma foto de uma cidade grega. É assim o quotidiano daquele blog. Colar títulos a textos e fotos, eventualmente com relação entre si. Mais uma careca posta à mostra pelo quinto poder, o escrutínio do que se lê. 

[actualizado]

7 de Fevereiro


Dia internacional dos Clash.

Interliga, Cristas, interliga

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Assunção Cristas, em permanente campanha por todo o lado, surgiu ontem de ar grave e semblante taciturno a comentar a consolidação orçamental. Engole em seco quando afirma que “a consolidação orçamental é relevante“, imediatamente rematando com um “é preciso ver como é que é feita essa consolidação orçamental e o que vemos é uma grande degradação de serviços públicos“, apontando baterias ao estado da Saúde e da Educação.

A lata não surpreende. Apesar de ter integrado um dos governos que mais atacou o Estado Social, que desinvestiu brutalmente na Educação e que deixou os serviços de urgências do país a rebentar pelas costuras, sem que a preocupação que agora procura demonstrar estivesse presente, a líder do CDS-PP parece esquecer-se que, mesmo assim, o executivo co-liderado pelo seu antecessor falhou todas as metas do défice. Todas. E que o país pagou caro os sucessivos falhanços. Na relação com a UE como na degradação dos serviços públicos que agora parece ter descoberto. [Read more…]

Eutanásia social

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O modo como um país encara e valoriza as suas crianças e os seus idosos define o seu grau de desenvolvimento humano e a sua própria viabilidade enquanto organismo social e civilizacional vivo.

Portugal, nesta matéria, apresenta sintomas antigos e agudos de uma grande degradação e tem em prática políticas que o tornam uma sociedade degenerativa, inimiga da infância e da velhice, e, como tal, inimiga da sua própria viabilidade.

No caso da infância, chegámos ao ponto extremo de optar por políticas claras de institucionalização, seja na escola, onde as crianças chegam a passar 12 horas por dia, seja no asilo moderno, onde são internadas de modo compulsivo depois de literalmente raptadas às suas famílias. O Estado, que soube baixar brutalmente o Subsídio de Desemprego ou o Rendimento Social de Inserção, atirando centenas de milhares de crianças para a pobreza extrema, é o mesmo que paga 800 euros por mês a Instituições privadas por cada criança raptada que lhes seja entregue. Temos, assim, o Terceiro Sector a viver do negócio do tráfico humano, com o beneplácito e o patrocínio do poder público.

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Não, não há vergonha na cara

Francois Fillon, former French prime minister, member of The Republicans political party and 2017 presidential candidate of the French centre-right, attends a political rally as he campaigns in Charleville-Mezieres, France, February 2, 2017. REUTERS/Christian Hartmann

Admitir um erro destes não o apaga, assusta. Assusta porque um dia a coisa banaliza-se e forrobodó instala-se definitivamente. E parece que já faltou mais.

– Pá, eu sei que dei uns tachos a minha mulher e aos meus filhos, tachitos bons, tachitos que eram para uma coisa e serviram para outra, tudo isto à conta do contribuinte, mas estou muito arrependido e gostaria de agradecer a vossa compreensão tornando-me no vosso próximo presidente. Mas não se preocupem que a minha credibilidade não está em causa. Foi tudo legal e transparente. Tão transparente como me apresento hoje aqui perante vós, cidadãs e cidadãos (colocar nacionalidade), colocando a nu todos os meus podres.

Desculpas destas não se pedem, evitam-se.  [Read more…]

O erro ético

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O candidato da direita à presidência francesa, François Fillon, depois de se ter descoberto que tinha beneficiado a sua família no contexto da sua actividade política, veio a público reconhecer o “erro ético” e pedir desculpa aos franceses.

Se fosse por cá, era capaz de vir para os jornais negar tudo, mentir descaradamente, evocar os santos e a virgem Maria. Esconder-se-ia em casa durante duas semanas e depois regressaria sorridente, como se nada se tivesse passado, e até receberia um “prémio de prestígio” qualquer.

A França perdeu muito nos últimos anos, mas pelos vistos não perdeu a vergonha toda.

Da Série: As cocas que andam por aí