«Não descurou o trabalho e não descurou a casa»


Imagem blog simplificando ideiasAo ler, hoje, este magnífico elogio de Assunção Cristas e da maioria das mulheres portuguesas, feito pelo monárquico Gonçalo da Câmara Pereira, já hoje aqui citado pelo meu colega João Mendes, não pude evitar que cenas da imaginada vida familiar e doméstica de Cristas me assolassem a mente.

Imaginei a Exma. Senhora Cristas a chegar a casa estourada, desfeita de um dia de trabalho intenso (talvez num bairro social, até) o corpo estafado a clamar por um banho relaxante, mas  a consciência a chamá-la aos seus deveres de mulher que não descura a casa nem a família. Adiando o merecido descanso, Cristas baixa a crista e muda de roupa, para não engordurar a farpela com algum salpico do jantar. Veste uma roupinha de andar por casa, uns jeans Salsa, uma t-shirt, pode ser Salsa também, e uns sapatinhos Josefinas – tudo marcas nacionais! e lá vai ela mourejar para a cozinha. Prepara a sopa e o jantar. Enquanto o estufado apura, aproveita para ir carregando a máquina da louça com a louça que já sujou. Entretanto, lembra-se que tem que apanhar a roupa que esta manhã por volta das 7, antes de sair para o trabalho, estendeu. Apanha e dobra a roupa, separando o que tem que ser passado a ferro daquilo que já pode ser guardado. Enquanto trata da roupa, não consegue evitar de pensar que ainda ontem esteve até quase às 2 da manhã a passar a ferro e o raio da roupa a acumular novamente.

O jantar já está pronto. Leva para a mesa que os filhos e o marido já «ajudaram» a pôr: toalhinha de linho (ai, tanto tempo a passar esta toalha a ferro e é logo a que eles decidem pôr na mesa!), faz uma nota mental para esconder todas as toalhas de linho lá de casa, mas que maçada, quase só há toalhas de linho em casa. Algodões usam-se pouco e sintéticos nem pensar. Nova nota mental para comprar toalhas de mesa em algodão do Egipto (não pode ser tudo nacional), talvez amanhã à hora de almoço, quando for numa corrida comprar peixe fresco e alguma fruta, que já começa a escassear. Depois da refeição em família, novamente o marido e filhos «ajudam» a levantar a mesa e arrumar a cozinha. Ou melhor, eles colocam a louça na máquina. O marido lava à mão a que já não cabe na máquina. Cristas passa o pano nos balcões da cozinha e limpa o fogão. Carrega mais uma máquina de roupa e programa para começar a lavar às 24h, hora a que o período de vazio da tarifa bi-horária começa. Programa também a máquina da louça.

Dá um jeito às camas dos filhos, raça dos miúdos que nem o raio da cama fazem!, prepara-lhes as roupas para amanhã vestirem, felizmente hoje só foi ao bairro social e teve tempo para consultar a previsão meteorológica na hora de expediente, já sabe o que lhes vai pôr.

De repente, lembra-se que ainda não tirou a roupa-de-ir-ao-bairro da saca de papel. Pega nas calças – que cheiro! – mal as tira do saco, o marido reclama: «Sunssinha, já te pedi que quando vais aos bairros ver os pobrezinhos que só a polícia visita para os despejar, não tragas as roupinhas para dentro de casa. Isso é cá um pivete! Não me digas que também trouxeste as botas!». Conformada, pede desculpa ao marido, tem paciência, Deus nosso Senhor há-de ver o nosso sacrifício e há-de dar-nos um lindo prado verdejante lá no céu, vais ver, amor. E lá vai ela pôr a roupa-de-ir-ao-bairro de molho para amanhã lavar ainda antes de sair para o trabalho. Não quer aquele cheiro a impestar a casa.

Finalmente, o merecido banho! Esfrega-se mais do que o habitual, para tirar o cheiro e alguma bactéria que se possa ter agarrado à sua pele. Lava bem o cabelo e seca-o cuidadosamente, não vá ter apanhado algum piolho, apesar de usar sempre repelente de parasitas quando vai a estes sítios.

Prepara a sua roupa para amanhã. Vestido justo, acima do joelho, e sapatinho de salto alto. Prepara ainda mais uma muda de roupa-de-ir-ao-bairro. Amanhã tem nova visita e lá vai ela ter que encontrar tempo para, em 2 minutos, tirar o vestido e vestir o uniforme de campanha.

Finalmente, programa o despertador para as 6 da manhã (tem que estender roupa, esfregar e lavar a que deixou de molho, preparar os pequenos-almoços do marido e dos miúdos, preparar os lanches para eles levarem para a escola e deixar a marmita para o marido almoçar no trabalho, tudo antes de sair de casa às 7h45, devidamente maquilhada e arranjada).

Vida dura a de mulher trabalhadora, mãe, esposa, que não descura nem a casa nem o trabalho!

Comments

  1. Fabuloso 🙂

  2. José Fontes says:

    «Calçada de Carriche»

    Luísa sobe,
    sobe a calçada,
    sobe e não pode
    que vai cansada.
    Sobe, Luísa,
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.

    Saiu de casa
    de madrugada;
    regressa a casa
    é já noite fechada.
    Na mão grosseira,
    de pele queimada,
    leva a lancheira
    desengonçada.
    Anda, Luísa,
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.

    Luísa é nova,
    desenxovalhada,
    tem perna gorda,
    bem torneada.
    Ferve-lhe o sangue
    de afogueada;
    saltam-lhe os peitos
    na caminhada.
    Anda, Luísa.
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.

    Passam magalas,
    rapaziada,
    palpam-lhe as coxas
    não dá por nada.
    Anda, Luísa,
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.

    Chegou a casa
    não disse nada.
    Pegou na filha,
    deu-lhe a mamada;
    bebeu a sopa
    numa golada;
    lavou a loiça,
    varreu a escada;
    deu jeito à casa
    desarranjada;
    coseu a roupa
    já remendada;
    despiu-se à pressa,
    desinteressada;
    caiu na cama
    de uma assentada;
    chegou o homem,
    viu-a deitada;
    serviu-se dela,
    não deu por nada.
    Anda, Luísa.
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.

    Na manhã débil,
    sem alvorada,
    salta da cama,
    desembestada;
    puxa da filha,
    dá-lhe a mamada;
    veste-se à pressa,
    desengonçada;
    anda, ciranda,
    desaustinada;
    range o soalho
    a cada passada,
    salta para a rua,
    corre açodada,
    galga o passeio,
    desce o passeio,
    desce a calçada,
    chega à oficina
    à hora marcada,
    puxa que puxa,
    larga que larga,
    puxa que puxa,
    larga que larga,
    puxa que puxa,
    larga que larga,
    puxa que puxa,
    larga que larga;
    toca a sineta
    na hora aprazada,
    corre à cantina,
    volta à toada,
    puxa que puxa,
    larga que larga,
    puxa que puxa,
    larga que larga,
    puxa que puxa,
    larga que larga.
    Regressa a casa
    é já noite fechada.
    Luísa arqueja
    pela calçada.
    Anda, Luísa,
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.
    Anda, Luísa,
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.
    António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967)

  3. JgMenos says:

    Sempre mesquinho, sempre raivoso…

    • Rui Naldinho says:

      Ui, como eu estou! Tão sensivel!
      Mesquinho, raivoso,…assenta-te que nem uma luva. E de pelica.

    • José Peralta says:

      Ó “mendes” !

      Deves ter o teclado em “piloto automático” e por isso nem controlas o que “ele” escreve !

      Então não é que o sacana (o teclado, claro ! ) o que “teclou” foi o teu auto-retrato ?

      SEMPRE MESQUINHO, SEMPRE RAIVOSO…

    • anti pafioso. says:

      Limpa a boca ,é só espuma .

  4. 1 h ·
    Sinopse do estudo sobre a candidata ideal para a Câmara de Lisboa, por… Câmara Pereira ( de qualquer modo, 2 Câmaras de diferente importância, suspeitando-se que a segunda Câmara referida, seja a de Pereira do Campo!)

    “dissertação sobre a competência autárquica de Assunção Cristas pertence ao seu aliado do PPM, Gonçalo Câmara Pereira:
    “Como mulher, a dr.ª Assunção Cristas sabe bem que, para se trabalhar, não se pode usar espartilho nem a saia travada, a saia tem de ser larga e, se necessário, vestir calças, calças que ultimamente não se sabe onde andam, custam a ver”.

  5. Dr. Fonseca Galhão says:

    Um reparo: se usasse repelentes de parasitas, ficava sozinha no Largo do Caldas.

  6. Rui Naldinho says:

    ” Esta Noémia saiu-me cá com uma crista! “

  7. Boa, gostei. Mas as toalhas de algodão teriam de ser estrangeiro, o cultivo de algodão em Portugal é pouco significativo, embora com o Alqueva e a mania portuguesa de desperdiçar água esteja a ser tentado no Alentejo.

  8. E entretanto acorda o marido que já tinha adormecido…. Ai que o meu homem acordou…

  9. JgMenos says:

    Que piroseira…

  10. JgMenos says:

    Luísa é nova,
    desenxovalhada,
    tem perna gorda,
    bem torneada.
    Ferve-lhe o sangue
    de afogueada;
    saltam-lhe os peitos
    na caminhada.
    Anda, Luísa.
    Luísa, sobe,
    sobe que sobe,
    sobe a calçada.
    …não é a coitadinha que querem fazer dela os lamurientos!

    • José Peralta says:

      Claro que não a “coita”dinha, ó “menos” !

      É a “coita”…dona…e não sobe a calçada ! Antes pelo contrário !

Trackbacks

  1. […] e aquela outra que confrontava a menina-doméstica que faz o lanche, mesmo como o Paulo Portas e a entourage da Cristas as querem, e o menino construtor de robôs. Sempre quis ter uma filha e nunca, mas nunca lhe […]

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