Lixo humano, político e jornalístico

O que se passou nos últimos dias apresenta todos os contornos de uma campanha orquestrada entre comunicação social e políticos. A página dos truques faz a resenha, que aqui fica para memória futura. Creio não errar ao afirmar estarmos perante o mais rasca lixo humano, político e jornalístico a que assistimos na política pós-25 de Abril. Faltou referir  o episódio do suicídio, bem como o patético ultimato do líder para lamentar do PSD e a sua vanglória pelos resultados (?) alcançados. Merece esta gente um lugar no Parlamento? Eu acho que não.

A cobertura mediática da tragédia de Pedrógão Grande foi logo desde o início bastante discutida. Câmaras a captar testemunhos sem filtro e em momentos inapropriados, diretos ao lado de cadáveres, drones que sobrevoavam a (rapidamente denominada) ‘Estrada da Morte’, o estranhíssimo caso do correspondente do El Mundo – Sebastião Pereira, a não-queda do Canadair… No fundo, um espetáculo intenso e com uma carga emocional invulgar, que se traduziu inevitavelmente em notícias com contornos que até agora desconhecíamos.

Poderíamos dizer, em resumo, que para além de toda a tragédia de Pedrógão Grande, este foi, também, um laboratório com alguns dos maiores desafios contemporâneos que a imprensa tradicional enfrenta: perante a turbilhão informativo do twitter, perante os lives do facebook, perante o acesso franco do público à opinião de inúmeros especialistas e “especialistas”, perante as fontes e as “fontes” que surgiam, ainda mais, de todo o lado…

Ao longo das últimas semanas, têm sido diversas as reflexões produzidas em torno do sucedido e as opiniões são mais ou menos convergentes num ponto: houve jornalistas e órgãos que tiveram prestações exemplares (demos aqui o exemplo de José António Pereira, da RTP) e houve quem tivesse reagido com grande dificuldade. Houve casos de aproveitamento explícito, especulação, propagação de notícias falsas e sensacionalismo.

Mais de um mês depois, quando já tudo parecia ter assentado, a polémica reacendeu, desta vez em torno do número de mortos do incêndio. É certo que desde 24 de Junho víamos este assunto aflorado nas redes sociais, através de muitos apontamentos individuais que sugeriam “isto e aquilo” com elevado grau de certeza, mas reduzido grau de credibilidade. Foi, no entanto, no passado sábado, 23 de Julho, que o caso ganhou outra robustez. O Expresso fez manchete com “Lista de 64 mortos exclui vítimas de Pedrógão” e estava prometido um escândalo com proporções inimagináveis.

Já aqui falámos, no próprio dia da publicação do jornal, de como este título planta a dúvida em relação ao número de vítimas, sem apresentar depois factos que confirmem a afirmação que faz. O Expresso diz na primeira página que o número era superior no plural, mas na própria peça menciona apenas mais um caso no singular, que não sendo considerado como “morte direta”, acabaria por nem pertencer à lista. Depois, afirmava que se tratava de uma lista “que o governo não queria divulgar”, sendo que ela pertencia ao Ministério Público e, estando sob segredo de justiça, era apenas ao próprio Ministério Público que cabia a possibilidade de a tornar pública. Por fim, ignorava que os critérios que determinavam os conceitos de “morte direta” e “morte indireta” eram oficiais e muito anteriores à tragédia.

“Durante semanas, o Expresso vasculhou o terreno, confrontou nomes e locais e foi construindo, passo a passo, uma lista própria e que acabou por ser confirmada como idêntica à oficial.” – Entre a manchete, o título da notícia e o seu conteúdo há uma contradição nos termos, explícita para qualquer leitor.

É esta a primeira vez que os rumores de semanas ganham forma de notícia, e logo através de um dos jornais mais lidos do país.

No mesmo dia, o jornal i lança no online uma notícia de última hora: “Incêndios. Empresária contou mais de 80 mortos em Pedrógão Grande”. Segundo a notícia, uma empresária de Lisboa, Isabel Monteiro, fez uma lista provisória com os nomes das vítimas a fim de criar um memorial de homenagem. A lista contava com mais de 80 nomes e, segundo contou ao i, o número podia ainda ser muito superior. A empresária tinha 73 vítimas mortais confirmadas pelas famílias, com nomes, moradas e local da morte.

O caso ganhava densidade à medida que outros órgãos juntavam fontes aparentemente novas e diversas à suspeita lançada pela manchete do Expresso. Mesmo considerando que essa manchete era posta em causa pela própria notícia, ela lançava a lebre, e o caso era excessivamente grave para ficar ali resolvido. Os leitores exigiam esclarecimentos.

Na segunda-feira, dia 24, o i faz manchete em papel com uma investigação que “aponta para um número de mortes muito superior ao anunciado pelo governo” e cita diversas fontes. Mais de 80, dizem uns. Pelo menos 95, dizem outros. 73 foi o número assumido pelo jornal, confirmado através da lista de Isabel Monteiro. Já não estava em causa a questão do critério para considerar “mortes diretas.” Entre estes 7 novos casos, garantia o i, havia quem tivesse morrido diretamente por força do fogo. O que aparentava ser grave acabava de se tornar gravíssimo. A partir daqui, vários órgãos republicaram a notícia, dando-lhe cobertura e difusão. A TVI decidiu entrevistar a fonte, que recusou a obrigação de fornecer as provas de que dispõe à investigação criminal em curso.

Nesta mesma noite, no Jornal da Noite, numa infografia cuja pertinência acabou por ser muito discutida, a SIC apurou que a lista da empresária continha várias imprecisões, como nomes repetidos, e reafirmou a notícia do Expresso: 64 mortes diretas. 1 morte indireta. Acrescentou ainda a possibilidade de se considerar um novo caso, de uma pessoa que veio a morrer um mês depois, vítima de pneumonia. Bernardo Ferrão, subdirector da estação, dirigindo-se ao governo, pede que “não atirem areia para os olhos.” “Esclareçam tudo. O erro foi não o terem feito logo de início” – acrescentou. Henrique Raposo, no Expresso, defende que “ocultar o número de mortos de Pedrógão para assim não prejudicar a imagem do Governo e da proteção civil já está para além da amoralidade maquiavélica da política.” Exige a queda do governo.

Na terça-feira de manhã, dia 25, o jornal i noticia que a lista já contava apenas com 69 nomes, excluindo assim as imprecisões entretanto detectadas.

Ao final desse dia, a Procuradoria-Geral da República lançou um comunicado onde divulga a lista oficial de vítimas do incêndio de Pedrógão Grande e onde confirma as imprecisões na lista de Isabel Monteiro, que entretanto circulou: “Da análise dos elementos recolhidos apurou-se a existência de diversas imprecisões quanto à identificação das pessoas indicadas na referida lista, bem como repetição de nomes em, pelo menos, seis situações”. 64. É este o número de mortos que constam na investigação ao Incêndio.

Na sua edição de hoje, a direção do i passa estranhamente ao lado do comunicado do Ministério Público. Não contesta. Não reafirma as suas diferentes versões de segunda e terça. Também não corrige. Não pede desculpa aos leitores. E decide dar um sentido curioso ao comunicado: “Ministério Público cede à pressão política.” – ignorando que a pressão era, fundamentalmente, mediática. Ignorando que essa pressão mediática tinha como um dos atores principais o próprio i. Desresponsabilizando-se e afastando-se de um caso onde esteve envolvido desde início.

Já o Expresso opta pelo auto-elogio e entende que o comunicado “confirma todas as informações reveladas” pela edição de sábado. Mas como podem considerar que o Ministério Público dá razão à sua versão quando o comunicado diz, literalmente, que “no âmbito deste inquérito [ao incêndio de Pedrógão Grande] foram identificadas, até ao momento, 64 vítimas mortais.” Não há uma contradição entre “foram identificadas 64 vítimas mortais” e “lista de 64 exclui vítimas”, como dizia a manchete de sábado? Tal como o jornal i, o Expresso também atribui à pressão política (neste caso, mais concretamente, ao PSD) a responsabilidade da divulgação do MP.

No fim de tudo isto, e no sentido de clarificar o caos que se viveu nos últimos dias, as atenções voltam-se para Isabel Monteiro, a empresária a quem parte da imprensa atribuiu, aparentemente, uma credibilidade excessiva, num caso sensível e que merecia ser abordado de forma especialmente cuidada. Diversas informações têm vindo a surgir que poderiam ter afectado a idoneidade da fonte. Elas não foram atendidas pelo jornal i e pela TVI, por exemplo. Mas será o Expresso uma exceção?

Não sabemos. Sabemos apenas que, apesar de ter optado por nunca citar diretamente a empresária Isabel Monteiro e de não assumir a fonte, o Expresso tê-la-á ouvido e considerado no processo de investigação. Poucas horas depois de o jornal estar nas bancas, às 9:25 da manhã, Isabel Monteiro usa o seu facebook pessoal para agradecer à jornalista Christiana Martins, primeira autora da notícia, “por ter acreditado.”

Expresso e i disseram que faltavam nomes à lista de 64. Outros órgãos deram cobertura à mesma tese. Agora, depois de alguns dias agitados e com uma lista oficial publicada, é preciso que a imprensa responda categoricamente às questões que ela própria levantou: Que nomes faltam a estes 64 nomes agora apresentados pelo Ministério Púbico? O Governo ocultou ou não ocultou nomes da lista de vítimas que constam da investigação ao incêndio?

Face ao silêncio e às omissões de alguns órgãos, que agora optam por deixar cair o assunto que criaram, parece que as conclusões, mais uma vez, têm de ficar a cargo dos leitores. Se o que se passou nos últimos dias é informação, em que é que esta difere da confusão?

Comments

  1. Konigvs says:

    Acho mesmo que estás a errar.

    É verdade que eu estou muito por fora do que tem acontecido e se relaciona com incêndios (é tema que dispenso) mas parece-me que a patetice do “suicídio político” e da “contagem de mortos”, é uma coisa de meninos quando comparado com o que se passou com o “Inventão de Carcavelos”.

    Ainda hoje há pessoas (aconteceu há duas semanas comigo) a teimar que 500 pretos varreram a praia e limparam o comboio da linha de Sintra. E teimam porque a comunicação social, que inventou o Arrastão, depois nunca se retratou.

    Mas daqui por uns dias ninguém se lembrará dos suicídios por falta de apoio nem se o número de mortos estava certo ou errado.

    (eu depois venho cá ler a resenha dos acontecimentos dos pseudo-mortos. agora vou dormir)

  2. E agora a confusão vai aumentar.
    Os jornalistas que estão nos locais de incendio noticiam o que está a acontecer no terreno, enquanto os que estão nas conferencias de imprensa com a autoridade nacional de protecção civil noticiam outra completamente diferente, baseada na informação “filtrada”.

    Rui Silva

    • Os jornalistas que estão nos locais devem estar a encontrar os corpos que o Costa andou a esconder. Deve ser isso.

      Informação não filtrada tipo a da empresária e da sua lista com nomes repetidos.

      A melhor explicação é esta:

      “Creio que já solucionei o mistério da contagem de mortos em Pedrogão. A explicação é sinistra mas a única possível.
      Várias pessoas asseguram que houve muito mais mortos do que os 64 oficiais.
      Todos os mortos tinham necessariamente de ser autopsiados. É legalmente obrigatório.
      A direcção do Instituto de Medicina Legal, e o Ministério da Justiça que o tutela, já garantiram que só se fizeram 64 autópsias.
      Assim, o que aconteceu é óbvio. O Costa e a Constança, munidos de pás, passaram aquela fatídica noite a enterrar cadáveres à socapa, no meio da floresta. Possivelmente com a ajuda do Marcelo.
      E aquele caso muito estranho da senhora atropelada, que o governo andava a tentar escamotear, também está muito mal explicado. Cá para mim, ela não estava a fugir do fogo mas sim do Costa que tinha dado com ela, atrás de uma árvore, a filmar tudo no telemóvel. Foi eliminada.
      Aliás, no próximo fim‑de‑semana o Expresso vai dar destaque ao estranho desaparecimento do Samsung da vítima.
      Tudo isto é triste mas não me surpreende. Esta gente da Geringonça faz o que for preciso para se manter no poder. Felizmente existe uma Imprensa livre e sempre atenta.” –
      Miguel Raimundo
      http://www.facebook.com/miguel.raimundo.90/posts/1352665384829165

      • Não é preciso ser professor para saber que:

        66 > 64

        mas tratando-se de vidas humanas não é “poucochinho”.

        Rui SIlva

          • Detalhes.

            “A Procuradoria-Geral da República divulgou, esta terça-feira, os 64 nomes das vítimas mortais na tragédia de Pedrógão Grande, que é igual à já divulgada pelo Expresso no sábado. Em comunicado, confirma ainda que estão em curso duas investigações relativamente à morte de Alzira Carvalho da Costa, que foi atropelada, e José Rosa Tomás.”

            “A morte de Alzira Carvalho da Costa está a ser investigada no âmbito de outro inquérito, iniciado logo que noticiado o acidente de viação ocorrido”, lê–se na nota. “Quanto a José Rosa Tomás, cuja causa de morte, até ao momento, não está sinalizada como diretamente relacionada com o incêndio, o Ministério Público não deixará de recolher elementos com vista a definir todas as circunstâncias em que a mesma ocorreu”, acrescenta.

          • Eu vou esperar para ver …

            RS

          • Se agora no conforto dos gabinetes decidirem ( ou votarem ) que estas mortes não tem relação com o incendio ficamos tranquilos e aceita-se, uma vez que quem sabe sabe.
            Quem somos nós para pensar ?

            RS

          • Eu vou mais longe. Todos os mortos do Concelho devem ser considerados como resultantes do incêndio. Era o que faltava andarem a filtrar informação.

  3. JgMenos says:

    Cordeiro agita-se mas nada diz sobre o facto base da polémica:
    O Governo sai da cena fazendo perguntas, sem cuidar de dar respostas.
    Geringonço mesmo!

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading