From Russia, with love #9 (Saint-Petersburg)


São Petersburgo é o lugar menos turístico do mundo,

se apanharmos, na Admiralteyskiy, o autocarro número 10 para Troitskiy pr. É aqui que fica, no cruzamento com o Izmailovskiy pr. a catedral da Trindade. A mesma que vi ontem do alto da ‘colonnade’ da Catedral de Santo Isaac, com as enormes cúpulas azuis, com estrelas douradas a destacarem-se belíssimas no horizonte. Quando saí quase em fren

 

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te da igreja, despertou-me a atenção a enorme coluna com um anjo em cima, rodeada de canhões. Parece que é uma homenagem aos soldados russos. Atrás dela a Catedral da Trindade, linda e branca, com as suas enormes cúpulas azuis e douradas. Fotografo as cúpulas de vários ângulos. Depois entro. Há senhoras a pedir à entrada da igreja. Não se vê um turista nas redondezas. A não ser eu.

Quando entro na igreja, o mundo pára um bocadinho. É enorme e magnífica. Não vejo o sinal de proibição de tirar fotografias e há um baptizado a decorrer. O padre canta e o seu canto ecoa na grande nave da igreja. O bebé é grande e loiro, parece um anjinho papudo. Não chora nunca, durante os longuíssimos minutos que lá estive. Quando quero tirar uma fotografia ao baptizado um senhor diz-me que não se pode tirar fotografias na igreja. Obedeço, naturalmente e, em vez das fotografias, acendo uma velinha miudinha e frágil que deixo arder entre as demais. Fico, como é costume, a olhar para ela. Depois saio.
Cá fora o dia continua magnífico, cheio de sol e bondade. São Petersburgo continua a ser o lugar menos turístico do mundo, quando apanho o pequeno autocarro K90, na rua Krasnoarmeyskaya. O meu guia (da Lonely Planet) aconselha a que, em vez do autocarro turístico, se tomem os autocarros normais. E eu assim faço. Não é difícil. Nada é (ou tem sido até agora) difícil em São Petersburgo. Os bilhetes de autocarro são muito baratos (40 rublos, cerca de 60 cêntimos), por isso compensa largamente e sempre poupo nos pés. O meu destino agora é o Instituto Smolny, onde se iniciou a revolução russa, está quase a fazer 100 anos. Quando saio do autocarro, na rua Tulskaya, ando um pouco para trás na Suvorovskiy até à praça da Ditadura do Proletariado. Só descubro o nome da praça depois, mas a cidade continua a ser o local menos turístico do mundo entre os pesadíssimos edifícios soviéticos que compõem a praça.
Entro no parque Smolny, avistando desde há um bocado, as maravilhosas cúpulas do Convento Smolny. Um polícia está junto do seu carro e olha para mim quando me vê boquiaberta a ler (alto, porque só assim é que percebo) o que está escrito de um lado e de outro da entrada. Ao fundo do parque, silencioso e muito verde, o Instituto Smolny, outrora colégio para meninas nobres, beneficiando da proximidade do convento, depois quartel general da Revolução Russa, residência temporária de Lenine e sede do Partido Comunista da União Soviética. Atualmente é sede do ‘governo’ da cidade. O Instituto está fechado ao público e os aposentos antes ocupados por Lenine podem ser visitados se se marcar com muito tempo de antecedência. Não marquei, evidentemente.
Mas voltando ao que estava a ler diante do polícia, antes de percorrer a rua principal ladeada de verde, e ter encontrado os bustos de Marx (à direita) e Engels (à esquerda), de um lado dizia ‘proletários de todo o mundo, uni-vos!’ e do outro ‘primeiro conselho da ditadura do proletariado’ (ou qualquer coisa muito parecida com isto). Havia igualmente umas placas, mas não tive russo suficiente para as ler e as compreender, naturalmente. Pedi que me tirassem uma fotografia, não ao polícia, claro, de punho erguido, junto à placa encimada pelo ‘retrato’ em relevo de Leninee avancei então pela rua principal do parque até ao edifício do instituto, bem bonito por sinal. Havia muitos carros topo de gama e pessoas muito bem vestidas, entravam e saíam. Olhei de fora a estátua do camarada Lenine, de braço estendido rumo aos amanhãs que cantariam para os proletários do mundo inteiro e perguntei ao polícia (outro polícia) que estava à porta, se podia entrar. Que não. Ao menos para tirar umas fotografias. Está bem, entre lá. Achei simpático. E tirei fotografias à estátua do camarada Lenine, pensando que o André haveria de gostar.
Não podendo visitar o Instituto Smolny, contorno-o para encontrar os muros do Convento com o mesmo nome. É azul e lindo e está igualmente fechado quando chego à entrada principal. Continuo a estar no local menos turístico do mundo diante do Convento Smolny e isso agrada-me tanto que me ponho a observar tudo muito bem e é então que vejo uma placa (que leio alto) que me anuncia ‘Faculdade de Sociologia’. Estou a olhar para aquilo divertida quando sai uma senhora. Avanço e pergunto se fala inglês. Que sim, um pouco. Digo-lhe que sou portuguesa e socióloga. Ela diz que também e aperta-me a mão com entusiasmo. Pergunto se posso entrar, diz-me que sim, sendo que ela vai sair. Despedimos-nos. Entro na faculdade de sociologia mais bonita do mundo e aparece uma senhora que me diz que não posso estar ali, quero dizer, deduzo que seja isso, pelo ar ameaçador que apresenta. Tento explicar. Mantém o mesmo ar. Sou salva por uma rapariguinha, provavelmente estudante de sociologia. Explico-lhe em inglês, ela repete em russo à senhora. Esta continua a dizer que não posso andar assim pelos corredores da faculdade. Eu digo à rapariga que está bem e desço as escadas. A miúda, futura socióloga da faculdade de sociologia mais bonita do mundo, despede-se com um sorriso e diz-me ‘boa sorte’.
Faço o caminho inverso, mas vou um pouco mais longe e apanho o autocarro 5 para Nevsky pr. Antes descubro que a praça defronte do Smolny se chama Ditadura do Proletariado. Em vários edifícios existem foices e martelos, estrelas, lenines e saudações à revolução de outubro. Saio do autocarro perto da rua do hotel, bebo um sumo de fruta que é a oitava maravilha sentada numa esplanada e, na Nevsky, São Petersburgo é outra vez o lugar mais turístico do mundo. E assim está bem. Apesar disso, em toda a parte encontro amabilidade e simpatia (se excetuarmos a senhora ‘porteira’ da faculdade de sociologia mais bonita do mundo). Já o disse, mas os russos são simpáticos, generosos e prestáveis. Anttes de vir alguém me disse que era perigoso vir para a Rússia sozinha. Não acreditei e, até agora, a realidade tem-me dado razão. Nunca me senti insegura, nem mal tratada. E São Petersburgo é uma cidade ainda mais amável que Moscovo. Pelo clima, pelas pessoas, pelas ruas mais estreitas e pequenas, pela dimensão e escala mais humanas. A todos os níveis. Por exemplo, quando cheguei perguntei no hotel se me indicavam uma lavandaria. Precisava de lavar duas ou três coisas. Procuraram incansavelmente e no centro não havia praticamente nada. Até que a senhora me disse ‘deixe comigo, eu levo e amanhã tem as coisas lavadas’. E tinha. Quando perguntei ao rapaz que me entregou a roupa bem cheirosa quanto devia disse-me com ar espantado ‘não é nada’. Por estas e por outras, mesmo sendo o local mais turístico do mundo, São Petersburgo é também o local menos turístico do mundo. E este equílibrio é o que torna, mais que os palácios, a cidade especial.
Depois do sumo de fruta atravessei o Neva até Vasileostrovsky para ver o rio daquela perspectiva. Ali está a fortaleza de Pedro e Paulo com as cúpulas da catedral com o mesmo nome a reluzir ao sol do fim da tarde. Ali está o Hermitage. Ali, do outro lado, o Almirantado. Ali está a universidade. Refaço o caminho, mas vou pela Praça dos Palácios. Quando entro reparo nos tanques e nos soldados. Pergunto a um rapaz de que se trata, diz-me que é uma acção militar de exposição de veículos russos da II Guerra Mundial. Em cada tanque e em cada carro ramos de cravos vermelhos. São Petersburgo é como em casa, portanto. Cravos vermelhos em tanques. O lugar menos turístico do mundo.

Comments

  1. Sandrina says:

    Visite os tomolos de

    Nikolai Voznesensky
    Mikhail Rodionov
    Aleksei Kuznetsov

    á jà esquecia, não sabemos onde foram enterrados.

    Moscou e Leningrado eram dois centros de poder na União Soviética. Os pesquisadores argumentam que a motivação por trás dos casos foi o medo de Joseph Stalin da concorrência dos líderes mais jovens e populares de Leningrado – que tinham sido tratados como heróis após o cerco da cidade durante a Segunda Guerra Mundial.
    O desejo de Stalin de manter o poder foi combinado com a sua profunda desconfiança de alguém de St. Petersburg / Leningrado a partir do momento do envolvimento de Stalin na Revolução Russa, Guerra Civil Russa, a execução de Grigory Zinoviev e a Oposição de Direita. Entre os concorrentes de Stalin de Leningrado que também foram assassinados constam dois ex-prefeitos da cidade:Sergei Kirov e Leon Trotsky.
    Durante o cerco a Leninegrado, os líderes da cidade eram praticamente autônomos de Moscou e mesmo assim conseguiram construir uma defesa impenetrável que salvou a cidade durante os 900 dias de duração do cerco ganhando a batalha por conta própria. Os sobreviventes do cerco se tornaram heróis nacionais, e os líderes de Leningrado novamente ganharam muita influência no governo Federal Soviética em Moscou. Agora Stalin precisava restaurar seu controle ditatorial.
    Eventos
    Em janeiro de 1949 Pyotr Popkov, Aleksei Kuznetsov and Nikolai Voznesensky organizaram a Feira de Leningrado para impulsionar a economia do pós-guerra e apoiar os sobreviventes do cerco a Leninegrado trazendo bens e serviços de outras regiões da União Soviética. A Feira foi atacada por funcionário soviético da propaganda, e foi falsamente retratada como um esquema para usar o orçamento federal de Moscou para o desenvolvimento de negócios em Leningrado, embora o orçamento da feira fora aprovado pelo Comissão de Planejamento do Estado.
    O acusador inicial era Georgy Malenkov, primeiro vice de Stalin. Então acusações formais foram formuladas pelo Partido Comunista e assinadas por Malenkov, e Lavrentiy Beria. Mais de duas mil pessoas do governo da cidade de Leningrado e as autoridades regionais foram presos. Também foram detidos muitos gerentes industriais, cientistas e professores universitários. A cidade e as autoridades regionais em Leningrado foram rapidamente ocupados por comunistas pró-Stalin transplantado de Moscou. Vários políticos importantes foram presos em Moscou e outras cidades em toda a União Soviética.
    Como resultado do primeiro julgamento, em 30 de setembro de 1950, Nikolai Voznesensky (presidente da Gosplan), Mikhail Rodionov (presidente da RSFSR do Conselho de Ministros da União Soviética), Aleksei Kuznetsov e outros três foram condenados à morte sob falsas acusações de desvio de recursos do orçamento do Estado soviético de “negócio não aprovados em Leningrado”, que foi rotulados como traição anti-soviética.
    Execuções
    O veredicto foi anunciado por trás de portas fechadas após a meia-noite e as seis principais réus, incluindo o prefeito da cidade, foram executados por fuzilamento em 01 de outubro. Mais de 200 funcionários de Leningrado foram condenados a penas de prisão de 10 a 25 anos. Suas famílias foram despojados de direitos para viver e trabalhar em qualquer grande cidade, limitando assim a sua vida para a Sibéria.
    Cerca de 2.000 figuras públicas de Leningrado foram removidos de suas posições e exiladas da sua cidade, perdendo suas casas e outros bens. Todos eles sofreram repressão juntamente com seus familiares. Respeitados intelectuais, cientistas, escritores e educadores, muitos dos quais eram pilares da comunidade da cidade, foram exilados ou presos nos campos de prisioneiros. Intelectuais foram duramente perseguidos pelos menor sinal de dissidência, como Nikolai Punin, que foi morto na prisão por expressar o seu desagrado da propaganda da União Soviética e os milhares de retratos de Lenin.
    O Caso Leningrado foi organizado e supervisionado por Malenkov e Beria. Execuções e purgas foram feitas por Viktor Abakumov e pelo MGB (sucessor da NKVD) . Os tumulos dos líderes executados de Leningrado nunca foram marcados e suas localizações exatas ainda são desconhecidas. ( in Wikipedia)

    Sandrina Kozlov

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