Uma erva daninha com forma humana


Manifestante contra o glifosato. Foto: Reuters

Ora pronto, acabou a dança, via livre para dar continuidade à destruição da biodiversidade vegetal e animal, à contaminação dos lençóis freáticos, à redução da fertilidade natural do solo, à agricultura intensiva e ao ataque à saúde pública: O Comité de Recurso da União Europeia (UE) deu ontem “opinião positiva” à proposta de renovação por cinco anos do uso do glifosato, com uma maioria qualificada de 18 Estados-membros a favor e a abstenção de Portugal.

Era de esperar? Sim, era de esperar que os lobbiistas pudessem ontem fazer estalar a rolha das garrafas de espumante brindadas pelos chefes. Mas ainda assim… como ocorreu esse prodígio, se ainda há cerca de duas semanas não tinha sido possível conseguir uma maioria favorável para aprovação do prolongamento da licença???  

O prodígio foi realizado por Christian Schmidt, ministro da Agricultura e membro do CSU (União Social Cristã), o partido “irmão” do CDU de Merkel porém mais conservador (ainda), que só existe na Baviera e por lá impera há décadas, mas que nas últimas eleições para o parlamento decaiu para 38,8%, o pior resultado desde 1949. Desde então, o partido encontra-se num tumulto interno, tendo como pano de fundo as eleições para o parlamento regional no Outono do próximo ano.

À revelia do regulamento interno do governo federal, este senhor, em vez de seguir o procedimento que estabelece a abstenção em votações europeias na circunstância de posicionamento oposto de dois ministérios – como neste caso, com Ministério da Agricultura a favor e o Ministério do Ambiente contra-, dá ordem para que a Alemanha vote a favor do prolongamento, passando por cima de tudo, e possibilitando assim, à justa, uma maioria qualificada de mais de 55% dos países da UE e representando pelo menos 65% do total da sua população (com 65,7%).

Exactamente duas horas antes do início da reunião do Comité de Recurso comuniquei claramente por telefone ao colega Schmidt que continuo a não concordar com o prolongamento da licença do glifosato, nem mesmo sob quaisquer condições”. “Era pois óbvio que a Alemanha tinha que se abster na reunião do Comité de Recurso” declarou Barbara Hendricks, ministra do Ambiente, do SPD. Passados 40 minutos, Schmidt confirmou por SMS que a divergência entre os dois ministérios se mantinha, subentendendo-se que haveria abstenção. E eis que, no momento da verdade, Schmidt dá luz verde ao prolongamento.

Obviamente, Hendricks acusou Schmidt de violação da confiança e Andrea Nahles, líder do grupo parlamentar do SPD, exigiu saber se Schmidt actuou por sua alta recreação ou se tinha o beneplácito da chanceler, questionando se Angela Merkel ainda “tem mão” na sua própria equipa. Ao que hoje, com uma desmesurada petulância, Schmidt veio dizer que tomou a decisão “por si próprio”, justificando-se com o argumento de que a Comissão, de qualquer modo, iria decidir a favor do prolongamento caso o Comité de Recurso não tomasse uma posição e que, ao fazê-lo ele, conseguiu introduzir condições importantes para protecção da biodiversidade e dos animais e maiores restrições ao uso do glifosato. A hipocrisia não tem limites.

As razões de Schmidt (que até ao dia de ontem era uma figura deslavadíssima deste governo) para esta afronta ao SPD são transparentes: preferiu servir os agricultores bávaros (peças importantes para as próximas eleições na Baviera) do que a conjuntura nacional e, mais no fundo, agradar à Monsanto e à Bayer. Quem sabe, talvez já tenha um lugarzito em vista na megaempresa que está prestes a desabrochar.

Entretanto, colocada numa posição extremamente desconfortável para as desejadas negociações com o SPD, Merkel admoestou Schmidt publicamente por “não actuar em conformidade com o procedimento acordado” e avisando que tal não deverá voltar a acontecer. Mas o clima está envenenado e a possibilidade de uma coligação mais tremida do que nunca.

Obrigadinha, sr. Schmidt. Fez um elevado serviço à indústria de agroquímicos, aplicou uma boa bofetada à sua colega, deu um pontapé ao princípio da precaução, contribuiu para a degradação do ambiente, ignorou uma substancial fatia da sociedade civil e fez um grande favor à Comissão, que estava a ver que tinha que voltar a ser a má da fita. O comissário europeu para a Saúde, o tal do KGB, veio mostrar o seu contentamento: “O voto de hoje mostra que quando todos queremos, somos capazes de partilhar e de aceitar a nossa responsabilidade coletiva no processo de decisão”. À saúde! (do glifosato).

Acabei de assinar uma petição exigindo a sua demissão, sr. Schmidt. É muito pouco e bem sei que Merkel não pode arriscar a guerra com o CSU e que, neste governo de gestão, nem poderia nomear um substituto. Mas seria o mínimo. Vá já para o seio da sua corja.

Quem tem glifosato à mão?

Comments

  1. Uma vergonha eleger políticos que em vez de defender quem supostamente estão a representar, defendem aqueles que nos matam. Todos esses políticos que defendem práticas que nos estão a matar deveriam eles ser empalados em praça pública. A começar pelos políticos nacionais do PS, PCP, PSD e CDS que votaram contra a proibição do Glisosato em Portugal.
    Deveriam eram ter dado herbicidas às putas que os pariram.

  2. …mais um dia de luto nesta causa, Ana ! mundo cão o dessa gente com poder de tanto malefício !!! não serem eles os primeiros a sofrer as consequências desse maldito herbicida !
    E Portugal abstém-se ? , shame on them também, aliás era de esperar, e não terem votado com maioria a favor já é caso.
    obrigada pelas sua informações tão completas, Ana.
    Essa petição que refere é a sério ? e foi na Alemanha, é ? pelo menos a ser assim houve reação imediata, dá para comparar com nós por cá….cujo Presidente às tantas já deve andar a cantar as janeiras ……ou estará a ver da hora para vos receber ? : (

  3. Rui Naldinho says:

    Mais uma vez o SPD no seu melhor. Não, não me lixem! Isto não é um caso isolado. É recorrente nos últimos vinte anos.
    Depois queixam-se de ter alcançado apenas 20,5% nas eleições germânicas.
    Quando acabei de ler este texto da Ana Moreno, lembrei-me logo do episódio de ontem, entre o BE e o PS, protagonizado por Mariana Mortágua, e relatado pelo Norberto Pires no post anterior.
    O PS está cheio de chicos espertos. O SPD parece-me que também tem alguns.
    Depois não se queixem!

    • Rui Naldinho says:

      Ah! Com uma agravante. As rendas da energia tiram-nos uns trocos, mas não matam. A renda do Glifos fato ajuda a tirar-nos alguns anos de vida.

    • Rui Naldinho says:

      Afinal enganei-me. O Christian Schmidt, ministro da Agricultura é membro do CSU (União Social Cristã), e não do SPD..
      Pensei que este era mais um Vitorino, dos deles!

      • Ana Moreno says:

        É verdade Rui, desta vez a ministra do SPD queria mesmo que a Alemanha votasse contra e defendia a proibição do glifosato. Comenta-se até que, finalmente, as críticas desta vez não são direccionadas para o SPD e Martin Schulz … Isto anda labiríntico, ninguém sabe prever o que sairá do próximo congresso do SPD no final da próxima semana, se devem ser iniciadas negociações, se não, se novas eleições, se governo de minoria… quem diria que aqui se chegaria…

  4. Ó Ana… “Acabei de assinar uma petição exigindo a sua demissão,“!!!! Eu assim vou ficar com uns abdominais altamente definidos de tanto me 😆 😆 😆 😆

    Até te escrevo já aqui o seguinte: Se esse bacano se demitir é porque tem tacho garantido ou na MONSANTO ou na BAYER ou num dos Bancos das Famílias DONAS do S.M. (tal Durão Barroso!)

    Tirando isto… Se nem a petição com 1,320,517 assinaturas de escravos boçais crentes na ilusão VOTO/DEMOCRACIA serviu para alterar o inalterável, essa petição servirá apenas para libertar a frustração!

    E vou terminar colando o meu próprio comentário que deixei noutra msg tua sobre o maravilhoso químico inventado pelo não menos Magnífico e Maravilhoso Pensamento e Intelecto Umano!

    De facto o programa seguiu…

    Não adiantou o milhão de assinaturas, não adiantou todo o acumular de provas de corrupção via Monsanto Papers, não adiantou o Parlamento Europeu ter pedido restrições, não adiantou a ausência de critérios para avaliar a desregulação endócrina, nada adiantou nada.

    Depois não se admirem de o cidadão comum se sentir atraiçoado pela classe política convencional e se deixar atrair pelo radicalismo.

    Votos – Portugal foi a única abstenção:

    A favor (18): BG, DE, CZ, DK, EE, IE, ES, LV, LT, HU, NL, PL, RO, SV, SK, FI, SE, UK
    Contra (9 ): BE, EL, FR, HR, IT, CY, LU, MT, AT
    Abstenção (1): PT”

    Transcrição de um texto escrito por uma escrava boçal iludida 🙄

    Resta-me continuar a CONTEMPLAR e 😆 😆

    Queres ir festejar ou fica para depois?! 😉

    • Ana Moreno says:

      Oi voza0db, então e a contemplação leva-o ao Nirvana? Está a parecer-me que há por aí uns saltos de lógica ou coerência, mas enfim, nem tudo tem de ser lógico. E rir é um primeiro passo para ser menos contemplativo. Do meu lado, já expliquei, é simples: com ou sem esperança (dependendo do caso), hei-de esbracejar até ao fim. E rir se for o caso, mas este não é certamente. Quem festeja isto são os outros.
      E prometo que vou continuar a contribuir para a elevada definição dos seus abdominais! 🙂 :-):-)

      • “uns saltos de lógica ou coerência” quais, quais?!

        • Ana Moreno says:

          Para não me estender muito voza0db, para uma pessoa que se considera reduzida à contemplação acho-o extremamente interactivo, activo (por exemplo aqui neste, ou no seu blog (é seu, não é?) e bem informado, o que acho tudo óptimo. 🙂

  5. Luís Lavoura says:

    destruição da biodiversidade vegetal e animal, à contaminação dos lençóis freáticos, à redução da fertilidade natural do solo, à agricultura intensiva e ao ataque à saúde pública

    Lá que o glifosato seja mau para a saúde pública, facilmente aceito. Já o resto, parece-me duvidoso. Um jardim numa cidade ou um campo de milho não são supostos ser repositórios de biodiversidade vegetal e animal, logo, é natural que quem cuida deles queira eliminar as ervas daninhas. E os herbicidas (ao contrário dos fertilizantes) são quase totalmente absorvidos pelas plantas e não alcançam os lençóis freáticos.

    Se a Ana tivesse um quintal no qual crescessem continuamente silvas, provavelmente também gostaria de usar glifosato para acabar com elas de uma vez por todas.

    • Ana Moreno says:

      Caro Luís, tudo o que está nessa frase são factos, não são opiniões minhas. Quanto aos lençóis freáticos, veja por exemplo aqui: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-03-19-Herbicida-com-dias-contados-1 :
      “Nos terrenos argilosos onde Arlindo coloca o herbicida, “a concentração fica à superfície mas pode escorrer para as linhas de água se chover”, explica Luísa Rodrigues, especialista em geomorfologia. Mais preocupante, alerta a investigadora, é o uso de herbicidas no maciço calcário da Serra de Aire, sob a qual se aloja um dos maiores lençóis freáticos nacionais. Tudo lá vai parar, sem que se saiba em que quantidades, pois o glifosato não faz parte da lista oficial de substâncias a analisar.”
      Quanto à biodiversidade, aqui: http://www.dnoticias.pt/leitor/cartas/glifosato-mata-GC477109 :
      “No que concerne à biodiversidade é importante compreender que 80% dos nossos alimentos dependem dos polinizadores e os glifosatos estão a destruí-los, com destaque para as abelhas!” ou aqui: http://observador.pt/2017/03/29/quercus-sauda-proposta-para-restringir-uso-de-inseticidas-prejudiciais-para-abelhas/
      “A Quercus saudou a proposta da Comissão Europeia para restringir a utilização de alguns inseticidas prejudiciais para as abelhas e apelou para o apoio do Governo português a esta posição, protegendo o ambiente, a apicultura e a saúde.”
      O caso das abelhas é dramático, há certas espécies que já desapareceram e um grande número de outras está fortemente ameaçado. Verifica-se um declínio populacional que preocupa autoridades e comunidade científica em todo o mundo. Estudos mostram que os pesticidas afectam o funcionamento das sinapses do sistema nervoso das abelhas.

    • Essa dos herbicidas só pode ser para 😆 😆

      “Abstract

      Data on herbicide pollution in groundwater are rather scarce; monitoring data are based on single investigation, focussing on limited area and on few compounds of interest. The large number of approved active ingredients (approximately 600 chemicals) makes difficult to obtain an accurate and actual information on herbicide application in different countries, even if herbicides are the second most important class of pesticides used in the European Union. The results of a two-year monitoring campaign undertaken in two areas intensively cultivated at Lombardy, Northern Italy, showed a diffuse groundwater contamination due to active ingredients and their metabolites. More than 50% of samples overcame M.A.C. and the most common herbicides were Atrazine, Terbuthylazine and Metolachlor, while DEA and DET metabolites were often characterized by greater concentrations than their relative active principles.”

      Se até já há contaminação das águas das redes públicas com as hormonas das pílulas que as idiotas mamam, e de cocaína que os degenerados aspiram… esperar que os herbicidas se limitassem a ficar nas plantas é no mínimo pensamento infantil, no máximo tentativa de adulterar a realidade!

      • …..mais uma razão, então vamos aceitar que nos ponham ainda mais porcarias no caldo ?? comemos e calamos ou deixamos que nos cozam em lume brando como à rã ? quietinhos à espera do fim do mundo e da “umanidade”, ó voza0db ??
        ” balham-te ” os deuses todos do universo !! 😀

        • Nem que queiras, no actual estado da civilização Umana não há local neste grão de areia livre de poluição!

          Assim sendo… comemos e calamos, porque no final das contas adoramos a irresponsabilidade.

  6. Conceição Alpiarça says:

    Obrigada, Ana, por mais este esclarecimento!

    A abstenção de Portugal, revela apenas o eterno, usual e repetido lavar de mãos de Pilatos! Sem frontalmente desagradar aos cidadãos, que pressionaram o ministro do ambiente com os seus apelos, via emails, favorece os interesses da multinacional! Não muito diferente do que acabou de acontecer com o OE relativamente à EDP. Não conseguem, não têm coragem de deixar o(s) “dono(s)” a falar(em) sozinho(s) e, assim, tornam-se seus evidentes lacaios, traindo quem os elegeu como seus directos representantes (AR)!

  7. Conceição Alpiarça says:

    “Desaconselhados de comer comida demasiado gordurosa, demasiado açucarada, demasiado salgada. Mas glifosatada não há problema.”
    Gil Pessanha Penha-Lopes

    Olham-nos e tratam-nos como autênticos imbecis! É a UE que deixamos que subsista graças à inércia do exercício de cidadania!

  8. Abel Barreto says:

    Peço desculpa pela minha ignorância, mas no tal Comité de Recurso da União Europeia, o voto era da Alemanha ou desse tal ministro da agricultura?
    Ou como é possível que por opção de um indivíduo se tomem decisões que afectarão milhões? (e assumindo que no seio da UE vigora um regime democrático).

    • Ana Moreno says:

      Caro Abel, a sua incredulidade é bem compreensível, é um escândalo absoluto; o voto é da Alemanha, tal como o dos outros países; e por haver divergência entre os ministérios alemães, a Alemanha teria que se abster. Mas o tal ministro da Agricultura simplesmente deu ordem ao representante da Alemanha no Comité para votar a favor.
      O voto alemão a favor foi decisivo, porque como a Alemanha tem um grande peso em termos de população europeia (16%), conseguiu-se assim chegar aos 65% que eram necessários segundo as regras da UE e também ao número necessário de países para perfazer a maioria.
      Mas isto não fica por aqui. Para já Schmidt está a receber ameaças e a ser insultado de tal modo que teve de retirar a sua presença no FB.

      • …” Para já Schmidt está a receber ameaças e a ser insultado ”
        boa !! 🙂
        …tou contenta de ter entrado um bocadinho nessa assinando a petição que a Ana indicou contra o “ministro Monsanto ” ! porrada nele !

  9. Ana Moreno says:

    “Essa agora… Isso faz parte da Contemplação!!!!” voza0db, de todas as definições de “contemplação” que constam nos dicionários, ser activo e interactivo não consta em nenhuma, antes pelo contrário. Para a próxima, o realizador diz “Acção” e os actores quedam em estado meditativo 🙂 Acho muita graça ao seus neologismos, mas sem um mínimo de intersubjectividade a comunicação fica babilónica 🙂 🙂

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