Postcards from Greece #54 to #56 (Kavála)

«I have to put the flag out»

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atirou-me o senhor da receção do Old Town Inn, em Kavála (um hotel muito simpático, centralíssimo e escrupulosamente limpo) depois de ter dito ‘Ah, you are from Portugal’. Fiquei a olhar para ele sem compreender e perguntei o que significava colocar a bandeira lá fora. ‘A bandeira de Portugal, ora essa’, disse-me ele como se fosse uma evidência e como se em todos os hotéis colocassem a bandeira nacional de cada hóspede. Eu confesso, já dormi em tantos e nunca dei por que hasteassem a bandeira portuguesa por mim. De maneira que quando regressei do meu passeio pela pitoresca e cheia de charme cidade, lá estava ela, a minha bandeira, ou melhor, a bandeira portuguesa, a ondular levemente ao vento, juntamente com uma bandeira turca, outra alemã e ainda outra inglesa. O hotel é pequeno. É o que lhe vale. Pois se hasteiam uma bandeira por cada nacionalidade dos hóspedes não haveria fachada que chegasse! Quando a vi, ao regressar, senti uma pontinha de alegria. Já se sabe que não sofro de patriotismo, como digo frequentemente podia ser de qualquer parte e, por isso, para quê amor desmesurado a uma pátria que nos calhou apenas por acaso? Mas apesar disto, senti então uma pontinha de alegria ao ver a bandeira portuguesa hasteada na fachada do hotel. Saudades de casa ou apenas, quer eu queira quer eu não queira, o reconhecimento de que, afinal, sempre terei algum prazer (não digo orgulho, vá, que seria demais) em ser portuguesa.

Aliás, pensei hoje em Portugal diversas vezes, especialmente em Aveiro. O cheiro do mar, o cheiro do peixe a grelhar, a luz que a água torna diferente, a música ao jantar – grega, não portuguesa – com um não sei quê de saudade. Mas ainda faltam uns bons dias para regressar e, portanto, o melhor é aproveitar para conhecer mais a Macedónia. Foi com este pensamento que a semana passada decidi que viria a Kavála no sábado e no domingo. Não devia ter vindo que tenho umas coisas para acabar e não há meio de as completar apesar de a deadline ser já amanhã. Não devia ter vindo porque ando cansada, de me deitar tarde, como de costume e de me levantar muitas vezes cedo para as entrevistas e mais não sei o quê. Mas, bom, seguramente que ninguém morre se me atrasar um dia ou dois e ter vindo a Kavála foi uma excelente decisão. Sabe-se lá se voltarei. E aqui estou, com muito poucas horas de sono, porque, de novo, me deitei tarde e, de novo, me levantei cedo para apanhar o autocarro. Não tão cedo como gostaria, no entanto. Só apanhei o autocarro das 11h e cheguei a Kavála por volta da uma e um quarto. Mal pus os pés fora do autocarro, ou ainda antes, apaixonei-me pela cidade.
A viagem é lindíssima, mesmo sendo de autocarro. Quase sempre à beira da água, primeiro dos lagos Koronia e Volvi, e depois do mar Egeu e das suas incontáveis enseadas. E as montanhas ao longe e a cor do céu, ora rosa, ora azul, ora cinzento. E os olivais sem fim a tombar no mar. Belo país, e bem sei que me repito, é a Grécia. De maneira que quando nos aproximámos de Kavála, a minha disposição era doce, apesar do sono. Ao longe, Kavála é a cidade mais bonita do mundo neste princípio de tarde. Ao perto continua a ser magnífica, mesmo que não seja a mais bonita do mundo. Depois de deixar as malas no hotel, saio para subir ao castelo, passando antes pelo velho farol ao fundo da grande rua Poulidou. A mesma onde está o Imaret, agora transformado em hotel, e a igreja Kimisis Theotokou, silenciosa e tranquilíssima com as suas varandas a cair no profundo azul do mar. O acesso ao farol estava fechado, por isso vi-lhe a ponta branca, enquanto um miúdo jogava basquete no que me pareceu ser o pátio de um colégio interno ou casa de acolhimento. Amanhã irei tentar ver o farol pelo outro lado. Talvez tenha mais sorte. O passeio é belíssimo e por isso não fiquei aborrecida com a contrariedade.
Não tendo ainda almoçado, como uma sanduíche e um chocolate quente num café com uma vista deslumbrante sobre a cidade nova. Estou, naturalmente, na cidade velha. A seguir volto para trás, pela Poulidou e subo, um pouco mais à frente, uma escada de degraus muito altos, carregada de gatos e de musgo, que me deixa quase em frente da Halil Bey Mosque e do complexo envolvente, de cores vibrantes. Continuo a subir, olhando o mar por entre os telhados das casas e chamando os gatos, muitos, que por ali se espreguiçam. Subo uma rua muito íngreme chamada Isidorou, depois de ter subido outra vez muitos degraus. Encontro um casal que desce a rua com dificuldade e pergunto se vou bem para a entrada da fortaleza. Que sim. Mas vai fechar daí a 5 minutos. São quatro da tarde. Fico um bocadinho desanimada com os horários dos monumentos e museus gregos, confesso, mas paciência. Por cinco minutos não vale a pena subir mais uns quantos degraus e continuo em frente, descendo a Isidorou pelo outro lado, igualmente íngreme. Um cão grande e branco rosna-me a uma esquina e aproxima-se. Deixo-me ficar quieta a desejar que ele não pressinta o meu medo. Faço-lhe ‘tchtchtch’ e aquilo parece acalmá-lo por que me deixa em paz e segue caminho, felizmente oposto ao meu. Encontro a porta das muralhas, não sem antes outro cão me ladrar violentamente. Mas este está dentro de um quintal e mando-o calar-se. Cala-se e fica a olhar para mim, por entre as grades do pátio. Saio pelo arco e começo a descer ruas tão inclinadas que não sei como não caio e parto alguma coisa. Vou devagar e cuidadosamente, parando para poder apreciar a paisagem e o enorme aqueduto que aparece à minha frente.
O aqueduto – ou Kamares – era uma das razões pelas quais queria subir ao castelo. Para ter uma perspetiva melhor da sua extensão e imponência. Mesmo daqui também tenho e é impressionante e bonito, sobretudo pelo contraste com o amontoado de casas de todos os feitios e cores. Continuo a descer e encontro mais gatos que não me rosnam, evidentemente, antes param para olhar para mim quando lhes faço ‘bchbchbch’. Como em toda a parte na Grécia, os gatos são bonitos e gordos. Estão deitados em cadeiras, em cafés, escondidos debaixo de carros, deitados ao sol em alguma esquina ou simplesmente passeiam-se como príncipes. Chego finalmente ao aqueduto, rodeado de laranjeiras carregadas de laranjas. Estou outra vez perto do hotel, depois de ter andado 2 ou 3 quilómetros. Desço até ao pequeno porto. A vista dali sobre o castelo e a cascata de casas é impressionante. Sento-me a fumar um cigarro, num banco a admirar os barcos, a água e as cores que o sol que vai caindo no horizonte, empresta a tudo. Tomei a decisão certa em vir a Kavála, seguramente. Ando ao longo da baía até ao outro lado. À medida que me afasto, mais bonita se torna a cidade velha encimada pelo castelo. E mais bonito se torna o seu reflexo nas águas. Há muitos barcos de pesca e muitos pescadores que preparam as redes ou, simplesmente, estão sentados a fumar cigarros contemplativos.
Deixo-me andar por ali a tirar fotografias muito tempo. Depois bebo um café num dos cafés em frente ao porto dos iates e regresso ao hotel, atravessando a praça Omonoia e fazendo outro caminho. Mal entro na rua do hotel vejo a bandeira portuguesa no meio das outras e sinto, então, a tal pontinha de alegria. Deve ter sido por ela que o peixe grelhado do jantar me soube ao meu país.

Comments

  1. Nascimento says:

    Para quem andou de mochila nos anos 80/90 por esse maravilhoso país é com enorme satisfação que se revê nestes textos e nas fotos. Muito bem ” sacadas” … e, não estou a gracejar.