Ferraz da Costa: entre a mentira e a defesa da exploração

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Infografia via Jornal Económico

Para lá da recente palhaçada, aqui bem resumida pelo J Manuel Cordeiro, Pedro Ferraz da Costa tem um longo currículo na defesa da destruição dos direitos laborais, que vai de apelos ao aumento da carga laboral até à defesa da eliminação de feriados e dias de férias, passando pelo imposto sobre o património. Há um ano atrás, chegou mesmo a lamentar publicamente a saída da Troika de Portugal.

Em 1981, com apenas 34 anos, Ferraz da Costa sucedeu a António Vasco de Mello como segundo presidente da CIP, criada em 1974. Desde então, tem estado na linha da frente da defesa dos interesses do patronato português, algo que é perfeitamente legítimo. Contudo, para defender os interesses dos patrões portugueses, o que de resto não é uma tarefa particularmente difícil num país como o nosso, não é necessário mentir. Afinal de contas, o homem está do lado do dinheiro e daqueles que têm os políticos e o queijo na mão.

Na entrevista que deu ao jornal I, na qual nos brindou com pérolas como “as empresas são quase lares de terceira idade”, Ferraz da Costa acusou os portugueses de não quererem trabalhar e denunciou a dificuldade que as empresas têm em contratar. Tais declarações reflectem uma narrativa desonesta, que não é nova, e que procura apresentar os portugueses como uns mandriões subsídio-dependentes que não querem trabalhar.

No entanto, números da OCDE, divulgados ontem pelo Jornal Económico, demonstram que Portugal é estado-membro da UE com quarta maior carga horária laboral anual da União. Lá se vai o argumento imbecil do tuga preguiçoso, que não só quer trabalhar como trabalha mais horas que a esmagadora maioria dos seus pares europeus e norte-americanos. Terá sido autocrítica em voz alta?

Resta o argumento do patrão que não consegue contratar, e eis que chega o momento da pergunta que importa fazer: será que os patrões não conseguem MESMO contratar? Ou quererão eles apenas contratar quem está disposto a sujeitar-se às mais precárias condições, a roçar a servidão? Não sabemos. Eu pelo menos não sei. Mas tenho sérias dúvidas que os patrões decentes deste país, aqueles que oferecem condições proporcionais ao contributo de cada trabalhador, não consigam contratar. Mas bom mesmo, na óptica da exploração que Ferraz da Costa parece defender, era serem todos estagiários, sem qualquer tipo de vencimento, reciclados a cada seis meses. Com o dinheiro que sobraria do não-pagamento do trabalho escravo pretendido, não faltariam euros com fartura para financiar a competitividade via Panamá e Ilhas Virgens Britânicas.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Esta entrevista de Pedro Ferraz da Costa não me deixa indiferente, e é a demonstração inequívoca de como os amigos do Pedro Passos Coelho andam danados com a Geringonça, e como esta lhes cortou os planos de destruição dos equilíbrios sociais alcançados no 25 de Abril.
    Eu até acho bem que eles se manifestem de forma aberta e destemida, mesmo dizendo um chorrilho de banalidades. Como diz um conhecido bloguer, temos de saber o que se passa naqueles mentes para os podermos combater com eficácia.
    E é precisamente isso que eu espero da Geringonça, caso contrário eles virão de novo com mais raiva.

    “ Não constitui regra imprescindível das teorias militares que se procure saber o que se passa no outro lado da trincheira? Como se pode vir a ser eficaz no combate a quem nela se situa se não se lhe conhecerem as estratégias?”

    Jorge Rocha no blog “Ventis Semeados”

    • Paulo Marques says:

      Que a direita moderna é reaccionária ao ponto de querer voltar ao século XIX já não devia ser surpresa para ninguém.

  2. deixem lá que o Antonio Saraiva é farinha do mesmo saco. Com um ar mais polidinho e mais diplomata mas outro sacana igual a este.

    • Rui Naldinho says:

      António Saraiva!?
      E diz-se ele, Social Democrata.
      É hoje mais social democrata o PCP, que o Saraiva da CIP

  3. os bons patrões nem sequer precisam recorrer ao Centro de Emprego, pois são os proprios funcionarios a trazerem logo um familiar, um amigo, para preencher as necessidades da empresa.

  4. antero seguro says:

    Um desbocado, sem alma nem memória.

  5. antero seguro says:

    Ferrazes, Saraivas e Carlos Silvas, são tudo farinha do mesmo saco.

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