United Stupids of America

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É curioso que a administração norte-americana se empenhe tanto em manter potenciais terroristas afastados do país, usando o pretexto para criar legislação xenófoba, quando luta activamente por manter a vida facilitada aos terroristas que, nascidos e criados em solo americano, decidem metralhar uma escola ou um concerto com uma arma semiautomática. Não, não é nada curioso. É só estúpido. E talvez, mas só mesmo talvez, tenha algo que ver com os vários massacres que acontecem, todos os anos, na land of the free.

O que também é estúpido, mas mesmo estúpido, é a Igreja da Paz e da Prosperidade, uma seita estúpida, daquelas que abundam por aqueles bandas, que decidiu organizar uma cerimónia para, entre outras coisas, abençoar casais que se fizessem acompanhar pelas suas AR-15, que para quem não sabe é a mesma arma que Nikolas Cruz usou para matar 17 pessoas num liceu na Flórida. Se Deus existe, que tenha compaixão destes estúpidos com três neurónios, que não têm culpa de ter nascido numa nação de mentecaptos violentos e fanáticos.

Os estúpidos, que usam coroas de balas e semiautomáticas como adereços durante a dita cerimónia, fazem declarações tão estúpidas que não se percebe onde termina a sanidade mental e começa o fanatismo religioso. Vale a pena ver a peça da SIC Notícias sobre os estúpidos em questão e ouvir o que esta malta chanfrada tem para dizer. Parece a reportagem de um open day no Magalhães Lemos.

Claro que, nestes e noutros temas, pedir bom senso e sanidade mental às instituições religiosas é sempre um desafio quase impossível. Mas uma coisa são religiões estúpidas, que só consome quem quer porque ninguém obriga ninguém a ser estúpido, e outra é um lobby como o National Rifle Association (NRA), um dos mais poderosos nos EUA, cujo vice-presidente afirmou, recentemente, numa conferência que reuniu outros estúpidos como ele, que o direito de uso e porte de arma é garantido por Deus. Se fosse árabe era terrorista, claro, como é norte-americano é apenas um conservador com uma visão exótica sobre o tema.

Por falar em estúpidos, mas estúpidos do topo da cadeia alimentar da estupidez, nunca é demais recordar que estamos a falar de um país governado por Donald Trump, que para além de estúpido é lunático, mentiroso compulsivo, racista, populista, demagogo e fascista, entre outras características que partilha com a esmagadora maioria do seu eleitorado estupidificado. Um eleitorado que come tudo o que é facto alternativo e que acredita num Deus racista, violento, misógino, favorável ao uso e porte de arma por qualquer estúpido e fã de reality shows. Um eleitorado que merece todos estes estúpidos e estupidez, porque opta por ser estúpido. Como uma porta.

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Comments

  1. Fernando Antunes says:

    Em relação às AR-15 na Igreja, não é surpreendente. As armas são uma idolatria, o “bezerro de ouro” dos Americanos. “In guns we trust”. Deus é, na verdade, (quase) secundário, ou quando muito um álibi, um adereço ou umsuporte: o grande tabu para muitos conservadores é a Segunda Emenda da Constituição, que confere o direito ao comum dos cidadãos de manter e portar armas, e de organizar milícias.

    É quase comovente como uma grande percentagem dos cristãos americanos não vê contradição nenhuma entre a figura de Cristo e o NRA. Entre o “dar a outra face” e o “settle things by the bullet”. Mas os credos de cada um não é suposto serem racionais, por isso é que são credos — e por isso é que tão difícil argumentar, com base na lógica, contra ideias e valores tão enraizados numa cultura de violência..


    • Amem!

    • ZE LOPES says:

      Até o “Pai Nosso” já mudaram:

      “Perdoai as nossas ofensas, mas não pensem que perdoemos a quem nos tem ofendido”;

      “A arma nossa de cada dia nos dai hoje”;

      “Não nos deixeis cair com um balásio e livrai-nos do mal alvejado”;

  2. Stupid is as stupid does... says:

    “É curioso que a administração norte-americana se empenhe tanto em manter potenciais terroristas afastados do país, usando o pretexto para criar legislação xenófoba, quando luta activamente por manter a vida facilitada aos terroristas que, nascidos e criados em solo americano, decidem metralhar uma escola ou um concerto com uma arma semiautomática. Não, não é nada curioso. É só (…)” deliberado! Porque não é um acaso que “os nascidos e criados em solo americano, [que] decidem metralhar uma escola ou um concerto” nunca são descritos pelos mé(r)dia e entidades oficiais – nem eles nem os seus actos – como terroristas!

  3. Ana Moreno says:

    João, chapeau! Um post genial 🙂


  4. Num país com uma história e uma cultura de violência, que não consegue resolver, os massacres dificilmente irão parar. Já o dizia de forma lúcida e magistral o escritor James Baldwin e transparece nas palavras de revolta desta professora:
    https://medium.com/@rebeccaberlinfield/a-letter-from-a-furious-teacher-81d0590e3b0

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