O momento

Tudo naquela jogada fora invulgar. A persistência do jogador-estrela que correu como um jovem em início de carreira para evitar que a bola saísse pela linha de fundo; a inteligência com que deu seguimento ao lance e se movimentou na área como um predador; a eficiência, feita de uma soberba capacidade atlética e artística, com que foi buscar a bola a alturas inverosímeis e, num elegante mas implacável bailado aéreo, a rematou para o fundo da baliza do perplexo Buffon.
Fez-se um momento de silêncio, como que de incredulidade, enquanto os presentes interiorizavam o que acabava de acontecer. E foi então que dezenas de milhar de adeptos italianos se levantaram e, no seu próprio estádio e perante um golo que sentenciava o resultado, aplaudiram o feito do seu adversário. Perante uma situação que, garante, nunca em toda a sua carreira tinha vivido, o artista agradeceu visivelmente comovido. E nós sentimos uma aragem de sanidade, vislumbrando a miragem de um futebol que, longe do pântano sórdido em que se tem transformado, podia ser um desporto, um verdadeiro desporto, algo de belo, lavado e decente de que não tivéssemos vergonha de gostar.
Por um momento, só por um momento.

( na foto: Buffon, que vê frustrado o seu sonho de terminar vitoriosamente uma carreira brilhante, abraça o “culpado”. Um exemplo)

Comments


  1. Que belo comentário, José Gabriel, que divulguei ( com sua licença…) pelos meus amigos e familiares de email.

    …e eu que não gosto de futebol !!!

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