Postais da Raia #1 (Sabugal e arredores)

100 carvalhos para 1 eucalipto

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é a proporção anunciada nos folhetos de informação turística do concelho do Sabugal, onde residem 12544 almas, menos que as que povoam normalmente o campus da Universidade de Aveiro e isto chegaria já para ser espantoso se outros concelhos não houvesse no país com ainda menos almas. 40% destas 12544 almas, são pessoas com mais de 65 anos. Não sei qual a proporção de carvalhos por pessoas idosas, mas palpita-me, pela paisagem que fui cruzando ontem e hoje, que deve ser mais ou menos a mesma que a dos eucaliptos.
 

Apesar de tudo, louve-se a predominância dos carvalhos. Percorrem-se quilómetros de estradas pitorescas e nem um eucalipto se avista, alguns pinheiros, e de resto os carvalhos dominam as manchas de árvores, cortadas aqui e ali por campos onde rolos de palha gigantes respousam sossegados, vigiados por vacas pachorrentas e expectantes. Não é a primeira vez que venho ao concelho do Sabugal, tanto mais que os meus pais são de aqui bastante perto e desde miúda, durante muito tempo, me habituei a vir aqui, embora ultimamente, pela correria dos dias, o faça cada vez menos. Não me lembro da última vez que vim ao Sabugal, mas deve ter sido há mais de 15, talvez mesmo 20, anos. Ainda outro dia passei pelo meio da aldeia do meu pai, vinda da Covilhã, de um congresso, passei só sem parar, pelo meio da estrada – que já foi a estrada principal de ligação entre a Guarda e a Covilhã – a partir da qual a aldeia se desenha. Um homem sentado à porta da taberna que era de um senhor, que já deve ter morrido, que me dava rebuçados coloridos e muito doces em pequena e mais ninguém. Depois do empedrado, junto ao sítio onde se erguem as ruínas da ‘casa dos americanos’, como sempre lhe ouvi chamar, mas que pertencia à companhia que explorava o volfrâmio, na qual o meu avô que nunca cheguei a conhecer trabalhou e ao serviço da qual morreu, na qual a minha avó vendia o volfrâmio que apanhava para sustentar os 7 filhos, o meu pai e os seus irmãos…. depois da curva onde se erguem só as ruínas da grande casa de madeira, um pouco mais à frente, a pequena casa de granito da minha avó, em ruínas, sem os pessegueiros que davam os melhores pêssegos que jamais comerei na vida, sem árvores nem couves – que faziam a melhor sopa que provavelmente comerei na vida – apenas as ruínas que, apesar da pequena dimensão da casa, me pareceram muito maiores do que as da grande moradia de madeira, ‘dos americanos’.
 
Passei e andei, como se costuma dizer, entre o envergonhado e o entristecido. É certo que a casa foi vendida há muitos anos, que a minha avó já morreu há muitos mais e que a aldeia do meu pai é, desde há muito, apenas uma sombra do que outrora foi… mas dói um bocadinho ver a casa onde, debaixo da latada que já não existe, comi tantas vezes pão com marmelada, pêssegos enormes e cheirosos, entre outras iguarias, enquanto a minha avó, sempre vestida de preto, muito alta e direita,com umas mãos elegantes apesar da apanha do volfrâmio e do trabalho no campo, nos contava as mesmas histórias, uma e outra vez, todos os anos, numa ruína tão grande e com um enorme letreito onde se lê, da estrada que já não é importante’, vende-se’.
 
Não sei quem comprará agora a casa da minha avó. Não me parece adequada para alojamento local, nem para ser colocada no airbnb. É apenas uma casa em ruínas onde não mora ninguém, uma casa que já foi tão grande, do tamanho de uma família enorme e que agora existe apenas nas nossas memórias. À volta, outras ruínas, atrás ainda a ribeira em cujas águas o meu pai, os seus irmãos e eu e a minha irmã e os meus primos tomámos banho e vimos os peixes e outras maravilhas. A ruína em que se transformou a casa da minha avó é a mesma de algumas aldeias que visitei hoje. Estou nas termas (agora dizemos ‘spa’ ou ‘wellness center’ porque nos soa melhor e nos afasta talvez dos nossos antepassados camponeses que nunca tiveram um dia de descanso na vida, quanto mais uma massagem relaxante!) perto do Sabugal, num hotel isolado no meio do campo, de onde se avistam mais de 100 carvalhos e nenhum eucalipto. Há muitas aldeias aqui à volta, cheias de ruínas umas, bem conservadas ou ‘disneylizadas’ as outras, como se procurassem preservar essas memórias de ribeiras, pêssegos enormes e perfumados e sopa de couve das nossas avós, mas evitando mostrar o trabalho duro, a fome, a miséria que era a vida delas e a vida das aldeias antigamente. Uma memória higienizada, recuperada apenas em parte, cheia de lojas de artesanato e de bares que servem petiscos (que, ainda assim, não igualarão jamais a sopa de feijão com couve da minha avó), cheia de casas restauradas com nomes curiosos e apelativos, mas vazias de pessoas (nem sequer turistas (apesar de ser a eles que tudo isto se dirige)) e histórias daquelas que levam gerações a construir e que eu, por exemplo, não tenho a quem deixar. Muito mais que 100 histórias para uma ruína.
(Cró, 9 de agosto d3 2018)

Comments

  1. César P. Sousa says:

    Os gatos da cidade,se vissem estas fotos teriam imensa inveja de não usufruirem de uma vida tão calma,tão limpa e saudàvel como os protagonistas destas lindíssimas fotos que publicou.
    Já agora ,importa-se de identificar a aldeia ?

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