Postais da Raia #6 a #10 (de Cáceres a Castelo de Vide)

As terras do extremo e a campa triste de um capitão de Abril

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Tenho passado os últimos dias a atravessar fronteiras, sempre entre os mesmos países, embora em sítios diferentes. Saindo do Sabugal e do maravilhoso e relaxante hotel do Cró, de um quarto com vista para todas as estrelas do universo e com uma banheira também com vista para os campos, atravessei a fronteira na Aldeia do Bispo, sem que Espanha se fizesse anunciar. Apenas reparei que os sinais de trânsito eram diferentes e a estrada um pouco melhor. De resto, não se dá pela fronteira, nem creio que ela exista para muitos dos que a cruzam quotidianamente entre o lado português e o lado espanhol. Anda-se um bocadinho em Castela e Leão e entramos na Extremadura, ou nas terras que estão no extremo. De Espanha, claro, porque a seguir ainda há Portugal que tem as suas próprias terras do extremo, ali à beira do oceano, a última das fronteiras, o último dos horizontes, ou se calhar (de certeza, vá) não.
 

A Extremadura espanhola é uma terra árida, deserta, quente. As pequenas aldeias e vilas (e até algumas cidades menos importantes) são bastante feias – o que é raro em Espanha – cheias de ruínas, de edifícios abandonados, de pó e sem ninguém nas ruas à hora em que as cruzo. Está um calor abrasador nas terras do extremo. Um calor cheio de abandono e de ninguém. Cáceres fica a pouco mais de duas horas e quando se chega, o mesmo calor, a mesma ausência de pessoas nas ruas, mas a beleza da cidade, muito diferente do deserto amarelo que ainda agora atravessei. O hotel fica mesmo na Plaza Mayor. O quarto tem uma varanda de onde se avista a Plaza e a parte antiga da cidade. O ar condicionado torna tudo mais fácil, mas assim mesmo, está demasiado calor para passear. A Plaza enche-se de gente que fala muito alto depois das 8 da noite. Tomam-se umas cañas, um tinto de verano, mordiscam-se umas azeitonas enormes e verdes. O jantar há de ser muito mais tarde, que nisto os espanhóis são como eu. E eu gosto de Espanha e dos espanhóis, sejam eles de onde forem. Vivem a vida aparentemente melhor que nós, falam muito alto, bebem copas descontraidamente como se não houvesse mais nada do que isso: a permanente celebração da vida. Gosto disso, portanto. Já o disse de outras vezes, mas podíamos ser todos um país. Essa sensação é mais intensa aqui, nestas terras de fronteira, onde se entra e se sai de um e de outro país sem quase dar por isso. Apesar disso, é certo que não te entendem em Cáceres, que já é um pouco mais afastado da raia, como te entendem em Ciudad Rodrigo e eu falo no meu portunhol, essa língua que é ela mesma um cruzamento de fronteiras. A língua da raia, a língua das terras do extremo.
 
Já vim a Cáceres de outras vezes, que me lembre pelo menos mais duas. É uma cidade bonita, bem preservada, orgulhosa dos seus monumentos e da sua marca de património da humanidade. Muito diferente dos lugares que atravessei para aqui chegar. Muito turística também, embora a maior parte dos turistas façam as suas visitas ao anoitecer, quando o tempo refresca apenas o suficiente para permitir passeios. Eu quase me arrependo desta ideia um pouco infeliz de vir a Cáceres no pino de agosto. Mas basta entreabrir as cortinas da janela do quarto e olhar para a plaza a várias horas do dia, para reconsiderar o arrependimento. Cáceres está cheia de igrejas e palácios e ruas de pedra onde só entram os peões e os poucos tuk-tuk que há na cidade. Apanho um deles até, com um misto de felicidade (sempre é mais fresco) e vergonha (quem é que se lembra de andar numa coisa destas, quando elas povoam Lisboa e o Porto e, nós, simplesmente, abominamos essa invasão?). A vergonha passa-me quando comento com a condutora – a Beatriz – isso mesmo. É ela quem me diz que aqui só há 3 e que não incomodam ninguém. Não é – continua ela – como em Lisboa ou no Porto, onde há engarrafamentos de tuk-tuk e os residentes se aborrecem com isso. Mais apaziguada aprecio o caminho até ao santuário da Virgem da Montanha, de onde se tem uma avassaladora vista sobre toda a cidade. A Beatriz sobe aquilo tudo muito depressa, a acelerar o tuk-tuk e o vento que a velocidade provoca é também tranquilizador da minha consciência. Na descida vem um pouco mais devagar porque a estrada é muito inclinada e com demasiadas curvas. Na cidade, mudamos de tuk-tuk para o ‘percurso monumental’. Visitam-se apressadamente as ruas cheias de igrejas e palácios, como disse já. Depois anda-se um pouco, tanto quanto o calor permite, a pé e bebem-se litros de água e caminha-se colado às paredes. Se calhar foi mesmo uma ideia infeliz, mas são apenas duas noites.
 
A seguir a Cáceres atravessa-se de novo a fronteira, rumo a Castelo de Vide e a Marvão, terras onde já não venho há mais de 20 anos, seguramente. Parece que há muita coisa que já fiz há mais de 20 anos. As localidades vão-se sucedendo, de novo muito feias. Há uma – Albuquerque – que tem um castelo muito bonito, mas o resto é tão feio, tão desarrumado, tão vazio de pessoas e bom gosto, que a beleza do castelo nunca será suficiente. Depois S. Vicente de Alcântara, Valência de Alcântara e Portugal, desta vez assinalada a entrada por uma placa azul cheia de estrelinhas com o nome do país no centro. Um pouco mais à frente os edifícios dos antigos Serviços Fronteiriços, a Portagem, com a sua praia fluvial refrescante onde se banham, sem fronteiras, as pessoas dos dois lados do extremo. A seguir a estrada ladeada de grandes árvores, com uma tira de branco nos troncos, está tal e qual como me recordava e depois, Castelo de Vide, ainda mais branco e florido do que na minha memória. Como uma carne de porco à alentejana em cujo molho molho abundantemente pão alentejano, antecedida por um belo queijo de Nisa… parece que estive do lado de lá 3 semanas, tal é o prazer com que como a comida nacional. Da janela do meu quarto por 2 noites avista-se a serra e as casinhas brancas aqui e ali, e à noite o santuário da Srª da Penha todo iluminado. Desde que aqui cheguei já atravessei 4 vezes mais a fronteira. Ontem à noite fui a La Fontañera ver um filme ao ar livre, integrado no 6º Festival Internacional de Cinema de Marvão e Valência de Alcântara*. Primeiro ensaiei chegar lá pela estrada pequenina pequenina e cheia de buracos que vai da aldeia de Galegos, em Portugal, até esta localidade de Espanha. Desisti ao ver uma enorme cratera no alcatrão, que o meu carro não podia atravessar sem dano. Faltavam apenas 400 metros, mas a estrada era estreita e não havia sítio para deixar o carro e ir o resto do caminho a pé. Voltei para trás, cruzando depois oficialmente a fronteira e seguindo por estradas bastante melhores. O filme-documentário – Te entiendo**, de Vítor Hugo Costa – sobre Olivença e os Oliventinos que se sentem raianos eles mesmos, nem espanhóis, nem portugueses, mas uma mistura que recentemente os dois países reconheceram como legítima, dando-lhes a possibilidade de terem a dupla nacionalidade… o filme, dizia, foi exibido num écran que ficava em Espanha, com o público sentado em cadeiras localizadas em Portugal. Mais na fronteira que isto, mais raiano que isto – exceto se formos Oliventinos e trouxermos a raia dentro – é difícil, embora existam outras localidades onde se passa exatamente o mesmo.
 
Hoje de manhã voltei a La Fontañera, para ver o marco que separa os dois países à luz do dia. Também queria ver a estrada sinuosa a outra luz que não a das estrelas. Ali está, vindo pela estradinha pequenina, chega-se à fronteira, mas a fronteira é uma placa que nos dá conta que chegámos a La Fontañera… e em baixo dela um pequeno marco de pedra que num lado tem um P e no outro um E. Antes de revisitar La Fontañera vejo o busto que ergueram a Salgueiro Maia, natural de Castelo de Vide e depois a sua campa, no cemitério da vila. A campa é imponente, com uma espada, mas tem apenas flores secas. Não vi floristas em lado nenhum e por isso vim de mãos vazias. Ao lado da campa pequenas placas de homenagem, de diversas organizações e associações. Mais nada. Não imagino que ele se importasse, ao que julgo saber era um homem simples. Fico ali a agradecer-lhe para dentro o ter quebrado as fronteiras de uma longa noite naquela madrugada de Abril. Talvez amanhã, antes de ir, encontre alguma flor vermelha para lhe dar.
 
*O Festival chama-se Periferias os filmes são passados ao ar livre nas aldeias e locais históricos da raia: https://www.facebook.com/periferiasfestival/
**http://metafilmes.com/metafilmes/Te_entiendo.html
(Castelo de Vide, 18 de agosto de 2018)

Comments

  1. Ana Maria says:

    “Cujo o” ? Como é que se pode escrever isto?!?


    • Ana Maria, …”.tasse” mesmo a ver que é querer embirrar com um lapso involuntário que ” tasse ” mesmo a ver !

      que a excelência da escrita da Elizabete não merece !!

      • Ana A. says:

        🙂
        Isabela,

        eu também embirro solenemente com aquelas alminhas que perante os conteúdos de uma escrita, nada dizem, mas vêm logo assinalar os erros ou as gralhas!
        Estamos num mundo cheio de “polícias”, e de muito pouca interacção genuína de partilha de sentimentos e de experiências enquanto gente com alma!

      • Elisabete Figueiredo says:

        Obrigada, Isabela… de facto ‘cujo o’ foi um erro involuntário, mas um erro 🙂

    • Elisabete Figueiredo says:

      Ana Maria, por engano? Obrigada pelo reparo do erro que me passou completamente despercebido.


  2. Elisabete, prazer mesmo em ler estas suas descrições que nos fazem lembrar a leitura prazerosa e sábia de um J Saramago em ” Viagem a Portugal” / 1985 ( Ed, Caminho ).

    Obrigada por me ter “levado de boleia” … apesar de ficar com pena de não poder celebrar a vida com a mesma alegria dos espanhóis e como diz e ” sermos todos um país” : )

    …” Vivem a vida aparentemente melhor que nós, falam muito alto, bebem copas descontraidamente como se não houvesse mais nada do que isso: a permanente celebração da vida. Gosto disso, portanto. Já o disse de outras vezes, mas podíamos ser todos um país”…

    e de ir á campa de Salgueiro Maia e consigo

    …” ali agradecer-lhe para dentro o ter quebrado as fronteiras de uma longa noite naquela madrugada de Abril. Talvez amanhã, antes de ir, encontre alguma flor vermelha para lhe dar. “

  3. Elisabete Figueiredo says:

    Verdade, Ana A., isso dos polícias… mas eu não me importo que me façam notar os erros. Assim corrijo-os. Obviamente que sei desde pequenina que não se diz ou escreve ‘cujo o’, foi um erro involuntário, naturalmente. Agradeço à Ana Maria a correção. O tom é que poderia ser outro e não o ‘quem é que escreve isto?’ Mas adiante, que ainda estou de férias e não me apetece ficar aborrecida com ninharias!

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