Checks and Balances

EUA

Hoje, os norte-americanos regressam às urnas para uma eleição intercalar que poderá dar um de dois importantíssimos sinais ao mundo. Podíamos entrar aqui numa discussão muito em voga, sobre a verdade e a mentira na era dos factos alternativos, mas o Partido Democrata não é propriamente uma entidade impoluta. Contudo, vivemos tempos conturbados, em que as disputas entre esquerda e direita, liberais e conservadores, se tornaram praticamente irrelevantes perante a grande batalha do século XXI. Uma batalha pela liberdade, ou pelo que resta dela, contra os novos autocratas que emergem das democracias liberais para acabar com elas. 

Na Europa da União, o que parecia impossível revela-se hoje uma tendência. Ignorando uma história não muito distante, o nacionalismo primário e arruaceiro está de volta com o discurso do costume, decalcado dos manuais da primeira metade do século passado. E há cassetes para todos os gostos. Em Budapeste, Orbán vê refugiados e grita “esfola!”. No sul da Bulgária, Boyko Borisov abençoa milícias que esfolam. Na Polónia, é a separação de poderes que está em causa, com o governo fascista conservador a tentar ocupar os tribunais por decreto. Em Itália, Conti, Salvini e Di Maio contam com o coaching de Steve Bannon, o artesão da trumpice. Até a Áustria, pátria do monstro nazi, parece não ter aprendido a lição.

Outros espreitam a aguardam o seu momento. Em França, na Alemanha e no Reino Unido do Brexit, o ódio e a instrumentalização do medo avançam de braço dado, em busca de presas frágeis para alimentar o seu falso patriotismo, cujo nome o novo politicamente procura censurar, mas que nós sabemos exactamente qual é: chama-se fascismo e nunca se foi embora. Porque a humanidade foi demasiadamente tolerante e deixou-o andar por aí, à espreita, a ver se cavalga a próxima crise, montado no Whatsapp que estiver a bater.

A eleição de hoje nos Estados Unidos da América não é uma eleição qualquer. É uma eleição que poderá intensificar ainda mais a luz do farol que guia estes espectros do passado, sedentos de tudo o que sempre estiveram, ou que fará travar a fundo a revolução reaccionária. Se os eleitores norte-americanos devolverem o Câmara dos Representantes aos Democratas (o Senado é um long shot), Trump recua e o sistema de checks and balances sai reforçado. E se Trump recua, a nova direita alternativa recua também. E Putin tem-se esforçado bastante para que tal não aconteça. Que hoje seja um péssimo dia para os novos fascistas.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    A globalização só podia dar neste desfecho, pela forma como foi feita até hoje. A pensar apenas no dinheiro e nas mais valias, tudo ao menor custo, e não a pensar nas pessoas, criando condições para que haja de facto uma verdadeira estabilidade social à escala mundial. Ainda que minimalista.
    A primeira mentira da globalização foi a de que milhões de pessoas iriam ter acesso à cultura, ensino, saúde, habitação condigna, blabla pardais ao ninho. Salvaguardando honrosas excepções, é ver nos BRICS, isto só para falar nos “miais ricos”, quem está hoje bem? Poucos. Mas mesmo muito poucos. Talvez a China, se possa considerar um pouco melhor. Mas não basta plantar fábricas, mesmo que aos milhares. Ao lado delas deve emergir uma cidade saudável, tanto no plano social, salubridade, como no económico. Se assim não for, ficamos refém de uma certa forma de escravatura. Trabalhas para não morreres à fome. Se não trabalhas, ou morres faminto, ou emigras.
    Os fenómenos migratórios multiplicam-se à escala mundial, com milhões de pessoas, todos os anos a sair em massa dos seus territórios de origem, numa verdadeira aventura, quantas vezes suicidária, em busca de uma vida melhor. As razões são sobejamente conhecidas. Se este anseio deles é justo, não menos verdade é que o desenvolvimento tecnológico tem tirado muita mão de obra para fora dos círculos de emprego, nos países ditos desenvolvidos. Os mais velhos, menos dotados na sua capacidade de se reinventarem, acabam sentados nos balcões dos cafés, nos bancos de jardins, ou nos centros de emprego. Está criado o caldo perfeito para o populismo.
    Por outro lado a esquerda, na qual me insiro, tem de ser mais pragmática. Não podemos atender a todos, sob pena de não ajudarmos com qualidade ninguém, integrando-os, e acabarmos todos a culpar-mo-nos uns aos outros, pelo insucesso da recita.
    A ideia do tudo ao molho e fé em Deus, nunca deu bom resultado.

  2. Paulo Marques says:

    Com uns ou com outros está o capitalismo bem. Perigoso é quem aponta que o rei vai nu e quer o mesmo défice de Trump ou só de Salvini, mas para serviços públicos.

  3. Fernando says:

    “Se os eleitores norte-americanos devolverem o Câmara dos Representantes aos Democratas (o Senado é um long shot), Trump recua e o sistema de checks and balances sai reforçado.”

    Curioso, os “Democratas” são tão defensores dos “checks and balances” que a Patriot act, lei Orwelliana criada pós-11 de Setembro para vigiar e tornar todos suspeitos de terrorismo, foi abençoada por Obama.

    “Democratas”, os tais que viam a Wikileaks e Julian Assange como heróis até o dia que Julian Assange desvendou os podres de Hillary Clinton, a partir daí também Julian Assange é um terrorista e agente de Putin.

    Mais recente os “resistentes” “Democratas” aprovaram, na sua maioria, um aumento no orçamento do Pentágono defendido por Trump.

    Mal vejo o dia para que os “Democratas” voltem ao poder, vai ser tão diferente…


    • Não acho – nem me viu certamente escrevê-lo – que os democratas são alguns messias da coisa. Mas parecem-me uma excelente alternativa a Trump.

  4. Carlos Almeida says:

    “Outros espreitam a aguardam o seu momento”

    Não é só em França, Alemanha e Reino Unido.
    Em Portugal, os que no dia 26 de Abril de 74, começaram a perceber para que lado corria a “Historia”, apressaram-se a salvaguardar as suas verdadeiras posições ideológicas e politicas como fieis mandados ou mandantes do “Estado Novo” para a associarem a Partidos Democráticos que lutavam há décadas contra a ditadura salazarista ou na maior parte dos casos criaram rapidamente novos partidos que tinham em comum na sigla a palavra “Popular”, “Democrático”ou “Social”.
    Todos eles grandes revolucionários ou democratas que já na altura tentavam dar lições de democracia aos que há décadas lutavam contra a ditadura.
    Eles, os salazaristas aí estão a emergir do pântano da Historia.
    Não que a ditadura, seja ela fascista ou não, use sempre os mesmos métodos, mas a direita em Portugal, só consegue governar em ditadura, por muito que alguns bons intencionados pretendam o jogo democrático. Mas esse jogo só lhes interessa enquanto estiverem no poder
    E não é preciso ir alem de alguns post do Aventar

  5. Ricardo Silva says:

    Então e os presos politicos em Espanha? E nem uma palavra para Portugal? Onde juizes em exercicio de funções viram ministros com mudança de governo. Onde a boyzada partidária se instala no poder. Onde os banqueiros que destruiram este país e os sucessivos governos que com eles comeram, continuam por aí como se nada fosse. Se formos para o poder local então……..nunca mais saía daqui. A “democracia” liberal é todo um sistema que se destruiu a ele proprio (“democracia” pois como o liberalismo é fascismo é impossivel que algo liberal seja democrático), e cujos intervenientes nesse dito sistema “democrático” se recusam a olhar, primeiro, para eles próprios ,e, segundo, a agir contra quem quer destruir o sistema de que eles próprios fazem parte.
    Estamos numa era onde ou se vai para um extremo, ou se vai para o outro extremo. Não se pode contar com quem está no meio, com quem acha que só com palavras e retórica se muda alguma coisa.

  6. A. Silva says:

    “Putin tem-se esforçado bastante para que tal não aconteça”???? Tire lá as palas da cabeça e explique lá o que Putin tem feito?

    • Paulo Marques says:

      Semeou o caos e a discórdia no seu mais antigo rival, que dificilmente recuperará tão cedo e sem grandes mazelas da divisão interna.


    • Removidas que estão as palas, vem-me à cabeça as ligações com Marine Le Pen e Viktor Orbán. Será que chega?

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