O que fazer com tanto dinheiro, caso acabemos com a corrupção – um abecedário de sugestões que podem mudar Portugal

CP

Entre resgates, nacionalizações e outras piratarias, as aventuras dos mercenários da banca portuguesa custaram, nos últimos 10 anos, perto de 17 mil milhões de euros aos cofres públicos. Leu bem, caro leitor: 17 mil milhões de euros. Pagos por todos nós sob a forma de impostos, cortes nas funções sociais do Estado, privatizações low cost e incrementos sucessivos de dívida pública, da qual dificilmente nos livraremos, porque ela é pura e simplesmente impagável.

E se o caro leitor ficou perturbado com estes números, que são, efectivamente, perturbadores, vou então contar-lhe um segredo mal guardado: este valor, que, sublinhe-se, diz respeito a 10 anos de ajudas à banca, não chega para pagar um ano de corrupção em Portugal. Sim, um ano. Segundo um relatório apresentado recentemente no Parlamento Europeu pela Aliança Livre Europeia, o fenómeno da corrupção em Portugal tem um custo anual de qualquer coisa como 18,2 mil milhões de euros, custo esse que, como qualquer prejuízo de monta, acaba socializado por todos os contribuintes. Deve ser a isto que a direita do século passado se refere, quando afirma que o socialismo lhe vai ao bolso.

Assim, caso algum dia nos livremos deste filho bastardo do bloco central de interesses, teremos várias opções para aplicar o valor que nos vem sendo roubado, e que passo a enunciar, ordenadas sem qualquer critério de prioridade, ainda que o autor não esconda a sua preferência pelo investimento nas funções sociais do Estado:

a) resgatar todos os bancos portugueses, todos os anos, cumprindo aquele que parece ser o nosso desígnio;
b) resgatar Portugal de uma crise financeira a cada 4,2 anos;
c) amealhar para a próxima crise financeira fabricada pelos terroristas dos mercados “livres”;
d) investir na contratação de mais profissionais de saúde e na melhoria da infraestrutura do SNS;
e) investir na escola pública, torná-la verdadeiramente gratuita (manuais escolares incluídos), eliminar totalmente as propinas e, pasmem-se, pagar o que devemos aos professores;
f) aumentar – substancialmente – os salários na função pública;
g) reduzir – drasticamente – os impostos sobre famílias e empresas, tornando a vida das famílias mais desafogadas e a das empresas mais competitiva;
h) melhorar as infraestruturas do interior do país, dotando-o de mais e melhores vias de circulação;
i) investir em recursos humanos, infraestruturas e equipamento para bombeiros, forças policiais, exército e protecção civil;
j) criar mais habitação social com condições dignas para os mais desfavorecidos, acabando de vez com bairros de lata e guetos na periferia das grandes cidades;
k) investir na justiça, tornando-a mais rápida e capacitada;
l) criar incentivos ao investimento em energias renováveis e à transição do parque automóvel para a electricidade;
m) investir em políticas activas de protecção e conservação ambiental, com especial destaque para a protecção da área florestal;
n) investir na cultura, apoiando o teatro, o cinema, a dança e outras formas de expressão artística, bem como a defesa, protecção e recuperação do património edificado;
o) aumentar os estabelecimentos prisionais para lá colocar os corruptos que uma justiça mais rápida e capacitada para lá enviará, e que serão bastantes;
p) apostar nos transportes ferroviários, com a recuperação de ligações ao interior do país e a construção de linhas internacionais de alta-velocidade;
q) investir na reabilitação urbana e nos incentivos à compra e aluguer e habitação;
r) comprar vários submarinos, com torpedos, sem luvas;
s) renacionalizar a REN;
t) renacionalizar a EDP;
u) renacionalizar os CTT;
v) criar incentivos à natalidade, que efectivamente incentivem a natalidade e que não se destinem apenas às classes mais desfavorecidas;
x) investir na melhoria e expansão das redes de transportes públicos;
z) construir 1 novo aeroporto em cada distrito (só porque sim e porque 18,2 mil milhões chegam perfeitamente).

Sim, eu sei, são muitas coisas. Um abecedário delas. E os 18,2 mil milhões de euros que os corruptos nos roubam todos os anos não chegam para tudo. Mas lembrem-se que seriam 18,2 mil milhões de euros por ano, pelo que, referendadas as prioridades, faríamos o que pudéssemos a cada ano, o que sempre seria melhor que ser assaltado anualmente nesse montante. E, reparem na lado mágico da coisa, não precisamos de soluções que incluam racismo, homofobia, xenofobia ou misoginia para solucionar os grandes problemas desta sociedade. Fazer a folha aos corruptos chega perfeitamente e não é preciso aleijar ninguém.

Assim sendo, é hora de declarar guerra aos corruptos e à corrupção, sejam eles do nosso clube, do nosso partido, da nossa religião ou do nosso grupo de amigos. Do jotinha abanador de bandeiras, com uma avença para fazer coisa nenhuma, ao deputado que usa as suas funções para beneficiar redes de amigos-clientes, passando pelo empresário que compra jotinhas e deputados para viciar concursos públicos, todos devem ser abatidos. E não, não é preciso abater os tipos a tiro. Basta abatê-los social, profissional, moral e animicamente, e encarcerá-los num condomínio fechado com grades, em Custóias ou na Carregueira, enquanto usufruímos do encaixe anual de 18,2 mil milhões de euros e nos regozijamos com o justo enjaulamento dos reles criminosos que impedem este país de andar para a frente.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Há mais 2 pontos importantes sobre o assunto:
    – A culpa também é de quem corrompe;
    – Ao contrário do que pensa o tuga, o país está muito longe do topo da corrupção.

    Mas não nos esqueçamos que isso tem pouco a ver com impostos.
    https://www.nakedcapitalism.com/2014/05/randy-wray-taxes-mmt-approach.html


    • De acordo, a culpa é igualmente de quem corrompe e penso que isso é claro em cima. Mas discordo do segundo ponto: o país é altamente corrupto, dentro da realidade europeia em que se insere. Não acho que faça sentido fazer comparações com países do continente americano ou africano.

      • Jose Saraiva says:

        Quando se fala de África está sempre a pensar-se que os corruptos são os africanos, também, mas os maiores estão na Europa, América…

  2. Julio Rolo Santos says:

    Como podemos reagir a esta pirataria se todos os governos desde a direita á esquerda embarcaram no mesmo barco? Portugal é um dos países mais corruptos da Europa e isso diz tudo.

  3. JgMenos says:

    Supondo que a conta está certa, a que se devem os outros 233 mil milhões de dívda?
    À esquerdalhada abrilesca de A a Z.

    • João Mendes says:

      Deve se a fachos como tu.

    • Ernesto says:

      Ora bem, se a conta estiver certa, e fazendo apenas um exercício dos últimos 10 anos, dá qualquer coisa como isto:

      18.2 x 10 = 182 + 17 = 199

      Já ficávamos com uma dividida ligeiramente menor. Não, jgmenosjosétrollpintodacruz?

      Ou só sabes fazer contas para os teus amigos sabujos colocarem o guito nas Offshores?

      És um asco!

    • Paulo Marques says:

      À auto-destruição da indústria e à não flutuação da moeda, levando a consequente desvalorização interna com o impacto de um multiplicador muito maior do que vem nos livros e regras financeiras que sustentam o regime capitalista à custa de crédito privado que tem que ser coberto para não haver colapso.
      Vai estudar, Cruz.

    • ZE LOPES says:

      O conhecido fadista JgMenos acaba de lançar mais um álbum que vem na sequência da sua profusa atividade fadista, infelizmente pouco conhecida neste país, mas amplamente conhecida lá fora em países como o Nauru, Vanuatu, Transnistria, Alaska, Catar, Láthar, e Deishóir!

      Eis o início, com letra do próprio e música do “Fado Maria Alice”:

      “Estava eu em minha casa (plim, plim, plim, plim)
      E a noite estava fresca (plim, plim, plim, plim)
      Estive quase p’ra morrer (plim, plim, plim, plim)
      Porque a bris’era abrilesca” (plim, plim, plim, plim!)

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