Os hospitais privados e a ADSE

Sem rodeios, a gestão hospitalar privada faz-me pensar num filme saído da sequela animada pela personagem Don Corleone, faltando-lhe, no entanto, o lado lúdico. Em O Padrinho, Marlon Brandon, Robert De Niro e Al Pacino seguem um caminho de poder, dinheiro, esquemas e spaghetti emocional, embrulhado numa melancolia musical por vezes interrompida por uma tarantela.

Nos hospitais privados, a música é outra e teria o som dos euros a cair, caso os electrões fizessem barulho ao passar pelo terminal Multibanco.

Se aceitarmos que o objectivo primário deste negócio é o lucro, ou não seria um negócio, ninguém se surpreenderá que o resultado do primeiro acto médico de uma consulta nestes hospitais seja habitualmente a realização de uma larga bateria de exames médicos, seguidos de outra consulta para os analisar – o seguro paga.

Ou que o tratamento de doenças, como cancro, com recurso a medicamentos inovadores seja interrompido logo que o plafond do seguro esteja esgotado, encaminhado os doentes para o SNS, sem garantir a continuidade do tratamento e sem possibilidade de se concluir quanto à eficácia do tratamento.

Ou, ainda, que o serviço de urgências tenha mais recepcionistas a atender os doentes do que médicos – especialmente em urgências menos frequentes, nas quais é necessário chamar o médico de prevenção, deitando por terra o conceito de urgência. Afinal de contas, uma urgência que acontece poucas vezes não paga o médico de serviço. E não sendo frequente, a probabilidade de alguém morrer enquanto se espera que o médico de prevenção chegue ao hospital também é baixa. Portanto, está tudo bem. É isto, não é?

As histórias sucedem-se e são bem conhecidas no meio médico, sem que ouçamos a Ordem dos Médicos ou o Ministério da Saúde pronunciarem-se.

De há alguns anos a esta parte, os seguros de saúde começaram a fazer parte do pacote remuneratório habitual no sector privado, possivelmente devido às isenções fiscais que os governos lhes concederam. A razão causa efeito é óbvia e era facilmente antecipável quando se preparou essa legislação. Se há uma forma de as empresas entregarem um pacote remuneratório mais atractivo e com menor custo para a empresa, estas irão seguramente dar-lhe uso. O legislador agiu a pensar nos cidadãos ou no então insípido mercado da saúde? Cada qual que tire as suas ilações.

Antes da banalização dos seguros de saúde, a ADSE era o mealheiro da saúde privada. Talvez agora ainda corresponda a uma boa percentagem. Nas últimas semanas tem sido notícia o conflito ente a gestão da ADSE e os hospitais privados. Haverá, possivelmente, muita contra-informação no que tem vindo a público. Sabemos, no entanto que nenhum dos lados é um ninho de anjinhos. E sabemos, também, das práticas usadas pelos hospitais privados para aumentar as receitas, graças à ilusão de o doente não estar a pagar – sai do seguro ou da ADSE, até que o saldo se esgota. É nessa altura que se tem que se tomar a decisão de ouvir a música do dinheiro a passar pelo terminal de Multibanco ou de se dirigir ao SNS. Esse mesmo que umas quantas luninárias querem reformular profundamente – no interesse dos cidadãos ou do negócio da saúde?

Comments

  1. Quanto mais amigos, mais se lhes vê a gula says:

    A «informação não é uma mercadoria, mas um bem público» e também um instrumento de denúncia do ensino da economia, no processo de reprodução das elites e das «teorias» que os servem.
    As ideias dominantes são as da classe dominante e no ensino da economia as teorias dominantes são também as das classes dominantes.
    A campanha contra o SNS está na mira de fogo desses interesses. A lição a tirar é a dos animais selvagens , na informação, na saúde ou no que quer que seja: enquanto pequenos, simpáticos e brincalhões; quando adultos ávidos de apetite não olham a quem…

  2. JgMenos says:

    Espera lá!
    Pois não é que os hospitais privados não cobram impostos!
    E não querem perder dinheiro?
    Incrível!!!!

    • ZE LOPES says:

      Fenomenal comentário!

      E eu até acrescentaria, com a devida vénia a tão genial peça:

      Espera lá!
      Pois não é que as galinhas põem ovos!
      E eles são brancos por fora e amarelados por dentro?
      Incrível!!!!

  3. Liliana Basílio says:

    Fala do que não sabe… Os tratamentos podem continuar a ser feitos lá, sem plafond, a pessoa paga e ponto final. Se é gasto dinheiro no material /consumos dados ao cliente é normal que se queira receber o dinheiro dos seguros neste caso Adse ou não? Não é a santa casa nem são uma instituição de caridade. Não percebo

    • j. manuel cordeiro says:

      Naturalmente, se o doente pagar continuará a ter o tratamento. Tal como é referido no último parágrafo. A questão é que o preço dos medicamentos inovadores não estão ao alcance de qualquer um.

  4. Julio Rolo Santos says:

    A ADSE é um manancial de sobrevivência para os privados e a culpa é de quem trabalha no SNS que tudo faz para que os privados tenham sucesso garantido. As greves no público (porque não no privado?) são disso exemplo, e não só.

    • j. manuel cordeiro says:

      A culpa é de quem trabalha no SNS ou de quem corta o financiamento necessário para existirem as devidas condições? Na minha terra não se fazem omeletes sem ovos.

      • Julio Rolo Santos says:

        O financiamento na saúde por maior que seja nunca chega porque o problema está no subaproveitamento dos recursos humanos que também nunca chegam. Quem vai a um hospital e se for bom observador facilmente verifica esta realidade com pessoal fora do seu local de trabalho a circular pelos corredores quase sempre aos pares, quando não São mais, á conversa uns com os outros. A culpa continua a não ser dos subalternos mas sim dos chefões a quem lhes faltou tarimba para poderem orientar os seus funcionários e torná-los mais eficientes.