Endogamia social-democrata

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Se julgava que o FamilyGate socialista era uma novidade no panorama político português, caro leitor, lamento informá-lo que estava enganado. A prática parece remontar (pelo menos) aos anos do cavaquismo, durante os quais inúmeros ministros e secretários de estado, como o spin master Marques Mendes ou o incorruptível Dias Loureiro, nomeavam entre si as suas esposas, para cargos nos gabinetes dos seus companheiros de partido. Exactamente o que está a acontecer agora com o governo socialista.

Se hoje temos o casal Eduardo Cabrita e Ana Paula Vitorino no conselho de ministros de António Costa, no passado tivemos os irmãos Leonor e Miguel Beleza no conselho de ministros de Cavaco Silva. Se hoje temos Vieira da Silva e a sua filha, Mariana, no executivo governamental, na era cavaquista tínhamos Diamantino Durão e o seu filho, Durão Barroso.

Para lá do executivo, e tal como acontece hoje com o governo Costa, a lista de esposas de ministros do cavaquismo, nomeadas para os gabinetes de outros ministros do cavaquismo, é longa e capaz de ombrear com a actual, que tanto choque está a causar na sociedade portuguesa, incluindo entre alguns daqueles que, estranhamente, viram as suas esposas nomeadas nas exactas mesmas condições.

Querem alguns exemplos? Vamos lá:

  • A esposa de Dias Loureiro, essa grande referência do imaculado Pedro Passos Coelho, foi nomeada adjunta de Pedro Santana Lopes, então Secretário de Estado da Cultura;
  • Maria dos Anjos Nogueira, esposa do Ministro da Presidência de Cavaco, Fernando Nogueira, foi nomeada adjunta do Secretário de Estado da Saúde, Martins Nunes;
  • O mesmo Fernando Nogueira nomeou para o seu gabinete Maria Cândida Menezes, esposa do então deputado Luís Filipe Menezes, que seria promovido a Secretário de Estado no segundo governo de Cavaco Silva;
  • Sofia Marques Mendes, esposa do futuro presidente da República, Luís Marques Mendes, então Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, foi nomeada adjunta do Secretário de Estado da Agricultura Álvaro Amaro, hoje um dos homens fortes de Rui Rio, que tão crítico tem sido da actual endogamia socialista;
  • Já a esposa do mesmo Álvaro Amaro, Celeste Amaro, foi nomeada para o gabinete de Marques Mendes. O chamado “toma lá, dá cá”;
  • Quem também estava no gabinete de Marques Mendes, como assessora, era Paula Teixeira Cruz, ex-ministra de Pedro Passos Coelho, cujo marido, Paulo Teixeira Pinto, havia sido nomeado Subsecretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, uma espécie de nº 2 do chefe da sua própria esposa;
  • Margarida Cunha, esposa do ministro da Agricultura, Arlindo Cunha, era a secretária de Couto dos Santos, então Ministro-Adjunto e dos Assuntos Parlamentares;
  • A esposa do deputado Carlos Encarnação, Maria de Sousa Encarnação, foi nomeada chefe de gabinete do Subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara.

A lista, compilada pela jornalista Liliana Valente, no jornal Público, não fica por aqui. Mas a amostra é ilustrativa de uma realidade que vai muito para lá do cavaquismo ou do costismo: que a política portuguesa (e o erário público), da mais minúscula junta de freguesia até à cúpula dos vários governos da nação, tem sido usada para favorecer os círculos mais próximos daqueles que detêm o poder.

A pouca vergonha não começou com Costa e, a julgar pelo nacional-masoquismo que nos mantém a todos reféns dos mesmos há décadas, não terminará com ele. E vai muito para lá dos laços familiares, que não são mais nem menos graves que os laços partidários. E não se esgota nas nomeações políticas, açambarcando também o controle das mais variadas empresas públicas e de inúmeros negócios e contratos adjudicados pelo governo e pelas autarquias, não raras vezes aos seus financiadores eleitorais. Resta saber se, algum dia, veremos o genro de António Costa adquirir um qualquer Pavilhão Atlântico por meia-dúzia de patacos. Ou se lhe faltará a memória.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Custa-me muito menos engolir a endogamia social democrata ou socialista, do que as negociatas feitas entre o Estado Português e as empresas dos amigos dessa gente. Isso sim, preocupa-me. Nesse caso estão nitidamente a ir-me ao bolso.
    Não embarco em tramas familiares de paixões e ódios, de empregos, tachos e promoções, dentro do aparelho estatal, como se tudo isso não fosse tão velho como a nacionalidade.
    É óbvio que discordo da forma despudorada como tudo isto se passa, mas, ainda assim desvalorizo.
    Até porque, rezam as crónicas, de que um tal Aio, Dom Egas Moniz IV de Ribadouro, colocou uma corda ao seu pescoço e dos seus familiares, e diante do Rei de Castela ofereceu a sua vida pela falta de palavra e honradez do Rei Afonso de Henriques.
    “O que é que um pai, não faz por um filho!?”


  2. apenas uma correcção no texto: durão barroso é sobrinho de Diamantino Durão, https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Manuel_Dur%C3%A3o_Barroso, mas isso não estraga a lista, que toca em pontos relevantes e demonstra que o karma quando nasce é para todos, incluindo os tão honestos que para serem tão honesto como ele teriam de nascer duas vezes. E Luís Marques Mendes como futuro presidente da república, fod….. como dizemos no Norte, vade retro!

  3. Ana A. says:

    O escrutínio que deve ser feito, agora e sempre, em democracia, é ao trabalho proveitoso ou não, para o país, de todos os políticos e não os laços familiares que os unem.

    O 1º laço terá que ser como é óbvio o da “família política” que comungarão os mesmos ideais.

    Tivéssemos nós a certeza que os eleitos e nomeados tratavam bem das nossas vidas, e não estaríamos preocupados com o resto. Por isso, repito, escrutinar até à exaustão o poder político é o nosso dever enquanto eleitores!

    O resto é chicana política que só degrada quem a pratica!

  4. Nuno M. P. Abreu says:

    Comecei a ler este artigo e desisti. Partindo de premissas erróneas qualquer artigo perde credibilidade e consequentemente proveito . Deixa de ser uma tentativa de esclarecimento para se tornar numa forma de embrutecimento.
    Concretizando. Diz o autor:
    “Se hoje temos o casal Eduardo Cabrita e Ana Paula Vitorino no conselho de ministros de António Costa, no passado tivemos os irmãos Leonor e Miguel Beleza no conselho de ministros de Cavaco Silva. Se hoje temos Vieira da Silva e a sua filha, Mariana, no executivo governamental, na era Cavaquista tínhamos Diamantino Durão e o seu filho, Durão Barroso”. sic.
    Isto é pura mentira.
    Uma consulta rápida as histórico dos governos, desde 25 de Abril desmente estas afirmações . Leonor Beleza foi ministra da Saúde no XI governo constitucional deixando a pasta a 5 de Janeiro de 1990. Miguel Beleza assumiu a pasta de Ministro das Finanças, a 5 de Janeiro de 1990. Jamais os dois tiveram assento, em simultâneo, no conselho de Ministros.
    Diamantino Durão foi ministro da Educação no XII governo constitucional, saindo de lá em 19 de Março de 1992. Durão Barroso assumiu a pasta do Ministério de Negócios Estrangeiros desse governo, em 12 de Novembro de 1992. Nunca se sentou ao lado de seu “pai” que afinal é seu tio. Não dá logo para ver, pelos sobrenomes, que José Manuel Durão Barroso, se familiar, será sobrinho de Diamantino Durão por parte da mãe?
    Por outro lado, não está em causa dirimir uma criancice politica numa batalha de saber quem tem mais ou menos cadastro. O debate que devemos ter é se, nos dias de hoje, é legítimo os governantes que escolhemos para procurar o melhor PARA TODOS NOS apenas procurarem o melhor PARA TODOS ELES.

  5. António de Almeida says:

    Só uma pequena correção João, quando entrou Miguel, saiu Leonor, assegurando que continuasse um Beleza no Conselho de Ministros. Mas existia um outro irmão bem mais interessante, de nome José Manuel Beleza, lembras-te dele?
    Se a memória não me atraiçoa, Leonor Beleza era contestada pela indústria farmacêutica, Miguel entrou para substituir o também contestado Miguel Cadilhe, Cavaco Silva deixou-os cair na mesma remodelação. Dos 4 irmãos Beleza, existia ainda uma juíza e José Manuel Beleza um “cliente” interessante da Justiça, um tanto ou quando esquecido hoje em dia…

  6. Anonimus says:

    Estava a ver que tinham de ir às nomeações de amigos que o D. Afonso Henriques fez, para justificar esta fantochada.
    Ah, o outro antes de mim fez o mesmo.
    Parabéns.

  7. estevesayres says:

    Temos tanta coisa para resolver, vamos andar anos e anos a descoitar um assunto, que os deputados que se passeiam na Assembleia da República, se fossem democratas. mas pelos visto não são, São sim uma cambada de burgueses, já tinham resolvido este e outros assuntos…

  8. António Silva says:

    Qual é o caracter de um indivíduo destes para se permitir fazer a intervenção que fez no último debate na AR?
    Em 2012, foi assim com o filho:
    https://dre.pt/application/dir/pdf2sdip/2012/01/020000000/0337203372.pdf
    https://expresso.pt/actualidade/copiar-e-colar-no-ministerio-da-justica=f702244#gs.3yueiw
    Na altura, o Expresso nem se interessou em averiguar quem era o sortudo, apercebendo-se apenas da questão dos subsídios então suspensos para os outros cidadãos.

  9. estevesayres says:

    Temos tanta coisa para resolver, vamos andar anos e anos a discutir um assunto, que os deputados que se passeiam na Assembleia da República, se fossem democratas. Mas pelos visto não são, São sim uma cambada de burgueses, já tinham resolvido este e outros assuntos…

  10. Elvimonte says:

    E até às eleições muita mais roupa suja vai ser lavada, alguma das vezes com fake news. Este é um dos “grandes benefícios” dos anos eleitorais, a par das medidas eleitoralistas promovidas pelos governos em exercício. Nada de novo, portanto.

    O que realmente incomoda, espelhando bem a qualidade da nossa “democracia” e da comunicação social, tão ou mais preocupada em ser rentável do que em informar, é que o nepotismo, a promiscuidade e o favorecimento são transversais a este país todos os anos, todos os meses, todos os dias.

    E outra coisa talvez não fosse de esperar de um país que insiste em perpetuar um sistema eleitoral arcaico, assente em listas fechadas – ficando eu agora na dúvida se não existirá alguma correlação entre listas fechadas e índices de corrupção – que priviligiam precisamente o nepotismo, a promiscuidade, o favorecimento e a corrupção.


  11. …” O debate que devemos ter é se, nos dias de hoje, é legítimo os governantes que escolhemos para procurar o melhor PARA TODOS NOS apenas procurarem o melhor PARA TODOS ELES ”

    É isso, Nuno Abreu !

    De qq modo este lado recente da questão aqui fica, que toca a indignação e justifica o escárnio e mal-dizer :

    http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2019/04/cavaco-e-falta-de-memoria.html

  12. Nuno M. P. Abreu says:

    Cara Isabel:
    O que detesto neste debate são duas coisas. A primeira é a invocação de factos falsos ou a não contestação de factos arrolados. A segunda é a futebolização dos mesmos. No meu entender este espaço deveria servir para debater, de uma forma “aventada”, arejada, decisões ou propostas politicas e não para agitar fanáticas e acéfalas bandeiras partidárias sustentadas em caricatas cartilhas. A nossa base social é maioritariamente acrítica e competirá a quem detém algum informação e, sobretudo, formação, contribuir para a aculturação de quem pouco tempo tem para o tentar, sem estar preocupado com “likes ou dislike”.

    • Paulo Marques says:

      Como alguém que o arreliou quando apareceu porque estava à espera de uma cartilha, é com satisfação e agradecimento que o vejo comentar.

  13. Julio Rolo Santos says:

    Estes comentadores políticos e a oposição em geral esquecem-se facilmente do que fizeram nos governos por onde passaram e têm o desplante de atirarem pedras aos outros na esperança de que estes outros se tenham esquecido da porcaria que fizeram enquanto governantes. Fazem figura de fantoches e o Zé já os topa a distância

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