João Miguel Tavares, a culpa lusitana e o mito de Mário Nogueira

Na sua crónica de hoje, João Miguel Tavares (JMT) consegue o milagre de se afastar de muita direita que vê nos apoios sociais o grande problema da economia portuguesa. Há dias assim, em que JMT escreve menos abjecções.

Quanto ao resto do texto, concordo que Portugal é um país mal gerido, com desvios de receitas – impostos ou fundos europeus – para gastos desnecessários, numa sucessão de actos de corrupção legal e ilegal que fazem de nós um país bastante pior do que deveria ser.

Note-se, no entanto, a diferença: no princípio do texto, JMT consegue, como se viu, explicar claramente quem não tem a culpa. Quando começa a identificar os culpados, limita-se aos últimos dez anos e, pelo meio, como era previsível, deixa a Passos Coelho o papel de alguém obrigado a executar uma política pela qual não era minimamente responsável, o que é uma ficção querida a muita direita.

A história da má gestão portuguesa vem de longe e inclui, entre tanta coisa, a visão deslumbrada de gente que quis ficar na História, com base no folclore de obras inacabadas, como a subordinação de Soares e de Cavaco a uma Europa que impôs a destruição do nosso tecido produtivo, com passagem por uma longa tradição de favores com dinheiros públicos a interesses privados, com bancos e parcerias público-privadas a mamarem na teta dos impostos e na tendencial supressão de direitos ou nos cortes salariais (sempre em nome de uma produtividade sem verdadeiros incentivos que não sejam os de não cair na miséria). A dívida pública, que, por ser pública, todos somos obrigados a pagar, continua por ser verdadeiramente explicada, talvez porque não convenha a quem andou criá-la enquanto parecia estar a governar o país.

Pelo meio, JMT não consegue escapar a outro mito urbano muito querido à direita: o de que Mário Nogueira manda no Ministério da Educação. O mito, como se sabe, não carece de provas, é o nada que é tudo, como explicava Pessoa. Estarei pronto a dar o braço a torcer, se João Miguel Tavares conseguir provar que a larga maioria das reivindicações dos sindicatos foi caninamente cumprida pelo Ministério da Educação. Algumas pessoas poderão pensar que não é possível que alguém com tanta visibilidade mediática possa fazer tais afirmações sem ter a certeza do que está a dizer – estaria bem acompanhado por gente como Miguel Sousa Tavares ou Carlos Guimarães Pinto.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Bom texto. Nada melhor do que desconstruir a fábula neo liberal do JM Tavares.
    A direita, a tal que é proprietária dos meios de comunicação social cá da nossa terra, criou uma narrativa assente no qual o PS é um partido de corruptos. Como se a direita não estivesse infectada deles, desde o imobiliário à banca. Os outros mais à esquerda do PS, o PCP e o BE, não sendo corruptos, são extremistas, na ótica deles. Como não têm indícios, regurgitam o Robles, até à exaustão. Acham que eles não gostam desta Europa, eu também não, mas só por acaso, acham que eles rejeitam a moeda única e os tratados orçamentais, acham que eles preferem uma sociedade regulada, contrariando o liberalismo económico, que dizem defender, como se a economia hoje tivesse alguma analogia com o liberalismo do século XIX. Como não podem acusá-los de promoverem uma ditadura do proletariado, com se constata pelos últimos seis anos, acusam o PS de estar refém deles. Como PS é escrutinado até à última nomeação política, coisa que eles próprios fizeram no passado, descobriram a endogamia socialista, no presente.
    É bem verdade que o PS deu um forte contributo para o descalabro a que isto chegou, a todos os níveis. Tanto no tempo de Mário Soares e António Guterres, mas com mais empenho ainda no de José Sócrates.
    Sejamos no entanto honestos no plano intelectual. O PS neste esquema ardiloso em que se tornou a corrupção, “faz mais o papel do cigano, na feira, do que outro qualquer”. Quem dominou o sistema financeiro durante décadas foi gente do PSD. Houve bancos como o Banif e o BPN que eram exclusivos do PSD. Nos negócios imobiliários estão por todo lado. Tudo gente vestida com uniforme laranja.
    Quanto à subsídio dependência, o PS está para o rendimento mínimo garantido, como o PSD está para as TECNOFORMA’s deste país. E são muitas. São tantas que a ex PGR resolveu arquivar quase tudo, para não ter muita maçada em investigar a tramóia que por ali cogitava.

    • Filipe Bastos says:

      “A direita, a tal que é proprietária dos meios de comunicação social cá da nossa terra, criou uma narrativa assente no qual o PS é um partido de corruptos.”

      Deve estar a gozar, Naldinho: a direita pode ser dona dos media, mas a maioria tende para a esquerda. Sendo isento, só o Observador e pouco mais será direita, sobretudo após o suborno do Bosta com a desculpa do covidas.

      Não é preciso qualquer ‘narrativa’: o PS é um partido de corruptos, o pior, o mais corrupto, o mais mafioso e ruinoso de todos. Sempre o foi. Nada em Portugal é tão podre quanto o Partido Sucateiro.

      E olhe que bater a Laranja Podre e o clube azul-cueca da Dona Portas e do Jacinto Rego não é fácil.

      • Paulo Marques says:

        Tende para a esquerda, em quê? Dia sim, dia sim, Sócrates para ali, Sócrates para acolá, Núncio, Cavaco, Loureiro, Barroso, Albuquerque, vai tudo lavadinho. Nem chega ao equilíbrio representativo do parlamento.
        E os outros em quê? Na quantidade de pessoas a chamar meninas histéricas a deputadas? Na quantidade de pessoas a chamar irresponsáveis e despesistas? Na insistente treta que querem fechar o país (como se isso fosse assim) quando já nem o Euro questionam? Nos avisos ao perigo de políticas que não defendem? Da crítica a não haver denúncia a regimes que são mesmo criticados? Quando chamam irresponsáveis a qualquer reivindicação? Quando mal cobrem deslocações a locais de trabalho a ouvir trabalhadores para lhes chamar de caviar?
        Ah, já sei, de reclamarem direitos humanos para todos. Pois, de facto, é tudo comuna.

    • Rui Naldinho says:

      Deve ler-se “infestada” e não “infectada”, com9 se depreende do texto

  2. Filipe Bastos says:

    Tudo muito certo no texto, até ao Mário Nogueira. Não sei se ele manda ou não no Ministério; suponho que tenha certa influência como parte do acordo entre o PS e o PCP.

    Toda a gente sabe que a paz podre xuxo-comuna é a única coisa que apazigua os professores… e não só. No tempo do fantoche Passista não havia dia sem drama: era gritos e uivos e manifs e gente a partir nos aeroportos e miséria sem fim.

    Veio a Gerimbosta e, por magia, tudo ficou catita. Piora um bocadinho perto das eleições, para lembrar-nos como o PS é mau e como precisamos do PCP, depois volta a acalmar.

    Mário Nogueira é dos maiores inimigos da esquerda. Seria difícil encontrar figura mais desprezível, irritante, antipática e merdosa do que este reivindicador e chulo profissional.

    Já deve ter colocado milhares de pessoas contra a esquerda, e com razão. Mantê-lo é um tiro de canhão no pé.

    • António Fernando Nabais says:

      Boa, Filipe! O Filipe conseguiu “provar que a larga maioria das reivindicações dos sindicatos foi caninamente cumprida pelo Ministério da Educação.”
      Oh, parece que não! Limitou-se a falar do que não sabe, incluindo a referência passistóide à ausência de protestos dos professores durante o primeiro governo do Costa. Não, não houve greve às avaliações nem nada.
      Pronto, Filipe, vou continuar à espera que DEMONSTRE (desculpe as maiúsculas!) que o Mário Nogueira manda no Ministério da Educação. Vou é esperar sentadinho.

    • Filipe Bastos says:

      Não provei, António, nem tentei provar. Quantas horas ia perder à procura das dezenas de reivindicações e acções do governo?

      E para quê? Para depois o António dizer que não tinha nada a ver, que já vinha de trás, etc.? Se até nega que os protestos caíram com a chegada da Gerimbosta?

      Em todo o caso, é secundário: com mais ou menos acordo xuxo-comuna, os sindicatos tudo têm feito para antagonizar o resto do país. Ou acha que alguém suporta o chulo Nogueira? A Avoila? O Arménio? O Carvalho da Silva?

      Quantos votos terão estes sindicalistas e as suas infindáveis greves, muitas delas de rabo cheio, já custado à esquerda? Até quando vai fingir não ver que o país está dividido a meio, e que a metade pública se está nas tintas para a outra metade?

      • Paulo Marques says:

        Exacto, os trabalhadores que fiquem quietinhos e calados, que assim é que algo se muda. Força Filipe, pela luta pelo silêncio.
        Entretanto, claro, nada mudou nem nos contractos de trabalho, perdão, prestação de serviços ilegais do estado. Devia festejar por Os Outros também terem sido fodidos.

      • António Fernando Nabais says:

        Claro que não provou. Não sabe. Limita-se a “factos alternativos” e a simplismos passistóides e, portanto, simplórios. A metade pública é completamente endogâmica e não tem parentes ou amigos na outra metade.


  3. Propalam que a maioria dos media tende para a esquerda? Atão indiquem-me um só que seja de esquerda, Não peço muitos. Só um, umzinho. Este deve ser o único país da Europa onde não há nenhum. Porque será?????????

    • Filipe Bastos says:

      Esquerda a sério? Realmente poucos. Esquerda sucateira, partidária e ‘identitária’? Vários. Quer um? Aqui vai: Público, DN, JN, Expresso, RTP, SIC, TVI.

      Note que não quero uma coisa nem outra; os media que se assumem de esquerda ou de direita, como acontece noutros países, são igualmente maus.

      O papel dos media é informar e investigar com a maior isenção possível. Artigos de opinião devem estar claramente identificados e fornecer várias perspectivas.

      O que temos não é tão assumido, é insidioso: por regra inclina-se para o PS, para o PCP e BE. Nem com a Laranja Podre no poleiro a coisa muda: veja a fúria anti-Passista (e com razão – mas não fazem o mesmo ao Partido Sucateiro).

  4. LUIS COELHO says:

    Comentários para quê?!! São artistas portugueses da trafulhice, que tentam entreter os pacóvios com palhaçadas enquanto vão vivendo como nababos á nossa conta e os que tudo produzem e pagam levam uma vida miserável!

  5. JgMenos says:

    «uma Europa que impôs a destruição do nosso tecido produtivo»

    Nada como uma idiotice sem prova para fazer figura de sábio.
    Quando a Europa cá chegou já a esquerdalhada destruíra o bastante para que houvesse que construir-se sobre ruínas.

    • António Fernando Nabais says:

      AHAHAHAHAHAHAHAHAHAH. Boa malha, grande menos!

    • POIS! says:

      Pois foi!

      Mas há quem seja muito mal agradecido. Tem saudades das “ruínas” dizem. É certo que o mamarracho cavaqueiro que construiram por cima também não ajudou ao amor à coisa. Bem tentaram alguns fazer umas obras, dar uma pintura e tal, mas foi nada. Vieram os arquitetos Passo-porteiros e voltaram a pôr tudo como estava.

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