João Miguel Tavares, a culpa lusitana e o mito de Mário Nogueira

Na sua crónica de hoje, João Miguel Tavares (JMT) consegue o milagre de se afastar de muita direita que vê nos apoios sociais o grande problema da economia portuguesa. Há dias assim, em que JMT escreve menos abjecções.

Quanto ao resto do texto, concordo que Portugal é um país mal gerido, com desvios de receitas – impostos ou fundos europeus – para gastos desnecessários, numa sucessão de actos de corrupção legal e ilegal que fazem de nós um país bastante pior do que deveria ser.

Note-se, no entanto, a diferença: no princípio do texto, JMT consegue, como se viu, explicar claramente quem não tem a culpa. Quando começa a identificar os culpados, limita-se aos últimos dez anos e, pelo meio, como era previsível, deixa a Passos Coelho o papel de alguém obrigado a executar uma política pela qual não era minimamente responsável, o que é uma ficção querida a muita direita.

A história da má gestão portuguesa vem de longe e inclui, entre tanta coisa, a visão deslumbrada de gente que quis ficar na História, com base no folclore de obras inacabadas, como a subordinação de Soares e de Cavaco a uma Europa que impôs a destruição do nosso tecido produtivo, com passagem por uma longa tradição de favores com dinheiros públicos a interesses privados, com bancos e parcerias público-privadas a mamarem na teta dos impostos e na tendencial supressão de direitos ou nos cortes salariais (sempre em nome de uma produtividade sem verdadeiros incentivos que não sejam os de não cair na miséria). A dívida pública, que, por ser pública, todos somos obrigados a pagar, continua por ser verdadeiramente explicada, talvez porque não convenha a quem andou criá-la enquanto parecia estar a governar o país. [Read more…]

RSI – rendimento social de inveja?

O CDS-PP fez do rendimento mínimo (agora chamado de rendimento social de inserção) uma bandeira.

E, se me permitem o abuso, caras e caros leitores, antes de continuar a mostrar a demagogia da velha direita, sugiro uma visita ao site da segurança social para ficar a saber mais sobre os 189 € / mês que os malandros recebem.

Paulo Portas, a cara da velha direita, não tem qualquer problema em se chegar à frente nas críticas ao RSI. Muitas delas, justas, mas como em quase tudo, o problema não está no conceito, mas na sua aplicação. Esta forma de apoio social é fundamental para que algumas pessoas, em situação de exclusão total consigam ter o que comer. E, quanto a isso, não vejo qualquer problema. Há abusos? Claro que sim. Então que se garantam as condições para que a fiscalização seja eficaz.

Mas, vamos a contas: na contabilidade do CDS foram depositados 1.060.250 euros, isto é, mais de 56 mil meses de RSI. Nas contas do Ministro, em média o RSI teve a duração de 22 meses. Fazendo as contas, os depósitos do CDS dariam para 2549 pessoas receberem o RSI durante 22 meses.

Os últimos dados indicam que há 330 mil pessoas a receber RSI, o que daria, se todos recebessem o valor máximo, qualquer coisa como 62 milhões de despesa mensal para o estado.

A despesa com o BPN corresponde a quantos meses de RSI? A mais de sete anos completos. [Read more…]

Ando a trabalhar para pagar o Rendimento Mínimo

A frase, ouvi-a ontem à porta de uma IPSS. Pelo que percebi, nos breves momentos em que aproveitei para ouvir a conversa fingindo que espreitava uma montra, a autora da frase falava com uma amiga, Assistente Social daquela IPSS. Exactamente assim: «Ando a trabalhar para pagar o Rendimento Mínimo».
Os calores começaram-me logo a subir, como sobem sempre que ouço uma frase do género. Mas a frase da Assistente Social salvou-me. Valha a verdade que não era uma senhora que devesse muito à beleza (assim um misto de Gabriela Mistral com Catherine Ashton), mas naquele momento só me apeteceu beijá-la.
– «A trabalhar para pagar o Rendimento Mínimo??? Eu não trabalho para pagar o Rendimento Mínimo! É minha obrigação contribuir para aqueles que são menos afortunados do que eu! E não me custa nada. O que me custa é andar a trabalhar para pagar os lucros dos Bancos e de quem não paga impostos.»
Continuou a vociferar – contra os Bancos que pagam poucos impostos, contra quem não paga impostos dos lucros na Bolsa, contra quem não declara o que ganha, contra os privilégios dos políticos e dos gestores públicos – e a outra já não tugia nem mugia.
Contente, segui o meu caminho. Afinal, ainda há gente com um pingo de decência em Portugal.