Miguel Sousa Tavares: desculpas de mau apagador

Miguel Sousa Tavares, na sequência do que escreveu na semana passada, conseguiu reconhecer que se enganou na quantia astronómica que os professores recebiam por classificar exames. A argumentação não é convincente e, como qualquer menino birrento, não consegue reconhecer um erro sem, imediatamente, contra-atacar, acumulando mais erros.

Talvez, desta vez, tenha ido ler, finalmente, o despacho 8043/2010. Uma vez aí chegado, descobriu ou reconheceu que se tinha enganado: os professores recebiam 5 euros ilíquidos por exame. No entanto, não perde uma oportunidade para acrescentar que poderiam receber “7,5 ou 15, em casos particulares.” Mais uma vez, alguém menos informado poderia ficar a pensar que havia casos particulares na classificação dos exames. A verdade é que esses dois valores são pagos não a professores classificadores mas sim, numa fase posterior, aos que procedem a reapreciações (€7,48 ilíquidos) e aos especialistas que analisam reclamações relativas a reapreciações (€14,96 ilíquidos).

Para além disso, de acordo com a argumentação contida no próprio despacho, a classificação de exames do ensino secundário era paga porque “os exames nacionais são também provas de ingresso para candidatura ao ensino superior e, por vezes, assumem mesmo somente esta função, pelo que já não poderão considerar-se no âmbito das actividades dos professores do ensino secundário e dos seus deveres profissionais”. Quer isto dizer que os professores que classificam exames do secundário estão a trabalhar para as universidades, numa espécie de outsorcing que, agora, passa a ser gratuito, continuando, afinal, a não fazer parte dos seus deveres profissionais. Já que o cronista quis comparar esta situação à de bombeiros que receberiam pagamentos extraordinários para apagar fogos, e prolongando a imagem, os professores do secundário são os bombeiros que vão apagar os fogos que a corporação universitária não quer ou não pode resolver (por razões muito, pouco ou nada aceitáveis). Note-se, ainda, que o Secretário de Estado que assina este despacho e que argumentava a favor do referido pagamento, passado menos de um ano, defende exactamente o contrário.

Como, com Sousa Tavares, um erro nunca vem só, cai, ainda, na asneira de afirmar que os classificadores de exames “são dispensados de dar aulas e ainda são compensados com mais dias de dispensa do que aqueles gastos com essa tarefa”, o que não acontecia nem acontece agora. A dispensa que passará a existir é de 16 dias e incidirá sobre a componente não lectiva. Vou repetir: não lectiva.

Todos temos direito aos nossos ódios de estimação e é saudável dizer uns disparates desinformados ou politicamente incorrectos, sobretudo se estivermos entre amigos. Tudo isso deve, no entanto, cessar a partir do momento em que exercemos cargos de responsabilidade, como, por exemplo, professor, ministro, jornalista ou comentador. Por esse país fora, os professores classificadores, mesmo injustamente esbulhados de um pagamento justo, irão, com certeza, cumprir o seu dever com rigor e isenção. Entretanto, talvez o Expresso não esteja a pagar o suficiente a Miguel Sousa Tavares para que ele sinta a mesma obrigação.

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Um triste, este MST.


  2. É absolutamente ridículo que ainda continuem a levar este senhor a sério nas suas afirmações. Claramente está apenas a opinar para mostrar que é importante, mas não o deve fazer por gosto, mas sim por obrigação, ou por ser pago para isso, quiçá (leia-se o quiçá. Não tenho provas, logo, não sei, logo, não acuso, ao contrário desse senhor).
    Qualquer crítico que se preze faz duas coisas: a primeira é pesquisar sobre as informações que vai debater e preparar um discurso com todas as perguntas que possam ser feitas adicionalmente, a segunda é estar preparado para pedir desculpas e admitir o erro, coisa que este senhor não sabe fazer.
    Ou seja, Miguel Sousa Tavares não só não admite que errou, como cai imediatamente noutra falácia só para tentar desculpar-se. Como é que ainda o levam a sério?!

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  1. […] fazem de mim alguém completamente inapto para poder ser um comentador moderno, como um Miguel Sousa Tavares ou um José Leite Pereira ou um Pacheco Pereira, gente abrangente, capaz de perorar sobre tudo com […]

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