Notas sobre as Presidenciais 3: hecatombe à esquerda?

À medida que os resultados iam saindo, a narrativa da hecatombe à esquerda foi sendo construída, por painéis essencialmente feitos de fazedores do opinião alinhados à direita, que toda a gente sabe que a comunicação social é controlada pela esquerda.

Mas será que foi mesmo assim?

Comecemos pelos resultados PCP, responsáveis pelo primeiro momento de vergonha alheia da noite eleitoral, com assinatura de Rui Rio, que fez questão de dar grande ênfase, no seu discurso, ao facto de João Ferreira ter ficado atrás André Ventura, apesar de tal se dever, essencialmente, a votos do PSD.

O PCP, face à eleição de 2016, perdeu cerca de 2 mil votos. É uma perda, é significativa, como é significativo que, no Alentejo, o candidato comunista fique atrás do candidato herdeiro do salazarismo, mas não vai muito além deste simbolismo. Espero que Rio se recorde bem deste momento, quando, daqui por dois anos, se ainda liderar o partido, perder um ou mais deputados do distrito Setúbal, para o Chega. Em todo o caso, sendo um mau resultado, perder 2 mil eleitores não é hecatombe nenhuma. É um mau resultado, nada mais.

Caso diferente é o do Bloco de Esquerda. Aqui, o termo hecatombe aplica-se na perfeição. Aqui, sim, estamos perante um desastre em toda a linha, materializado numa perda de dois terços da votação obtida pela mesma Marisa Matias em 2016, e cujas causas, a meu ver, são bastante claras. Em primeiro lugar, os debates correram globalmente mal a Marisa Matias e isso prejudicou o arranque da campanha, que nunca descolou. Em segundo, e desde que o BE chumbou o OE21, a tendência que se verifica em todos os estudos de opinião é de queda nas intenções de voto. E Marisa Matias também foi chamada a pagar esta factura. Finalmente (e principalmente, a meu ver), a candidata do Bloco foi, claramente, a mais prejudicada pela transferência do voto útil para Ana Gomes.

No caso de Ana Gomes, afirmar que a candidata teve um resultado desastroso é uma falácia. Sendo socialista, Ana Gomes avançou sem o apoio do PS, que António Costa entregou numa bandeja de prata a Marcelo Rebelo de Sousa. Teve o apoio de dois partidos pequenos, o PAN e o Livre, e de poucas figuras de destaque do partido, como Pedro Nuno Santos e Manuel Alegre, mas, ainda assim, não contou com o grosso do eleitorado socialista, fiel a Costa e globalmente satisfeito com a coabitação Governo-Presidência da República, situação agravada pela condição de opositora interna do primeiro-ministro. Face às circunstâncias, em que as forças do bloco central se reuniram em torno de Marcelo, que se sabia vencedor desde cedo, o segundo lugar de Ana Gomes, sendo uma derrota, é uma derrota digna e longe de poder ser considerada um desastre. Não fora Ana Gomes, e Costa teria entregue o segundo lugar da corrida à extrema-direita. E isso, por si só, foi uma vitória para democracia.

Finalmente, importa aqui referir que a vitória de Marcelo não se deve apenas ao centro-direita e à direita conservadora, que viu milhares de votos serem absorvidos pela candidatura da extrema-direita, do eleitorado da direita tradicional que nunca perdoou a tal coabitação Costa/Marcelo. Aliás, as críticas a Marcelo, ao longo do seu primeiro mandato, vieram maioritariamente da direita, não da esquerda. Esta realidade, aliada ao posicionamento da cúpula do PS mesmo antes de PSD e CDS-PP declararem o seu apoio ao presidente incumbente, permitiu a Costa recolher alguns louros da vitória de Marcelo, que não foi uma vitória do centro-direita, mas uma vitória do bloco central. Tal como a vitória esmagadora de Soares, em 91, teve a assinatura de Cavaco Silva.

À esquerda, no fundo, apenas o BE fez péssima figura. Mas é também à esquerda que encontramos um dos grandes vencedores da noite: António Costa. Até porque a direita, grande parte dela, está fartinha de Marcelo até à ponta dos cabelos. E foi essa direita quem mais perdeu, nesta noite eleitoral.

Comments

  1. JgMenos says:

    Que alívio!
    Afinal tudo se traduziu numa derrota da Direita.

    Avante, cretinice esquerdalha!
    O terreno está livre.

    • POIS! says:

      Pois não me diga!

      Está livre? O terreno? Está mesmo?

      V. Exa. finalmente acabou de pastar? Até que enfim, a malta queria jogar à bola mas V. Exa. não desamparava! Que tormento! Valha-nos São Venturoso Escolhido!

    • Paulo Marques says:

      Como é que é uma derrota da direita se esta, como o racismo, não existem em Portugal e só há socialismo em todas as esquinas?

  2. Paulo Marques says:

    Deixo a análise clubística para quem quer saber dela, que nunca acerto, mas a Marisa perdeu-me com o seu radicalismo de acreditar no EPSR e demais solidariedade europeia. Tive que ir mesmo para o voto útil em João Ferreira, a ver se alguém consegue manter políticas de bom senso na agenda.

  3. luis barreiro says:

    A extrema esquerda teve uma hiper mega vitória, assim já dormes melhor mano?

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