Salvar o têxtil, reindustrializar Portugal

Estou no sector têxtil há 12 anos. Conheço bem, e por dentro, grandes marcas, pequenas confecções, retalhistas, centros comerciais, department stores, o luxo e o fast fashion, bem como o fluxo de matérias-primas e, sobretudo, a profunda dependência de todo o sector face à China, desde que o Ocidente democrático decidiu abrir-lhe as portas da Organização Mundial do Comércio, decisão da qual resultou, em larga medida, a destruição de grande parte do tecido produtivo de países como o nosso.

O resultado de anos de aprofundamento desta dependência, face a uma potência que não se rege pelos mesmos valores que as democracias liberais, onde, não raras vezes, o trabalhador se confunde com o escravo e os direitos laborais não passam de uma ficção – que muda e torna a mudar com um estalar de dedos no comité central – fez com que a China se tornasse mais “competitiva”, o que lhe permitiu ascender a uma posição monopolista, dominando, quase por completo, a manufactura e a produção de várias matérias-primas, tornando os sectores do têxtil e da moda totalmente reféns de regime totalitário chinês.

O que é que sucede?

Sucede que, nos próximos meses e anos, o preço de algumas destas matérias-primas vai aumentar substancialmente, algo que começa agora a verificar-se. Das matérias-primas, do seu transporte e até dos contentores onde são acomodadas para viajar até à Europa e a outras partes do mundo. E isso terá um impacto directo nas empresas, mais ainda em países onde o sector têxtil alimenta e é alimentado por outros sectores, como o nosso, e esse aumento de custos, certamente, não será suportado pelo consumidor final que vai à Primark ou à Hermès. Será suportado por financiamento do Estado, por endividamento público e privado, por despedimentos, cortes salariais e por uma pressão acrescida no sentido de destruir ainda mais a vulnerável legislação laboral.

Será também – e sobretudo – suportado pelas pequenas e médias confecções, tinturarias e estamparias portuguesas, que, num contexto de redução de consumo e da procura pelos serviços que prestam, lutarão até à milésima de cêntimo para serem subcontratadas pelas grandes marcas, com margens esmagadas que as deixarão em estado vegetativo, ligadas ao ventilador, à espera de melhores dias. Se lá chegarem para os ver. E tudo isto porque algum iluminado decidiu que haveríamos de alienar o nosso tecido produtivo em nome de um acordo comercial com a China, que, sem surpresas, nos rebentou nas mãos.

Soluções?

Reindustrializar.

Fazê-lo de forma inovadora, com o foco no ambiente e na sustentabilidade, que são hoje o principal drive da indústria, cada vez mais focada nos algodões orgânicos e fibras sintéticas recicladas ou resultantes de desperdícios reciclados. Sem esquecer a questão dos direitos humanos. E criar incentivos à produção nacional, ao mesmo tempo que oferecemos à Europa e ao mundo uma alternativa à máquina semi-escrava do têxtil chinês, que é a negação de todas as preocupações enunciadas atrás.

Podemos também ceder ao regime totalitário da RPC, apresentar rendição, e assistir ao aprofundar da dependência, até ao dia em que do sector têxtil português, outrora um dos motores da nossa economia, reste apenas uma memória longínqua sobre o dia em que o capitalismo colaboracionista nos vendeu ao comunismo totalitário.

Comments

  1. JgMenos says:

    Toda uma história de incompetência:
    – Dos políticos que se deixam comprar por subsídios para subscrever acordos que arruínam indústrias.
    – Por representantes patronais comprados por esses subsídios para calarem, consentindo,
    – Por um patronato que gere a olho e a impulsos.
    – Por um regime laboral/sindical que não sabe nem quer saber de produtividade para efeitos salariais.

    • Paulo Marques says:

      Lembrou-se de ser contra o comércio livre, quando ainda no outro dia defendia o acordo com o mercosul. Anda a perder clientes, é?

    • POIS! says:

      Pois cá está!

      Pelo Menos, a brilhante solução: a conhecida receita salazaresca, mas aplicada a esta era globalesca.

      Tudo passa por um novo regime laboralesco/sindicaleiro (mas controlado por sindicaleiros nacionalescos) em que a malta trabalhadora esteja disposta a pagar a troco das deslocações, almoço reforçado e o privilégio de não estar em casa a gastar água e luz (com direito, no máximo, a três descargas diárias de autoclismo, nada de abusos!).

      • POIS! says:

        Há um erro: onde se lê “disposta a pagar”, deve ler-se “disposta a trabalhar”. No caso, até vai dar ao mesmo.

  2. Paulo Marques says:

    Boa piada, João. A solução é continuar a nivelar por baixo para que o capital financeiro não sofra perdas.

  3. Ana Moreno says:

    João, o problema é o modelo e a ordem subjacente às famosas “cadeias de valor global”, tudo à custa de externalização de custos de transporte e produção e de dumping ambiental e social. Enquanto se mantiver este caminho, estamos a caminhar para o abismo.