In memoriam: Padre Max e Maria de Lurdes

“Em Memória de pessoas que tão vilipendiadas foram, durante muitos anos, pelo escol brutal do passadismo, daqui subscrevemos o apelo: não vos mataram, semearam-vos!” – assim dita a carta aberta que hoje assinala os 45 anos do atentado que vitimou o Padre Max e uma sua aluna, Maria de Lurdes, e que junta mais de 300 subscritores.

Dois de Abril de mil novecentos e setenta e seis.

Há quarenta e cinco anos o Padre Max e Maria de Lurdes, sua aluna, caíam às mãos do terrorismo da extrema-direita. Maximiano Barbosa de Sousa, padre de Vila Real, nascido em 1943, começou o seu percurso político-social em França, onde se imbuiu do espírito que deu origem à Revolução de Maio de ’68, tendo sido influenciado pelos ideais que daí resultaram.

Com o objectivo de ajudar os mais desfavorecidos, Maximiano de Sousa decidiu-se, então, por uma carreira no Clero, tendo sido colaborador da Acção Católica Portuguesa. Conhecido como Padre Max, querido entre os seus pares e fiéis, fixa-se em Vila Real. Acaba por exercer a docência em liceus em Lisboa e Setúbal. Ciente da situação política em Portugal, onde grassava uma ditadura fascista liderada por António de Oliveira Salazar, e consciente dos valores que tinha adquirido em França, Max inicia por consciencializar muitas das pessoas que passavam pela sua igreja, tentando levá-las para a luta anti-fascista, acabando, por diversas vezes, preso às mãos do Estado Novo.

Candidato à Assembleia Constituinte, em 1976, pelo UDP (União Democrática Popular), abandona a carreira eclesiástica para se dedicar a cem por cento à luta anti-fascista e à construção do socialismo em Portugal. Militante activo, enérgico e dedicado, Max era querido entre os seus e na comunidade de Vila Real, próximo das pessoas da sua terra e dos seus camaradas de esquerda.

No dia de hoje, há quarenta e cinco anos, foi assassinado. No mesmo dia em que se aprovava a nova Constituição, o carro em que seguiam Max e Maria de Lurdes, sua aluna, explodiu à conta de uma bomba colocada no veículo. Max, de 33 anos, Maria de Lurdes, 18. Faleceram de imediato às mãos da reacção. Na época, contabilizaram-se mais de 300 atentados terroristas, perpetrados pela extrema-direita, numa tentativa de trucidar a força da Revolução e repor a ordem fascista que anteriormente vigorava no país. Neste, como noutros, os seus responsáveis nunca foram condenados, mesmo tendo o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) sido responsabilizado (por este e por outros). Do MDLP fizeram parte, por exemplo, e entre outros, Diogo Pacheco de Amorim, hoje em dia vice-presidente do partido CHEGA, e José Miguel Júdice, advogado e comentador político, liderados pelo então general António de Spínola.

Nestes 45 anos a justiça nunca foi feita, a sua memória nunca foi reposta e os seus perpetradores nunca foram condenados ou responsabilizados pelo assassinato. Mas, nestes 45 anos, não nos esquecemos e, por tal, lembramos: como muitos outros, o Padre Max foi morto às mãos das forças reaccionárias da extrema-direita. Um homem de força, coragem, vontade e feito de Revolução; lutando ao lado “dos trabalhadores agrícolas de Covas do Douro, com os rodoviários da Auto Viação do Tâmega, com os empregados do comércio de Vila Real e, sobretudo, com os estudantes, tão transmontanos como ele”, a memória de Max nunca será esquecida por aqueles que, ainda hoje, ousam valorizar a liberdade, a revolução e o socialismo; para quem faz frente às injustiças do capital e para quem não se prostra aos pés dos grandes senhores.

Continuaremos a recordá-lo, como a Maria de Lurdes, e como a muitos outros, feridos e mortos às mãos do fascismo, honrando-os na nossa luta por um país mais democrático, mais justo e mais solidário. Não vos mataram, semearam-vos!

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Obrigada, João Maio, por trazer à memória aquilo que, hoje, quase nos obrigam a esquecer – por via do uso de uma narrativa neoliberal que, da justiça, faz gato-sapato.

  2. Carlos Almeida says:

    João Maio

    Muito obrigado pelo post.
    Ana Moreno Os liberais são os fascistas envergonhados


  3. Lembro-me bem deste dia. Estava no 7º ano do Liceu, em Portimão, onde vivia, e a militância política era maior do que a vida estudantil. Na altura, estavam em efervescência as lutas dos pescadores e das operárias conserveiras, na cidade, pela defesa de contratos coletivos de trabalho e era essa a nossa preocupação diária. Mesmo no Liceu resistíamos a uma ofensiva da direita que procurava ganhar as eleições para a Associação de Estudantes. Sabíamos que no norte a situação era difícil para os nossos companheiros, colocados entre uma igreja católica retrógrada e salazarista e os fascistas encapotados nas fronteiras espanholas. O assassinato do Padre Max e da Maria de Lourdes foi para todos muito triste, mas ao mesmo tempo um alerta para reforçar a nossa luta, que ainda hoje continua. Não podemos esquecer!

  4. Rui Naldinho says:

    A propósito da homenagem ao Padre Max e Maria de Lurdes, cuja efeméride sobre o seu assassinato é hoje recordada por João Maio, queria apenas deixar aqui algumas palavras.
    Na altura em que tudo isto ocorreu, não vivia em Portugal. Relembro-me vagamente da Comunicação Social dar a notícia, mas pouco mais.
    Mas a propósito desta efeméride envolvendo um padre; até podia ser um ex padre, isso pouco interessa para o efeito; relembro-me do Padre José Martins Júnior, que nos idos anos de 1989 venceu as eleições para a Câmara Municipal do Machico, pela UDP, com quase 49% dos votos, contra cerca de 43% do PSD, deixando Alberto Joao Jardim à beira de um ataque de nervos, no qual proferiu já no final da noite, após a confirmação dos resultados, esta bela expressão democrática:
    ” Para o Machico nem mais um tostão! ”
    Mesmo assim só ao fim de doze anos conquistariam de novo a autarquia do Machico. Nessa altura só Porto Santo e o Machico escapava-me ao domínio laranja.
    O Padre Max e o Padre Martins Júnior foram de certa forma uns vendeiros revolucionários, entre outros espalhados por esse mundo fora, em face do “aggiornamento” convocado pelo Papa Joåo XXIII, no Concílio Vaticano II, o qual nunca saiu do papel, na tentativa de transformar a ICAR numa instituição mais próxima das pessoas.

  5. JgMenos says:

    Padre católico, tinha sido.
    Militante UDP era o cargo que desempenhava.

    Do seu programa: ‘O motor fundamental do avanço da luta revolucionária é a aliança operário-camponesa, que é a base da vasta corrente popular revolucionária das massas trabalhadoras, sob a direcção da classe operária’.

    Requiescet in pace

    • abaixoapadralhada says:

      Sa Lazarento

      O teu correlegionario Conego Melo é que mandou por a bomba.

      Deve ter sido um dia feliz para ti, nazi

    • POIS! says:

      Pois então, Alteza Salazaresca,

      Informo que a citação que faz do programa da UDP dificilmente seria subscrita pelo Padre Max, que era á altura candidato independente e porque, saiba V. Alteza Salazaresca, esse partido não exigia a ninguém que subscrevesse todo o seu programa, mas apenas que concordasse com os seus princípios.

      Mas pode tomar como verdadeira esta (cito de cor): “há quem queira dividir o povo entre católicos e não católicos mas a verdadeira divisão é entre opressores e oprimidos”.


      • Bem respondido. E a prova sobre a verdadeira oposição entre opressores e oprimidos está clara nas mãos ocultas dessa figura salazarenta que deu pelo nome de cónego Melo.

        • POIS! says:

          É só para dar mais uma oportunidade a Sua Alteza Salazaresca para desejar ao Padre Max, hipocritamente, “bom descanso”.

          Pelos vistos para o Herr JgMenos há bombas que são virtuosas. Sendo assim, talvez alguém tenha a caridade de o presentear nesta Páscoa com um ovinho explosivo.

          E cá estaremos todos para usar o nosso Latim.

    • Paulo Marques says:

      Ui, quando descobrir o Padre Constantino Alves, até lhe salta a tampa.

  6. JgMenos says:

    Oprimidos e opressores é a definição do socialismo.
    Mas os frustrados e invejosos sempre acreditam que aí podem integrar os opressores, competindo no mercado único da treta e lambe-cus que dá acesso ao poder.

    • POIS! says:

      Pois tá bem!

      V. Exa. “não lê”, “despreza”, e “não responde” a comentários que não lhe agradam. Limita-se a cagar umas poias mais à frente.

      Mas, para todos, ficou patente a salazaresca humanidade de V. Exa. ao justificar um assassinato à bomba através de latim mal escrito. V. Exa. tomou o partido dos assassinos. Nada que seja surpresa.

      E também que já se arroga á condição de cardeal, ou até de Papa: “Padre católico, tinha sido”. Em última análise, só o Papa pode tirar a condição de Padre a algum homem, seja ele candidato de um partido ou não. Apenas lhe tinha sido suspensa a atividade de culto, como aliás exigem as leis eleitorais. Padre ERA!

      Ou já existe algum Papa Menos Primeiro (e, esperemos que último, já agora…)?

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