O FC SHeriff Tiraspol e a Superliga Europeia.

Quando na época passada O FC SHeriff Tiraspol da Moldávia defrontou o Cercle Sportif Fola Esch do Luxemburgo, provavelmente nenhum de nós terá naturalmente ligado muito. Nessa eliminatória, o campeão de um dos países mais pobres da Europa defrontou o vencedor do país mais rico. Mas naquele jogo quase insignificante não estiveram apenas dois clubes, mas sim símbolos de países, cidades e culturas. Um bocadinho da Europa esteve ali. Uma Europa que não pertence a esta Superliga.

Sou favorável aos avanços na profissionalização das direcções dos clubes registados na última década e meia. Não tenho dúvidas que apesar do que ainda falta melhorar, o futebol está hoje bem melhor do que antes. Mas não confundo boa gestão com expansão do negócio e a visão do futebol reduzido a sua mercantilização.
Serei sempre um acérrimo defensor do equilíbrio entre a gestão e a matriz popular dos clubes.
A maioria dos clubes foi erguida por massas e estas devem continuar a manter poder sobre as instituições, por muito difícil e instável que por vezes isso possa ser, pois petrodólares e fundos de investimento não são a minha praia.
Sou pelos adeptos que ergueram clubes populares onde reina o sentimento de pertença. Aquele sentimento que se traduz em frases como “nós ganhámos” ou “nós não jogámos nada”. Como é que se explica que sempre que nos cruzámos com alguém desconhecido mas que é do nosso clube, a conversa começa logo com “nós”? Não se explica, porque há coisas que não têm que ser explicadas. E ainda bem.
Tal como não se explica a um CEO o valor do José Águas a levantar a taça em Berna em 1961, o cantinho do Morais ou o calcanhar do Madjer em Viena. Tudo isto é parte de um legado histórico que queremos ver renovado a cada domingo, a cada jornada.
E isto não se mercantiliza!
Eu acredito que não vai acontecer, mas se a Super Liga Europeia avançasse, seria um desastre.
A simples proposta é já uma provocação inaceitável. Tal seria o ponto máximo da mercantilização do futebol e juntaria numa competição corporações e não clubes, representadas por prestadores de serviços e não jogadores, com onzes liderados por celebridades e não capitães. Tudo para um evento e não num jogo, servido a consumidores e não adeptos, que dão ratings a estádios sem os sentir como a sua segunda casa e aonde vão para a selfie e menus standardizados que pecaminosamente trocam pela bifana regada com mini. No final, avaliam os craques pelos posts nas suas redes sociais e não pelo seu suor em campo. Consumidores travestidos de adeptos que rapidamente trocarão de clube se o outro lhes oferecer um voucher mais valioso. Falso, tudo isto soa a falso. Isto não é futebol.
O actual cenário não é perfeito e são vários os dilemas que a UEFA enfrenta na hora de organizar a Champions League, uma prova complexa e nem sempre bem gerida. Mas a UEFA mantém alguma democraticidade, responsabilidade social e líderes que cresceram nos relvados. Com os seus defeitos, a UEFA continua a assegurar oportunidades (mesmo que ínfimas) a todos os clubes do velho continente incluíndo as suas maiores instituições, erguidas por gente que dificilmente apoiaria tal iniciativa.
Quem fez crescer o Real na Europa foram lendas como Di Stéfano ou a Quinta Del Buitre. O United foi fundado por ferroviários, o Arsenal por trabalhadores da indústria militar e o Chelsea num pub londrino. Alguns CEOs deveriam procurar entender que estas instituições são “més que un club” como se diz na Catalunha sobre o Barça.

Se o empreiteiro Florentino Perez quer fazer dinheiro, está no seu direito. Mas eu sugeria-lhe antes que aproveite a boleia do foguetão do Elon Musk e que vá construir casas para Marte, levando também com ele o Sr Glazier do United e os demais CEOs que se juntaram a esta proposta. Podem até aproveitar a colonização do planeta para lançar novos clubes, fazê-los crescer do nada e explorar um mercado virgem pelo qual tanto salivam. Dá trabalho, mas é a vida.

Seja qual for o caminho, é imperativo que parem de mercantilizar instituições com décadas e erguidas pela paixão de milhões de adeptos e que se tornaram símbolos que passam de geração em geração.

E o que é que o jogo FC Sheriff Tiraspol contra Cercle Sportif Fola Esch tem a ver com isto? Neste jogo, os moldavos pobres eliminaram os luxemburgueses ricos. Nessa noite, acredito que os adeptos moldavos terão celebrado efusivamente e sonhado com a possibilidade de ver uma equipa do seu país pisar o Santiago Bernabéu, a Allianz Arena ou outro santuário do futebol. Viveram com a esperança numa presença na maior competição de clubes e com uma participação meritória alcançada pelos “seus” jogadores e não por causa de um wild card ou dos préstimos de uma agência de lobbying. Uma semana depois, na segunda eliminatória, o FC Sheriff Tiraspol acabaria eliminado pelo Qarabag do Azerbaijão e o sonho dos moldavos era adiado. Adiado, se a Champions League se mantiver. Porque se o caminho calha a ser o da Superliga, o sonho dos moldavos não fica apenas adiado. Ele será cancelado. O deles e o de muitos europeus.

Haja por isso alguém que explique a Florentino Perez e a Fenway Sports Group (dona do Liverpool) que o legado de Emilio Butragueno, Fernando Hierro, Ian Rush ou Steven Gerrard é defendido a jogar a Champions League seja contra o Bayern de Munique ou o Barcelona, seja contra o AC Omonia do Chipre ou a Societá Polisportiva Cailungo de San Marino.
Super Liga? Europeia? A Europa do futebol terá que ter sempre as portas abertas para um qualquer FC Sheriff Tiraspol.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    O único que ainda podia surpreender já não era nenhum desses, só mesmo o outro vermelho. Mas nem esse, sinal de mais uma indústria que se alimentou de especulação, até graças a emires e oligarcas que andamos a alimentar, até correr mal. Se ao menos os chineses gostassem da bola, ainda se alimentava mais um bocado.
    Azarito, tá tudo falido, e a falta de circo juntar-se-à à falta de pão nos burgos ordoliberais. Tempos interessantes, diria quem ganha em não se meter nisto.

  2. Filipe Bastos says:

    Concordo com o Marques, discordo do Franzini.

    Todo o desporto profissional é nocivo, o futebol leva a palma. Quanto maior o clube, quanto mais profissional a ‘gestão’, leia-se mama, mais nocivo se torna e menos falta cá faz. Pão e circo.

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