Professores com vontade, procura-se

Atualmente, desde que nascemos (e pelo menos até atingirmos a maioridade) um terço da nossa vida é passado a dormir, e cerca de outro terço é passado numa sala de aulas ao longo da juventude. Lembro-me que o meu pai apelidava a fase escolar de algo como “o emprego dos jovens” – fazendo o paralelismo, da mesma forma que os pais vão para o trabalho, o trabalho dos mais novos seriam os estudos, onde analogamente o pagamento seriam as pautas pelo desempenho e esforço feitos durante os trimestres e mais tarde a entrada para a faculdade querida de quem assim o almeja.

Sabendo que uma grande parcela da nossa juventude é passada a aprender, causa-me uma enorme urticária a desvalorização geral que se faz sentir nesse que acredito pessoalmente ser dos empregos mais importantes que se pode ter – ser professor. É procupante a falta de renovação de quadros e falta de interesse da minha geração nessa profissão. O Nabais explica bem essa realidade neste texto e aqui também, vinde ler que o gajo escrevinha umas coisas pertinentes.

Os poucos amigos que conheço que enveredaram pela área, desabafam sobre as colocações feitas em locais absurdos bem longe de casa sem qualquer apoio, da quantidade de trabalho absurda, das quantidade de reuniões longas e desnecessárias, somando a isso o facto de terem de gerir a sua vida pessoal neste grande ato de malabarismo.

Em retrospetiva e num exercício de empatia, agora não me é surpreendente o relembrar de professores mais azedos que me marcaram pela negativa e em parte desculpar alguns ou muitos dos seus comportamentos. É graças a esses professores que alunos tal como eu criam anti-corpos a determinadas disciplinas (ou em casos mais severos, à própria escola e ensino em geral). Basta pensar no cansaço acumulado da idade, aliado a problemas do foro pessoal/familiar ou de saúde terem de ser articulados com a responsabilidade de leccionar entre 20 a 30 jovens com as hormonas ao rubro durante cerca de 6h semanais por turma (!) e por vezes de diferentes anos. Fora o trabalho fora de aulas. Para quem nunca tentou dar formação a um grupo de pelo menos 20 adolescentes dificilmente entenderá genuinamente a dificuldade que é captar a sua atenção e interesse durante um período de tempo mais extenso do que 5 minutos.

É precisamente através a esses anti-corpos que se criam em conjunto (e contrastando) com a paixão flamejante de outros professores que nos conseguem cativar, que ao longo desse terço da nossa vida juvenil chegamos aos dias de hoje, parte da personalidade e gostos influenciados. É um terço da nossa vida que estamos em fase de crescimento, onde aprendemos a gerir problemas familiares, com outros hobbies externos, com namoros, com desporto, com amigos, com bullying. adicionando um topping de pressão da eterna pergunta “então e o que é que queres ser quando fores grande?” em mescla com um cocktail de hormonas rebeldes e um (natural da idade) desnorteio da vida de uma forma geral.

Poderia desenvolver muito mais e dar todos os exemplos de casos práticos que me recordo e que evidenciam a receita da desgraça atual, mas ao final de 500 palavras creio ser o suficente para ser óbvio o consequente molde de uma grande parte da vida de todos os educandos, entenda-se, todos nós! Molda-se muito dos interesses pessoais, acrescenta-se conhecimento e disabores que levamos para o resto da vida.

Neste 5 de outubro onde se celebra além do dia da Implantação da República Portuguesa o dia do Professor, para quem ainda não teve filhos, para quem nunca surgiu a oportunidade de ensinar um grupo de jovens, para quem quer e para quem não quiser fica a sugestão de reflexão sobre aquele(a) professor(a) que tinha o pavio mais curto. Empatizar com os problemas que mais certamente nem imaginamos que ele(a) tinha e valorizar quem excerce, para motivar quem nem sequer pensa em excercer devido ao panorama atual. Para que se criem mais condições para a minha geração envergar pela área sem medo de quando o fizerem (à semelhança da memória daquele professor zanzinga que em algum momento já tivemos) ficarem rapidamente com um pavio igualmente curto.

Comments

  1. JgMenos says:

    Pois ele não há dificuldades na vida e nas profissões?

    Tão óbvio que o que importa é saber o que fazer com base na experiência passada e no que de novo surja.
    E no ensino são bem menos as novidades nos alunos de que na cáfila de teóricos armados em inventores de orientações pedagógicas.

    • Tuga says:

      Cruz menor

      Como se tu soubesses alguma coisa do que vomitas. Limita-te ao teu POC ou o que raio o substituiu r não digas asneiras, Salazarista serôdio.

    • Paulo Marques says:

      Portanto, corta-se a torto e a direito, escolhem-se admiradores do mais vitoriano que há na educação para ministros, e depois não se muda nada? Estranho, estranhíssimo, de facto. É culpar a ciência, claro.

  2. JgMenos says:

    Mais um cretino que me faz Cruz e contabilista.

    Mas percebe-se que tudo que não inclua uma loa aos tadinhos (alunos, professores, …) é ofensivo para a cambada.

  3. Filipe Bastos says:

    Concordo que o professor é uma profissão essencial, e com o post em geral. Só não consigo concordar com a postura de sindicalistas ou de professores como o Nabais, que parecem julgar não ter de justificar pretensões ou responder a objecções.

    Os Nabais insistem que não são eles que têm a mais, (quase) todos os outros é que têm a menos. Então os outros que ‘lutem’, i.e. que se desenrasquem. E que lhes paguem as regalias.

    O egoísmo corporativo só leva a atrito e a mais egoísmo. Cada um quer mais e mais, os demais que se lixem.

    Isto não será justo para muitos professores, sobretudo em início de carreira, mas as corporações em Portugal – professores, médicos, pilotos, estivadores, maquinistas – gostam sempre de comparar-se com países mais ricos. Precisam dum ‘reality check’.

    • Paulo Marques says:

      Ufa, estão descobertos os privilegiados, e incluem trabalhadores ao dia, ao mês, e ao ano, deslocáveis a qualquer ponto do país a qualquer momento. Só um verdadeiro esquerdista é capaz desta análise, carago.

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