Entre o mesmo e o mesmo

Santana Castilho*

Levando de rojo leis e senso comum e assediando moralmente milhares de professores, o ministro e a secretária de Estado da Educação mostraram no Parlamento, na semana passada, não terem meio bosão de consciência. Tiago Brandão Rodrigues reafirmou, quanto à contagem do tempo de serviço efectivamente prestado pelos professores, que nove anos, quatro meses e dois dias são, na aritmética do Governo, iguais a dois anos, nove meses e 18 dias. Alexandra Leitão, com a ligeireza que lhe conhecemos, epitomou a trapalhada que criou sobre os concursos como um “não problema”. A isto já responderam os sindicatos com uma greve fofinha, visando, para perturbar pouco, apenas as reuniões de avaliação dos anos sem exames nacionais. Assim vamos, entre o mesmo e o mesmo.

Várias alterações curriculares vão ser acolhidas em decreto-lei, destacando-se do quadro a generalização da “flexibilidade curricular”, a retoma da nota de Educação Física para a média de acesso ao ensino superior e o novo regime jurídico da educação inclusiva. 

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Programas de Português nos Cursos Profissionais: o que é um ano lectivo?

Para se ser Ministro da Educação, em Portugal, é fundamental não se saber o que é exactamente um ano lectivo. Não faz sentido, mas é normal.

O final do desastroso mandato de Nuno Crato ficou marcado por uma boa notícia: a reposição da Literatura e da História da Literatura nos programas de Português do Ensino Secundário. Talvez estranhamente, alguns não rejubilaram, em nome de um estranho conceito do interesse dos alunos.

Esta alteração curricular deveria ter tido efeitos imediatos nos programas do Ensino Profissional, cujos alunos poderão vir a ser sujeitos ao mesmo exame de Português no 12º ano. Nada disso foi acautelado, o que, mais uma vez, não faz sentido, embora seja normal.

Os novos programas entraram em vigor no ano lectivo de 2015-2016, no Ensino Secundário. No que respeita aos cursos profissionais, os professores continuaram a leccionar o programa que continuava em vigor, devidamente desfasado do do ensino regular.

Este ano, depois de os professores terem começado a planear o ano lectivo, chegaram instruções, no dia 9 de Setembro (exactamente: 9 de Setembro), para que os alunos do primeiro ano dos cursos profissionais (10º ano, portanto) passassem a aprender, finalmente, os mesmos conteúdos do programa de Secundário. [Read more…]

A ver se eu percebo…

Primeiro estebelecem obrigatoriedade escolar até ao 12º ano e depois começam a cobrar propinas? Percebi tudo mal, certo?

Quando a realidade contraria os desejos de Nuno Crato

Aldrabar estatísticas já faz parte da natureza de um ministro, em particular se tiver a pasta da Educação. Nuno Crato tem demonstrado estar à altura dos seus antecessores, justificando a austeridade no seu ministério com a quebra do número de alunos, mentira que vai sendo repetida pelos engraxadores de serviço.

Azar dos azares, até a OCDE acaba de o desmentir:

Segundo o ministro da Educação português, a tendência para a redução do número de alunos está para ficar devido aos baixos níveis de natalidade. Já a OCDE, no seu relatório anual sobre o Estado da Educação – Education at a Glance -, hoje divulgado, coloca Portugal entre os sete países da organização que, em 2015 escaparão a esta tendência, no que respeita ao grupo dos jovens entre os 15 e os 19 anos.

É que se a demografia puxa para um lado, a escolaridade obrigatória até ao 12º ano empurra para outro, e com mais força.

Claro que essa obrigatoriedade pode ser revogada com um simples decreto-lei. A chatice é que o descaramento ainda não chegou a tanto. Para lá caminhamos.

Os clássicos da Literatura no ensino do Português

O Ministro da Educação ter-se-á mostrado favorável à re-inclusão de Camilo Castelo Branco nos programas de Português do Ensino Secundário. Espero que não o tenha feito apenas para ser simpático com o anfitrião, o presidente da Câmara de Famalicão, ou devido ao facto de ser um autor da sua preferência.

Se é certo que a Educação tem sofrido um desgaste brutal, com destaque para os últimos sete anos, a disciplina de Português, o fundamento do currículo, tem sido particularmente atingida por reformas e ajustamentos sucessivos, com oscilações brutais de terminologias linguísticas e com a exclusão do estudo de autores fundamentais da cultura portuguesa, com base em concepções vagas que defendem que a Escola deve ir ao encontro dos interesses dos alunos ou que os deve preparar para o mercado de trabalho, o que tornaria desnecessário o ensino da Literatura Portuguesa. [Read more…]

Há professores a mais?

Dizem que sim, tenderá a haver porque a demografia isto, porque se fazem menos portugueses, aquilo. E assado. Será muito difícil perceber, seguindo os dados mais actualizados, que temos

matriculados no 3º ciclo 379229
alunos, mas no Secundário apenas 197582
igualmente distribuídos por 3 anos, o que dá um diferença de menos 181647?

É que o Secundário passa agora a obrigatório, ainda não se percebeu bem como mas passa, e não sendo de prever que esses 181647 concluam todos o 12º ano digamos que 150000 novos alunos precisam de uma data de professores, que podem muito bem ser recrutados entre os do 2º e 3º ciclo que entretanto  levam com a tal demografia, ou seja, se há ameaça de desemprego entre os professores nos próximos tempos tal vai acontecer no 1º ciclo, não vou sugerir que passem para o pré-escolar mas pessoalmente preferia lidar com bébés a viver sob o regime do Presidente Zédu.

A menos que Passos Coelho tencione suspender o Ensino Secundário obrigatório e o esteja a afirmar indirectamente, mas isso seria tão grave que não me atrevo a imaginar tanto.

Já agora, também não conheço o Paulo Guinote pessoalmente, e também não leio blogues. Constato é que os socretinos manipulavam números mas ao menos conheciam-nos, dos insurgentes passistas não se pode dizer o mesmo.

A Culpa é Minha, Devo Estar a Ver Muito Mal a Coisa

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OS ALUNOS DO ENSINO BÁSICO E DO ENSINO SECUNDÁRIO REALIZAM DIA DE “LUTA NACIONAL”
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Devo começar por dizer que nada me move contra a juventude Portuguesa, e muito menos contra os estudantes em geral, e então se forem dos mais novos, tenho por eles um carinho muito especial, uma vez que dos meus filhos, um ainda está no ensino básico e outro acabou de sair do secundário. Tenho ainda dois sobrinhos no ensino secundário. Devo ainda acrescentar que entendo que todas as pessoas têm o direito a manifestarem as suas opiniões e o seu descontentamento.

Nesta primeira quinta-feira de Fevereiro, os putos de seis, sete, dez, doze, dezasseis anos etc., que frequentam as escolas básicas e secundárias de Portugal, estão em luta.

Cheios da sua (deles) razão, os miúdos e miúdas querem um estatuto de aluno “inclusivo”, seja lá o que isso quer dizer, e querem mais investimento nos estabelecimentos de ensino. Têm nesses pontos a minha total solidariedade. Se se não reivindica, o governo que nos tem desgovernado, e os que o antecederam em nada foram diferentes, nada fazem, assumindo que tudo está bem e de perfeita saúde.

Mas não se ficam por aqui, embora o devessem, pois que já seria bastante para poderem protestar e estar em luta. Os meninos e as meninas das escolas do ensino básico e do ensino secundário querem também o fim dos exames nacionais, e já agora também o desaparecimento da figura dos directores, exigindo ainda a “efectiva aplicação da educação sexual nas escolas”. Aqui, já não entendo a posição destes jovens. Fim da avaliação nacional porquê? Fim da figura da autoridade porquê? Efectiva aplicação da educação sexual nas escolas porquê? Sem avaliação e sem autoridade não se vai a lado algum, e quase não há professor algum capacitado verdadeiramente para ministrar educação sexual, pelo que a sua implementação é o que se vê e seria um total e completo desastre.

Não são pecos a pedir, nem tão pouco a reivindicar ou a exigir. Os putos pensam que sabem bem o que querem, tendo nascido já com todas estas capacidades de luta. A juventude é assim, eu sei, mas esta, só se mostra desta forma por falta de orientação, sempre necessária na formação de qualquer jovem. E os pais e encarregados de educação, de uma maneira geral, deixaram já há bastantes anos de orientar ou de o querer fazer (dá realmente muito trabalho e cerceia a liberdade de cada um), desligando-se da boa formação dos seus educandos.

E já agora, com um pouco de sarcasmo, não poderiam também, na delegação nacional de associações que promove esta luta, incluir os alunos dos infantários?

E se a gente lhes ralhasse? E umas puxadelas de orelhas, e umas sapatadas no rabo, não?

Ai se o ridículo matasse, ou aleijasse, ou se pelo menos se notasse à primeira vista!

Realmente eu devo estar a ver muito mal a coisa.