Direitos Humanos: por cumprir

“Não sou livre enquanto outra pessoa for prisioneira, mesmo que as suas correntes sejam diferentes das minhas” – António Alves Vieira (1987-2018)

Enquanto continuar a haver medo, a luta não terminará. Direitos LGBTQI+ são Direitos Humanos; e enquanto os primeiros não estiverem totalmente assegurados, os segundos nunca serão cumpridos.

Pratiquei desporto muitos anos; futebol, em concreto. Por ter a experiência, sei que estou em condições de dizer taxativamente: o mundo do futebol é um mundo machista e homofóbico. Não se enganem; gosto muito de futebol. Mas as coisas são como são. Por isso, enfrentemos a realidade de frente e mudemos o paradigma.

O medo das represálias por parte do patronato, de colegas e adeptos é avassalador. Saber que se pode ser afastado por se ser homossexual é aterrador, desumano e pressiona, muitas vezes, a que se tome uma decisão. E essa decisão, por norma, tem dois caminhos: a aceitação da vida que se quer levar ou a morte. Não raras vezes, pelo estigma, pelo preconceito, pelo isolamento, este caminho acaba na morte.

Joguei futebol durante dez anos. Tive a oportunidade de me federar e jogar a um nível superior mas recusei. Porquê?
É simples: escolhi a vida.

Mudar o paradigma, mudar mentalidades; esse deve ser o desígnio de todos. Não vale de muito entrar em campo com uma bandeira LGBTQI+ ou celebrar-se, por esses estádios fora, de maneira usurpadora e ultra-capitalista, o mês PRIDE, tentado instrumentalizar ao máximo uma luta que é urgente, quando não há UM, nem UM único jogador de futebol profissional em nenhuma das cinco maiores ligas que se sinta confortável no meio desportivo para assumir a sua sexualidade sem pruridos, poder falar dela e ser um exemplo de aceitação própria para outros miúdos que sejam homossexuais mas que queiram jogar futebol.

E mais uma vez reforço: como se combate a homofobia e se trata de medidas inclusivas? Com políticas públicas de saúde e educação, nos hospitais e nas escolas, alastrando para casa.

Não sabemos quem é este jogador, porque o desabafo ainda não foi completo. Aliás, prova do clima homofóbico que se vive no meio e na sociedade, é a de um profissional que diz “eu sou gay, mas não posso mostrar a cara, senão perco o emprego”. Estamos no século XXI. Lutemos.

António Alves Vieira, activista pelos direitos LGBTQI+, militante do Bloco de Esquerda, actor. Suicidou-se em 2018. Porto, 2020
Fotografia: MAYO

Comments

  1. Alexandre Barreira says:

    ….enquanto muitas mentalidades forem “moldadas”….dentro do “espírito” machista….não será fácil….fazer-se “luz”……como diria o outro…..”vá lá meninos….acenda a luz…e organizem-se”……!!!

    • João L Maio says:

      Há luta. Haverá luta. Nunca chegaremos ao objectivo de erradicar a homofobia, mas morreremos a tentar.

  2. Filipe Bastos says:

    Maio, antes de mais, jogar futebol não é um emprego. É um hobby. Podia haver jogadores semiprofissionais, quando muito, se a sua remuneração fosse limitada e não os absurdos de hoje. Poucas coisas são mais nocivas que a máfia do futebol profissional.

    Isto não é essencial ao seu post, mas fala da ‘carreira’ perdida e dos tadinhos dos jogadores gay como uma grande tristeza. Triste é ser pobre e ter de comer merda toda a vida. Os jogadores da bola são privilegiados, sobretudo os dos escalões superiores.

    Dito isto, é verdade que o ambiente das actividades masculinas não costuma ser gay-friendly: somos bestas inseguras com egos frágeis. Com a idade vamos melhorando, mas nem sempre.

    Costumo criticar os exageros woke, mas a discriminação está tão enraizada que requer mesmo muita insistência… água mole em pedra dura, etc. Convém é não branquear a mama da bola.

    • João L Maio says:

      Sabe bem que não discordo totalmente do Filipe, no que concerne aos chupistas da bola. Todo o meio é tóxico, e eu, que joguei num nível de formação ainda amador, tenho essa sensação… sei que tudo se acentua quando se chega às elites.

  3. Luís Lavoura says:

    como se combate a homofobia e se trata de medidas inclusivas? Com políticas públicas de saúde e educação

    De saúde? A homossexualidade não é uma questão de saúde.

    De educação? Eu, como pai, discordo de que se sobrecarregue as crianças com “ensinos” e endoutrinações que só ocupam ainda mais o seu já escasso tempo. As crianças não devem ser utilizadas como bodes expiatórios para todos os problemas in insuficiências da sociedade. Combata-se a homofobia e tudo o resto, sim, mas através dos adultos e não utilizando as crianças, que não se podem defender.

    Políticas públicas? Está-me a parecer que vejo aqui o esbanjamento de dinheiro dos contribuintes em perspetiva. Discordo.

    • João L Maio says:

      Incrível como o seu pensamento foi logo para aí.

      De saúde, porque o estigma existe e afecta a saúde mental e, por conseguinte, física de cada um. Aliás, basta ver a notícias daquele professor do ICBAS para se perceber essa questão da “saúde”… até médicos precisam de educação para a saúde para não dizerem certas barbaridades sem evidência científica.

      De educação, também. Porque só na educação se pode fomentar a aceitação, o respeito, os valores inclusivos e empáticos, na defesa de TODOS os Direitos Humanos. A escola tem um papel, a família também, são coadjuvantes e não separados entre si. Tem de haver envolvimento.

      Não sendo assim, é um encolher de ombros e a típica atitude do “deixa andar”. Acreditar na bondade das pessoas e das empresas por si só, parece-me, antes de mais, ingénuo; depois, delirante.

  4. Luís Lavoura says:

    só na educação se pode fomentar a aceitação, o respeito, os valores inclusivos e empáticos, na defesa de TODOS os Direitos Humanos

    Sem dúvida. Desde que tal educação não seja obrigatória nem tome lugar na escola – na qual as crianças e jovens já são obrigados a estar tempo de mais -, tudo bem.

    Agora, criar mais disciplinas, mais professores, mais exames, mais tempo na escola, mais textos para ler em casa, mais trabalhos de casa, etc etc etc, para ensinar as crianças e jovens a respeitarem os homossexuais, isso NÃO.

    • João L Maio says:

      O Luís Lavoura sonha com um apocalipse qualquer. Então, inventa cenários na sua cabecinha cheia de minhoca. Salvo seja.

  5. Inacio do Rosário says:

    E que tal respeito entre todos e menos alarido por parte dos não heterosexuais?
    A sexualidade de cada um que me rodeia não me interessa e não me importa em absoluto. Sendo a sexualidade de cada um, um assunto que só diz respeito a si próprio, não altero a minha postura em relção a quem quer que seja por esse motivo, alíás, motivo ao qual me mantenho alheio.

    Não é mais facil assim?

    • Luís Lavoura says:

      Concordo totalmente.

    • João L Maio says:

      Ah, percebi!

      Tradução do seu pensamento: “e que tal sofrerem em silêncio? Ainda há estigma!? Quero lá saber! Eles que sofram em silêncio e deixem os outros em paz. Nós, que temos o privilégio de nunca termos sido ostracizados pela nossa orientação sexual, queremos lá saber da vossa orientação! Não é mais fácil não lutarem e sofrerem em silêncio?! Calem-se, panisgas!”

      Foi isto, não foi? Ó Rosário… não sejas Inácio! Precisa de trabalhar essa empatia. Mas um conselho: dê as suas opiniões homofóbicas e egoístas em silêncio… é mais fácil assim.

      Ps. O Lavoura, o libero-facho da praça, concorda consigo. Só se estraga uma casa, juntem-se. Mas em silêncio!

      • Inacio do Rosário says:

        Estou a perder tempo, .. mas vá lá..

        Ao menos sabe ler e caso saiba, sabe interpretar? Sabe o que é respeito? Se houver respeito pelo que cada um é, e consequentemente não havendo qualquer tipo de discriminação ou ostracização… onde está o sofrimento?

        Será que pensam que é com paradas, que me abstenho de qualificar, e com ambições de colocarem a sociedade numa igualdade para além dos deveres, direitos e oportunidades que conseguem alguma coisa?

        O respeito não se impõe, conquista-se … com respeito.

        Comece a trabalhar o respeito pelos que são diferentes de si,
        concedendo-lhes e respeitando o direito em terem as suas opiniões e defenderem as causas que quiserem.

        E quanto ao silêncio, porquê o meu e não o vosso?

    • Paulo Marques says:

      No dia em que um número relevante das pessoas pense assim, força nisso. Neste momento, é só enfiar a cabeça na areia que não é nada consigo.

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