Putin e o mercado livre

O documentário que passou ontem na CNN, Putin: o Caminho da Guerra, não é apenas claro sobre a natureza totalitária e monstruosa de Vladimir Putin. É todo um tratado sobre a hipocrisia do Ocidente, que sempre soube quem ela era e quais eram os seus métodos, mas preferiu assobiar para o lado.

E porquê?

Para evitar a fuga dos rublos e, sobretudo, para garantir que a economia russa se mantinha perfeitamente integrada nessa ilusão predatória a que chamam “mercado livre”. Porque os interesses das grandes multinacionais europeias e americanas não poderiam ser afectados por temas menores, como os direitos humanos.

Foi duas décadas de opressão do povo russo.
De invasões de países vizinhos.
De dissidentes a cair de janelas e a dar entrada em hospitais europeus, a morrer por envenenamento.
Foi a viciação das eleições americanas.
A farsa do Brexit.
E o financiamento da extrema-direita ocidental.

E, por fim, foi a invasão da Ucrânia. Que já estava invadida desde 2014, quando Putin anexou a Crimeia e o Ocidente continuou a comprar-lhe gás e a vender marcas de luxo aos seus oligarcas, por entre celebrações de futebol e desportos de neve. Estava tudo bem, a malta da Crimeia até era muito pró-russa e tal. E a bandeira russa haveria de continuar a esvoaçar no coração da City, no edifício do VTB, mesmo em frente ao banco de Sua Majestade.

Agora somos nós, plebeus, e o martirizado povo ucraniano, quem paga o tacticismo político dos líderes ocidentais e os lucros das empresas que lhes pagam as campanhas, enquanto uns e outros continuam a fechar negócios com outros Putins, como os do Azerbaijão, da Arábia Saudita ou do Qatar.

É também por isso que é tão importante rejeitar a narrativa de que a tragédia ucraniana começou a 24 de Fevereiro de 2022. Porque essa narrativa serve apenas para ilibar os traidores que, nos lugares de poder, prostituíram a democracia e ajudaram a criar o monstro. O monstro é Vladimir Putin, não há dúvidas sobre isso. Mas nada disto teria sido possível sem duas décadas de colaboracionismo cúmplice.

Comments

  1. Carlos Almeida says:

    “E, por fim, foi a invasão da Ucrânia. Que já estava invadida desde 2014,”

    E melhor actualizares a tua informação sobre o que se passou realmente na Ucrania em 2014, após a tomada do poder pelos neonazis.
    Eu também não gosto do Putin, mas daí ate ao branqueamento do que se passou a partir de 2014, vai um grande passo.

    • JgMenos says:

      Nada que seja complexo resiste à rotulagem simplificadora do corretês.
      É a nova ciência politica no seu esplendor!
      Rotular é um descanso!

  2. Paulo Marques says:

    Claro que assobiou para o lado, é o mesmo que faz com os outros interesses estratégicos que pensa poder controlar, não só agora, mas eternamente. Ainda há poucos dias fugiu novamente a boca para a verdade de mais uma lutadora do bem da NATO sobre a importância de recuperar os recursos da América Latina, como já fugiu sobre a importância de controlar a eurolândia, como vai surgindo o retrato do paraíso à Pinochet reservado a quem mandam morrer por “nós”.
    Não tem nada de hipócrita, é a hegemonia e os seus capachos a actuarem como sempre actuaram, ou não estivesse o Peru com mais um golpe do bem.
    Paguemos, portanto, o kumbaya de que é tudo em nome de direitos humanos mais alargados que a liberdade do capital, e lembremo-nos que só há duas escolhas, o paraíso hegemónico ou a barbárie. Amén.

  3. Documentários da CNN em tempo de guerra, quando a verdade é a primeira vítima e a propaganda se sobrepõe a tudo, com uma comunicação social totalmente engajada no objectivo de “derrotar a Rússia de Putin”, não são para levar muito a sério.
    O Putin e a sua Rússia dos oligarcas não é, de facto, diferente de muitos outros regimes capitalistas do mundo “ocidental” ou dos seus aliados e amigos e, portanto, os nossos oligarcas negociaram com os deles como é normal, como continuam a negociar com Israel que comete genocídio contra os palestinianos, ou com a Arábia Saudita que esmaga o Iémen.
    A revolta no Donbass foi genuína, em defesa contra o governo fantoche eivado de nazi/fascistas
    alçado ao poder em Kiev, inclusivamente pelas unidades militares que aí encontravam naquela região, e que se passaram para o lado dos rebeldes, com as suas armas, ao que o regime de Kiev lançou ataques militares em larga escala dando início a uma guerra civil, à qual a Rússia, naturalmente, não podia ficar alheia, sendo na sua fronteira e tendo por vítima cidadãos russos ou pelo menos russófonos.
    Os nossos líderes, com certeza que nos traíram e aos russos, bem como os líderes ucranianos traíram os ucranianos, ao recusarem sempre cumprir os acordos que poderiam pôr fim ao conflito, e ao recusar qualquer acordo depois da invasão russa, levando a ucrânia ao abismo, ao Europa à ruína, e o mundo à beira da guerra nuclear, insistindo na derrota militar da maior potência nuclear do mundo.
    A Europa ocidental, e a Rússia são complementares, do ponto de vista económico, e não existe nenhuma razão para não desenvolvermos boas relações com aquele país, que vai continuar a existir, aqui ao nosso lado, a não ser o interesse americano em não ter concorrência no “mercado livre”, nomeadamente russa e europeia, e a subserviência da Europa.
    A Rússia é capaz, como qualquer país, de evoluir no respeito pelo estado de direito e pela liberdade, tal como a Europa e os EUA são capazes de o fazer. Há esperança, desde que sejamos capazes de exigir o diálogo em vez da guerra (as manifestações pelos direitos dos animais são óptimas mas não resolvem o problema de base que é o facto de sermos nós mesmos animais, predadores, com a especial característica de sermos dotados de linguagem sofisticada, saibamos usá-la).

  4. JgMenos says:

    Os tótós e os farsantes deste mundo são herdeiros dos lambe-cús soviéticos; sempre acabam a suportar a dominação imperial russa nas diversas formas em que esta se vai configurando.

    • Paulo Marques says:

      A dominação imperial russa está connosco aqui na sala? Os direitolos muito adoram a propaganda; desde que se fale bem da superioridade hierárquica do grupo a que acha que pertence, apesar de ser comido, está tudo bem.

  5. estevesayres says:

    Alguns de nós, chamam “guerra inter-imperialista”!
    Os EUA/ «u-é» /FR/ Reino Unido /OTAN, e não só, estes são os principais responsáveis…))

  6. Fernando Manuel Rodrigues says:

    O Mendes é impagável. O ódio cego que tem pelo Putin até faz com que acredite na propaganda da “capitalista” CNN, que está ao serviço do imperialismo norte-americano.

    Seria risível se não fosse simplesmente patético.

Trackbacks

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading