
Hoje, no Google.
Antero (Poesia & etc.)
23/02/2010 by
É um dia húmido de Novembro. São Miguel está, como quase sempre, sob uma espessa camada de nuvens. Azorian torpor é como os ingleses chamam a esta atmosfera opressiva, obsidiante, que não só atormenta o corpo como parece infiltrar-se e assediar a mente. Na baixa de Ponta Delgada, ao lado da Tabacaria Açoriana, fica a loja de quinquilharias de Benjamim Ferin. Antero entra na loja e cumprimenta o empregado. Está calmo, tranquilo.
Pergunta se tem revólveres à venda. O empregado olha-o surpreendido. Antero, sorri:
– Sabe, vou morar para um local longe de vizinhança. Com a malandragem que anda por aí, é bom estar prevenido.
– Sem dúvida, senhor doutor. É mais prudente estar prevenido.
E vai buscar as armas que tem para venda. Antero analisa-as uma a uma. Acaba por optar por um revólver Lefaucheux. O empregado ensina-o a carregá-lo.
– Nunca peguei numa arma de fogo…
O homem dá-lhe mais algumas explicações. Quando vai a retirar as balas do tambor, Antero diz-lhe:
– Não, não. Deixe-o assim, já pronto.
O homem obedece, mas avisa de que convém nunca esquecer que a arma está carregada, pronta a disparar. Às vezes há acidentes…
– Esteja descansado. Vou ter todo o cuidado. [Read more…]
Centenário da República: a génese do movimento republicano
09/01/2010 by
Adiante explicarei porque comecei com o hino da «Maria da Fonte», interpretado pelo Vitorino, esta crónica, a primeira de uma série que, ao longo do ano, irei dedicando ao Centenário da proclamação da República em Portugal que, como sabemos, se celebra em 5 de Outubro. Sem a preocupação de ordenação cronológica, irei dedicando textos a momentos significativos no caminho para a queda do regime monárquico que vigorava desde a fundação do País. Hoje, falarei dos alvores do movimento republicano. [Read more…]
A máquina do tempo: em demanda de Eça* (3)
30/12/2009 by

– Foi, por certo uma época muito interessante.
– Não tenha dúvida. Aquela época foi uma pequena Restauração, tanta era a vida, a seiva espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adorávamos o teatro. O teatro era a paixão, a luta, a dor, o coração arrancado, e gemendo, sangrando, rolando sobre uma cena resplandecente. O nosso teatro – era Shakespeare e Hugo, e os cómicos espanhóis, sombrios e magníficos, do século XVI.
– Que papéis desempenhava?
– A minha versatilidade não foi grande. Era pai nobre. Durante três anos, como pai nobre, ora grave, opulento, de suíças grisalhas, ora aldeão trémulo, apoiado ao meu cajado, eu representei entre as palmas ardentes dos académicos, toda a sorte de papéis de comédias, de dramas – tudo traduzido do francês. Por vezes tentávamos produzir alguma coisa de mais original, de menos visto que a Dama das Camélias, ou o Chapéu de Palha de Itália: reunimo-nos com papel e tinta; e entre aqueles moços, nascidos em pequenas vilórias de província, novos, frescos, em todo o brilho da imaginação, uma só ideia surgia: traduzir alguma coisa do francês.
Um dia, porém, Teófilo Braga, farto da França, escreveu uma drama conciso e violento, que se chamava Garção. Era a história e a desgraça do poeta Garção. Eu representei o Garção, com calções e cabeleira, e foi sublime; mas o Garção foi acolhido com indiferença e secura. E só um grito ressoou nos bastidores: «Ora aí têm… um fracasso! Pudera! Peças portuguesas!…» [Read more…]










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