Antero (Poesia & etc.)

É um dia húmido de Novembro. São Miguel está, como quase sempre, sob uma espessa camada de nuvens. Azorian torpor é como os ingleses chamam a esta atmosfera opressiva, obsidiante, que não só atormenta o corpo como parece infiltrar-se e assediar a mente. Na baixa de Ponta Delgada, ao lado da Tabacaria Açoriana, fica a loja de quinquilharias de Benjamim Ferin. Antero entra na loja e cumprimenta o empregado. Está calmo, tranquilo.

Pergunta se tem revólveres à venda. O empregado olha-o surpreendido. Antero, sorri:
– Sabe, vou morar para um local longe de vizinhança. Com a malandragem que anda por aí, é bom estar prevenido.

– Sem dúvida, senhor doutor. É mais prudente estar prevenido.

E vai buscar as armas que tem para venda. Antero analisa-as uma a uma. Acaba por optar por um revólver Lefaucheux. O empregado ensina-o a carregá-lo.

– Nunca peguei numa arma de fogo…
O homem dá-lhe mais algumas explicações. Quando vai a retirar as balas do tambor, Antero diz-lhe:
– Não, não. Deixe-o assim, já pronto.
O homem obedece, mas avisa de que convém nunca esquecer que a arma está carregada, pronta a disparar. Às vezes há acidentes…
– Esteja descansado. Vou ter todo o cuidado.

Enquanto embrulha o revólver com sucessivas camadas de papel, o empregado pergunta:
– Ouvi contar que o senhor doutor ia para Lisboa?
– Pensei nisso, mas desisti, pois ultimamente tenho passado melhor.
– Ainda bem, senhor doutor. Ainda bem.
Antero tira da algibeira algumas libras que põe sobre o balcão:
-Faça o favor de se pagar. Eu nunca me habituei a fazer dedução de moeda fraca.

Antero sai. Os homens que estão à porta, saúdam-no respeitosamente.
Vai a casa de seu primo, Augusto de Arruda Quental. Quando entra coloca o embrulho sobre uma mesa e, por cima, põe o chapéu. Conversa tranquilamente com o primo. Falam de banalidades. O tempo, a política, coisas da família. Quando Antero se ergue para sair, o primo dá-lhe o chapéu e faz depois menção de lhe entregar também o embrulho. Antero quase grita:
-Não lhe pegues!
Despedem-se.

Metendo pela Rua de S. Brás, encaminha-se a passos lentos para o Campo de São Francisco, uma ampla praça pública de Ponta Delgada. Aí, senta-se num banco, junto do muro do convento da Esperança.. Nesse muro, por cima do banco, um dístico em pedra lavrada mostra a palavra esperança sobreposta a uma âncora. Antero sorri. Esperança e uma âncora que o segurem à vida, eis precisamente o que lhe falta.

Olha o largo, com as suas árvores, com as suas simétricas placas redondas de relva, circundando o pequeno coreto implantado no centro. Há pouca gente. Uma senhora passa perto levando pelas mãos duas crianças. À memória ocorre-lhe a imagem de um menino passeando ali, pela mão de seu pai, muitos anos atrás. De tudo, o pior mal é ter nascido, pensa.

Ao som de dois tiros, acorrem militares do quartel de Caçadores 11. Caído de lado sobre o banco, com o rosto ensanguentado Antero agoniza. O Dr. Jacinto Júlio de Sousa, cirurgião – mor do regimento e o Dr. Mont’Alverne de Sequeira, reputado médico da cidade, chegam logo após. No hospital, situado ali mesmo na praça, tentam tudo para o salvar, mas após uma hora de horrorosa agonia que finaliza pelo derramamento cerebral, Antero morre.

Descansa-se!… se no tédio doloroso de nós mesmos encontramos a força para nos sumirmos, diz Antero a Oliveira Martins e a Vasconcelos Abreu, poucos dias antes de partir de Lisboa para Ponta Delgada. No seu doloroso tédio, Antero de Quental encontra a força e o alento para fugir, para se sumir, para descansar enfim.

(Excerto de biografia ficcionada de Antero de Quental publicada no site “Vidas Lusófonas”).

Comments

  1. Luis Moreira says:

    A vida para ele era insuportável. A morte é muita das vezes uma libertação.

  2. Carlos Loures says:

    Sofria de transtorno bipolar. Dois tiros na boca foram a solução que escolheu. A libertação, como dizes.

  3. Carla Romualdo says:

    Que motivo o terá levado a escolher uma praça pública para fazê-lo?

  4. Luis Moreira says:

    Hoje, o transtorno bipolar, com graduações, é muito frequente por ter sido diagnosticado e há medicamentos que controlam a euforia e a os momentos de melancolia. Estabilizam as emoções.

  5. Carlos Loures says:

    Não faço ideia, Carla. A primeira explicação que me deram, foi a de que tendo em casa duas jovens, filhas de um amigo que morrera deixando as filhas sem recursos (Antero apressara-se a acolhê-las), não as queria impressionar. Fazia sentido, mas, investigando um pouco, logo tomei conhecimento de que na véspera as fora deixar em casa de uma família de amigos, deixando o futuro das meninas assegurado. Tinha uma desinteligência com a sua irmã, Ana de Quental, por causa das pupilas. No auge da discussão, Antero gritou: «Isto ainda acaba com uma corda na garganta ou uma bala na cabeça!» As despedidas deixaram-no muito emocionado. Isto prova que o suicídio não foi pensado no dia 11, mas estava já preparado desde os dias anteriores. A verdade é que ele estava muito pior, piorara em Ponta Delgada. Hoje, como diz o Luís, talvez se salvasse, pois há medicação que estabiliza e permite o controlo emocional. Talvez se tenha suicidado ali, naquele jardim (estive lá há pouco tempo) por ele lhe trazer recordações da infância ou da juventude. Não é possível saber-se.

  6. Carla Romualdo says:

    Já me fiz muitas vezes essa questão, não apenas em relação a Antero, mas em especial no que respeita a ao suicídio de uma pessoa que me era próxima, e que também ocorreu na rua. Talvez haja uma vaga esperança de que alguém os possa ainda impedir, talvez seja uma última mensagem ao mundo, ou a alguém em particular, talvez o local seja aquilo que menos ponderam… nunca saberemos.

    • Luís Moreira says:

      Carla, pelos casos que conheço e por conversas com psiqiatras, a maior parte das vezes trata-se da “última fase de incutir em quem o rodeia” o quanto foi mal tratado, tanta injustiça, uma espécie de encenação última da dor que ele próprio não sabe a origem mas que personaliza em amigos muito próximos, numa paixão, na família…
      Outros desistem pura e simplesmente de viver, sós, sem publicidade, sem nenhum sinal, como os velhos no Alentejo, quase que pedindo desculpa pelos trabalhos que vão dar…

  7. Carlos Loures says:

    Traçando a cronologia dos movimentos de Antero nos seus últimos dias, tudo indica que ele estava decidido a suicidar-se. Se existia essa esperança, de alguém o impedir de morrer, seria talvez de forma subconsciente. Ele preparou-se para uma viagem sem regresso.

  8. Carlos Loures says:

    É uma boa explicação, Luís. Pelo menos no que se refere aos bipolares. Quanto aos alentejanos, de uma forma geral, o motivo é outro, nada tem a ver com bipolaridade. Saber que na velhice vão ser um fardo para os filhos, é a principal causa de suicídio. Desde que se generalizou o pagamento de reformas (miseráveis) a taxa de suicídos baixou no Alentejo.

    • Luís Moreira says:

      Sim, sem dúvida, mas eu estava a tentar dar uma pista à Carla, porquê público? Os Alentejanos desistiam de viver, não são bipolares. O avô de um colaborador meu, suicidou-se, entrando para um poço pouco profundo, encostou-se à parede do poço e assim o foram encontrar. Nem sequer se mexeu, ou tentou gritar, ou dar nas vistas. O contrário de Antero!

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