Portugal 1975-2015: 40 anos de silêncio

acusar

Ficaram com os ódios e as raivas ali a arderem-lhes. Os ódios muito bem guardados para grandes vinganças vindouras que o destino pudesse favorecer. Escondidos nos sótãos fechados à chave dos seus espíritos, entrar neles dava cabo até mesmo de quem mal sabia por que razões, e embora ainda ardentes, haviam ali sido escondidos. As raivas debaixo do tapete, de onde contudo por vezes saíam, como cabeças de hidra que nenhum hércules pisava para não debelar numa só cabeça que fosse o que fôra guardado com tanta estima há mais de 40 anos. Ovos disso haviam eclodido aos milhares.

Nasceram novas pessoas e foram-lhes ensinados esses ódios e raivas. Quando atingiam uma certa idade, alguém mais velho levava-as lá acima ao sótão e, apontando para o que estava tapado com grandes panos que ninguém levantara desde que lá haviam sido postos, diziam

Estão ali.

Mostrado o esconderijo, apressavam-se a descer, procurando fugir das recordações que logo começavam a invadir-lhes os pensamentos. Dos tapetes escondendo os mais pequenos sentimentos torcidos, limitavam-se a informar

Não se varre ali debaixo nem se aspira.

As novas pessoas assentiam e não se falava nunca mais no assunto. [Read more…]

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Uma “descolonização exemplar” teria sido possível?

Daniel Oliveira explica

porque é que o merceeiro se deveria dedicar à mercearia e ficar por lá.