Outros confinamentos

[Manuela Cerca]*

Tinha 15 anos.

Nos primeiros dias do mês de Agosto de 1975, o meu mundo desabava. Para trás ficavam dias sombrios. Para a frente só havia incerteza.

Ao entrar no Boeing 747 da TAP, com os meus irmãos, desfaziam-se todos os sonhos da infância e adolescência. Sozinhos, os meus pais, crédulos e ainda no exercício da sua actividade, ficariam por lá, até Outubro, enfrentávamos o desconhecido. Havia, é verdade, a certeza de que no destino estariam, pelo menos para nós, braços e colos que nos acolheriam e nos ofereceriam a tranquilidade de uma vida familiar. Mas muitos dos que connosco faziam a viagem não sabiam que destino os esperava. Não conheciam ninguém, muito menos a terra que os recebia.

Na dúzia de meses que antecedeu esta partida vivemos em guerra. Uma guerra civil que transformara, num ápice, a nossa zona de conforto em campo de batalha fratricida. As ruas onde brincávamos passaram a estar-nos vedadas, as escolas onde nos sentíamos em segurança muniram-se de “planos de contingência”, como agora se diz, e a qualquer momento as evacuações podiam acontecer. As viagens, naquela imensa Angola, tornaram-se perigosas e incertas. Desaconselhadas. Os postos de controle das várias organizações políticas( MPLA, UNITA, FNLA) consoante as zonas da sua influência, eram territórios aleatórios, de onde não sair, ou sair com vida, dependia em muito da sorte que nos cabia. O som das balas, rajadas ou morteiros, invadiam-nos os dias e principalmente as noites. O “inimigo” estava ao nosso lado, mas nem sempre o víamos. Os bens essenciais escasseavam, os assaltos pela calada da noite multiplicavam-se.

De início, espaçadamente, íamos ouvindo falar em mortes. Nomes que nada nos diziam. Depois, surgem também alguns nomes que nos eram familiares. Com maior assiduidade ouvimos, em surdina, os pais falarem em pessoas desaparecidas. E, cada vez com mais regularidade, percebemos pelas conversas que alguma coisa ia mudar. A escola ia funcionando aos solavancos. Os professores, os que resistiam, procuravam adaptar-se e adaptarem-nos aos novos tempos. Eram eles que nos iam garantindo alguns “oásis “de paz e esperança. Estou certa, hoje, de que foram verdadeiros heróis, a lidar com os nossos medos, as nossas angústias a nossa ansiedade, enquanto desbravavam novos conteúdos que lhes tinham sido impostos, fruto de uma sociedade em mudança, mas também em guerra. E como geririam eles os seus próprios medos? Heróis!

Nas idas e vindas da escola, cada vez mais irregulares, dependentes que estavam de uma noite de “tiros e emboscadas”, íamo-nos apercebendo da desertificação da cidade. Do fecho dos espaços comerciais, das filas nos postos de abastecimento de combustíveis, do rasto das balas nas paredes dos prédios.

Dos amigos e colegas começámos a saber cada vez menos. Só o telefone fixo, quando funcionava, nos aproximava. Mas as comunicações eram um bem ainda “caro” e não tínhamos sido formatados para as utilizarmos com regularidade. E muito menos para grandes conversas. De um dia para o outro, o nosso chão ruía e não havia onde nos agarrarmos. Vieram depois os longos dias, de clausura em casa, seleccionando o que, do nosso pequeno mundo (livros, discos, roupas, pequenas lembranças), quereríamos levar na hora da partida, uma pequena brincadeira, porque a partida era só uma hipótese e a acontecer haveria um regresso seguramente. Enquanto isso, em cada casa, desenvolviam-se competências de marcenaria, construindo monstruosos “caixões”, em que repousariam os espólios de uma vida. Esgotou a madeira na cidade. E os pregos.

Como sairiam esses contentores repletos de despojos das nossas vidas, com destino ao porto mais próximo? Já lá não estava para vos contar. Só ouvi histórias. E só os vi, muitos meses mais tarde, em muito mau estado, amontoados no porto de Lisboa. Não esqueço a imagem.

O resto, todos sabem, como foi. Difícil, com mais ou menos sofrimento, mas vencemos. Chegámos lá. Onde queríamos.

Tudo isto para vos dizer que em seis dezenas de anos, vivi estas duas guerras. Diferentes, porque são diferentes os tempos, as causas e o “inimigo”. Diferentes porque o eu que sou é já outro, também fruto daquele embate sofrido na adolescência. Nunca foi imperioso para mim dar conta do que senti, pensei, vivi. Guardei-o, muito, até hoje.

Vivi confinada, sim. Senti medo, sim. De perder os meus pais. De morrer eu e os meus irmãos.

Senti o peso da solidão, impedida que fui de manter o contacto com os meus amigos, um pilar fundamental da nossa estabilidade e crescimento. Perdi-os, a alguns, para sempre.

Senti-me insegura? Obviamente. Não sabia mesmo se todo o esforço de um percurso escolar sem mácula, mas demasiado atribulado nesses tempos de guerra, não estaria hipotecado.

Não sabia mesmo onde iria e se iria prosseguir estudos. Não sabia mesmo se o tempo voltaria atrás e tudo “ ficaria bem” ou se, pelo contrário, o tempo correria veloz, tomando uma nova direcção.

Não sabia mesmo.

E não sabemos mesmo. Mas ao não sabermos para onde vamos, por onde vamos, quando e como vamos, sei que há que relativizar as preocupações que justificadamente nos assaltam os dias.

As nossas crianças e jovens vivem, como nós, tempos de incerteza. Só precisam de segurança e afecto. São credores desse nosso contributo para o seu crescimento. Sentirão, seguramente, o “chão a fugir-lhes dos pés”, as rotinas quebradas, as relações sociais deslaçadas. Mas não esqueçamos também que, apesar de tudo, têm hoje ferramentas que “aligeiram” esses traumas. Não os resolvem, sabemos disso, mas garantem-lhes o básico em tempos diferentes. No fim disto tudo, não serão os mesmos, mas estou convicta de que serão melhores, mais resilientes, mais fortes e mais corajosos. E terão depois o tempo, o tempo todo, para chegar tão longe quanto a sua ambição. Não queiramos correr quando nos pedem para estar quietos. Não queiramos ultrapassar as metas quando nem nós sabemos onde está a meta. Devemos-lhes essa lucidez. Devemos-lhe esse apoio. Devemos-lhes essa tranquilidade. É só disso que eles precisam.

É essa lucidez, essa tranquilidade (possível), essa sensação de segurança que recordo.

A minha gratidão. À família. E aos heróis que foram os meus professores. Tinha 15 anos.

 

*Chef do Restaurante Casas do Bragal

Comments

  1. Tal & Qual says:

    É de fazer chorar as pedras da calçada !!

  2. Filipe Bastos says:

    Caramba, algum respeito pela autora. Até discordo do tom final do artigo, acho a histeria covideira uma oportunidade desperdiçada, mas o seu relato tem valor – e coloca muito disto em perspectiva.

    Essas discussões de tasca, conversas das barracas, não valem nada, não acrescentam nada, só degradam o espaço.

  3. estevesayres says:

    Com esta conversa toda, será um militante ou simpatizante do partido neofascista Chega?! Todos temos uma história para contar. Mas as oportunidades são para alguns, espero um dia contar a minha -, foi denunciado por um informador da PIDE, por me ter visto a distribuir panfletos da “RESISTÊNCIA POPULAR ANTI-COLONIAL (RPAC)”: https://ephemerajpp.com/2020/01/01/resistencia-popular-anti-colonial-rpac/
    http://ahsocial.ics.ulisboa.pt/atom/resistencia-popular-anti-colonial-rpac

  4. JgMenos says:

    Um texto claro, de uma legítima e moderada equivalência de situações.

    Mas cai no charco da comunada que em 75 delirava com a ‘libertação do povo’, que só se traduziu em dar poder à cambada mais corrupta e prepotente.

    Aí acima o ayres aproveita para falar no seu confinamento por promover o confinamento da autora – comovente!
    Outros, mais preocupados com as pedras da calçada, desrespeitam legítimos sentimentos humanos.- a correcção ideológica sempre os domina.

  5. Tal & Qual says:

    Se fosses preto em 1960 e no norte de Angola, devias esta inscrito no Chega… óh imbecil !

    • JgMenos says:

      És uma besta ignorante.
      Se fosses branco em Portugal em 1960, Ffalavas menos e trabalhavas mais pela certa.

      • POIS! says:

        Pois mas…

        Em Portugal, em 1960, não havia nada branco. O futuro, pelo menos, era negro.

        Uns milhares até aproveitaram para começar a organizar uns safaris em África. E quando chegavam, não paravam muito tempo: Paris era mesmo aqui ao lado. E com a riqueza abundante do que é que estavam á espera?

        Só não iam mais porque a hotelaria em França, na altura, era horrível. Abundavam os hotéis improvisados em zinco e cartão. Não havia grande privacidade mas, mesmo assim, a malta gostava. Havia as francesas e tal.

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