Desmond Tutu (1931-2021)

Desmond Tutu foi aquilo que, é minha convicção, deveriam ser todos os homens e mulheres de Deus, independentemente da religião que professam. Num mundo onde tantos clérigos respaldam regimes ditatoriais, o então bispo anglicano arriscou a vida para combater o racismo institucional do Apartheid, tendo posteriormente sido peça-chave na pacificação e mediação entre as diferentes facções, no início da era democrática na África do Sul. Com Mandela, mudou o curso da história naquele país. Para sempre.

Incansável na defesa dos direitos humanos, Desmond Tutu bateu-se pelos direitos da comunidade LGBT e pela resolução do conflito israelo-palestiniano, foi crítico da invasão do Iraque e dos abusos cometidos em Guantanamo, juntou a sua voz ao combate contra as alterações climáticas, e, entre muitas outras e importantes lutas que poderiam ser referidas, teve a coragem de afrontar o regime chinês, ao contrário de certos democratas de fachada, quando apelou aos líderes mundiais para boicotar a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, após a repressão violenta das manifestações pacíficas no Tibete, em 2008. Sempre do lado certo da luta.

Nem todos os prémios Nobel da Paz são bem atribuídos. Alguns chegam mesmo a ser uma verdadeira farsa. Mas poucos foram tão merecidos como aquele que o Comité lhe entregou em 1984, ano em que nasci. O planeta e a humanidade têm para com este homem uma dívida impossível de ser paga. Descansará, seguramente, em paz. Obrigado, arcebispo.

Orbán agradece a “neutralidade” do Estado português

A presidência portuguesa do Conselho da União Europeia termina dentro de poucos dias. Uma semana, para ser mais preciso. Ainda assim, essa curta semana serviu de argumento para que o governo português se recusasse a assinar uma carta subscrita por 12 estados-membros (Espanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Estónia, Letónia e Lituânia), que apela as instituições europeias para “utilizar todos os instrumentos à sua disposição para garantir o pleno respeito pelo direito europeu” face à legislação homofóbica aprovada recentemente pelo parlamento húngaro, que vem reforçar o segregacionismo da comunidade LGBT. O governo português, que alegou “dever de neutralidade”, por ainda ocupar a presidência do Conselho da UE, coloca-se, deste modo, do lado do opressor. Porque não existe verdadeira neutralidade quando perante um tabuleiro tão desequilibrado. Existe a coragem ou a rendição. E o governo português, sempre tão alegadamente progressista, escolheu vergar-se ao homofóbico neofascista Orban. Escolheu ceder quando não podem haver contemplações, como o primeiro-ministro holandês deixou hoje claro. E sim, isto deve preocupar-nos. Começam a ser sinais a mais de défice democrático.

Soberania por moeda

desmond tutu

Desmond Tutu, o famoso clérigo sul-africano, costumava citar em jeito de anedota uma frase que lhe houvera sido equivocadamente atribuída:

“Quando os missionários chegaram a África, eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra. Então disseram-nos: “rezemos”. Fechámos os olhos, e quando os voltámos a abrir eles tinham a terra e nós a Bíblia”.

De algum modo este chiste contém alguma verdade, e presta-se mesmo a ser usado no contexto português de hoje. Se considerarmos que o Euro hoje em dia não é mais do que uma diferente designação facial do Marco alemão, e que há quinze anos a Alemanha era considerada o “homem doente” da Europa e Portugal o “bom aluno” da União, poderíamos parafrasear o bispo, dizendo:

Quando os alemães nos propuseram o Euro, nós tínhamos a soberania e eles a moeda; agora, eles têm a soberania e nós nem sequer temos a moeda.

Tutu: o cuidado pelo outro

O Nobel da Paz 1984, Desmond Tutu, esteve em Portugal para uma conferência na Gulbenkian. Disse, entre outras coisas:

«Os seres humanos só têm uma casa, que estão a destruir, e ainda não perceberam que são ‘da mesma família’» ; realçou que uma das «lições de deus» é a de que «não podemos ser humanos em isolamento, precisamos dos outros para nos complementar». Acredita que os seres humanos são originalmente bons e que é «um incrível privilégio fazer deste o nosso mundo»; Desmond Tutu falou do «cuidado pelo outro», que «é da mesma família».

Comparou os «escandalosos orçamentos» gastos em defesa e armamento à pequena parte canalizada para «dar água limpa e comida suficiente às crianças do mundo».

Acredita que é possível ter um mundo diferente.