A dignidade no trabalho

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Esta história da Padaria começou com um directo com cerca de cinco minutos num canal de televisão e uma entrevista num grande jornal. O gestor padeiro, bom conhecedor, pelos vistos, dos meandros jornalísticos, terá achado que a publicidade, pela qual ninguém sabe quanto pagou, ou como pagou, lhe traria fama e proveito.

Foi uma daquelas acções de marketing muito ao gosto dos jovens empreendedores cosmopolitas, que têm do mundo empresarial visões extremamente sofisticadas e inteligentes, que passam quase todas pelo primado da degradação humana e da “coisificação” do homem e da mulher que trabalham.

A verdade, porém, é que as declarações iniciais do padeiro, cheias de desprezo altivo por quem lhe faz a massa, são o retrato verdadeiro de um país feudal, que retrocedeu décadas nos direitos e na dignidade de quem trabalha e está hoje entregue a “empreendedores” a quem faz falta, como pão para a boca, a quarta classe antiga.

 

Imagem retirada da internet

O BANIF é do povo

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Acabámos de doar 1,1 milhões a mais um banco pré-falido. Sim, nós todos. Coisa pouca, mais pagaremos pela reestruturação da banca, assegurando que os empreendedores manterão os seus capitais intactos num offshore qualquer, longe daqui.

Para começar as acções estão em alta. A este tipo de refundação económica chama-se desde o séc. XIX acumulação de capital. Pode ocorrer de diversas formas, em Portugal mete sempre uma ajudinha de um governo solícito e obrigado.

Na cabeça tonta de um Gaspar e de quem o ama, estas acumulações, e salvações fazem todo o sentido porque o capital obtido ou salvaguardado será posteriormente investido na economia. Deixando de lado as passagem de ano do impagável Dias Loureiro em Copacabana, acredito que sim. Serão reinvestidas algures, numa economia qualquer, paguemos então a viagem às ratazanas que abandonam o navio. Ocorrido o naufrágio, não deixarão de nos enviar um postal de boas-festas no final do ano.

Imagem: cartaz sobre a nacionalização da banca (1975), ephemera

Carta aberta a Pedro Passos Coelho

José-Manuel Diogo

Caro Pedro Pedro Passos Coelho, ouvi com atenção o senhor dizer que estar desempregado afinal é bom. Que é uma oportunidade. Sabe que mais? Teoricamente penso que tem toda razão mas, na prática, não sabemos de quem fala.

Li outro dia que os chineses não têm um caractere para crise. Na sua escrita, onde os sinais representam ideias em vez de letras, uma situação de crise é representada por dois símbolos: um representa oportunidade e outro ameaça.

Foi com certeza com base nisto que o senhor se exprimiu publicamente esta semana e, deixe-me que lhe diga, teoricamente, faz todo o sentido. Uma economia com baixa produtividade precisa de empreendedores não de funcionários.

Vi também um estudo recente onde se refere que os recém licenciados portugueses preferem ter um emprego a empreender um negócio. Se a estes somarmos todos os outros desempregados da nossa sociedade o problema fica ainda mais sério pois não há empregos na nossa economia.

Temos pois que empreender. Ter ideias que se transformem em dinheiro e consequentemente em empregos.  Mas meu caro Pedro Passos Coelho, é precisamente aqui que a porca torce o rabo. [Read more…]

Um homem com ideias e uma menina para atender o telefone

Consiste uma das minhas inúmeras manias  no facto de o duche matinal ter de ser acompanhado pelas notícias da rádio. Se não consigo encontrar o rádio (levo-o para todos os lados da casa), ou se as pilhas estão descarregadas, não posso tomar banho até resolver o problema. Para mim, tomar banho depende tanto da existência de água e sabonete como de um transístor ao pé do chuveiro.

Isto traz os seus amargos de boca, claro está, porque tendo a começar o dia com uma voz a anunciar-me que o PSI20 está em queda e que a bolsa de Lisboa abriu no vermelho, conceitos demasiado abstractos para mim, confesso. Ou que há complicações de trânsito na Avenida AEP, por onde raramente passo, ou no IC24, por onde não passo nunca. [Read more…]