Um homem com ideias e uma menina para atender o telefone

Consiste uma das minhas inúmeras manias  no facto de o duche matinal ter de ser acompanhado pelas notícias da rádio. Se não consigo encontrar o rádio (levo-o para todos os lados da casa), ou se as pilhas estão descarregadas, não posso tomar banho até resolver o problema. Para mim, tomar banho depende tanto da existência de água e sabonete como de um transístor ao pé do chuveiro.

Isto traz os seus amargos de boca, claro está, porque tendo a começar o dia com uma voz a anunciar-me que o PSI20 está em queda e que a bolsa de Lisboa abriu no vermelho, conceitos demasiado abstractos para mim, confesso. Ou que há complicações de trânsito na Avenida AEP, por onde raramente passo, ou no IC24, por onde não passo nunca.

Mas entre a publicidade interminável e as notícias que já não o são porque se repetem diariamente, lá vou apanhando alguma coisa que me interesse e que me permita chegar ao trabalho com a sensação, vaga e superficial, de que sou uma mulher do mundo e estou informada sobre o que se passa, seja no fim da rua ou lá nos confins do planeta.

Do fim da minha rua, propriamente dita, nunca ouvi nada na rádio, mas é certo que no fim da minha rua o que existe é o restaurante A Regaleira, que já teve umas excelentes francesinhas, mas agora já não tem, o que, convenhamos, não tem grande interesse mediático.  Adiante.

Ouvir a mesma estação todos os dias significa ouvir os mesmos anúncios mais vezes do que seria prudente para um ser humano. Não sei se há estudos sobre os malefícios da repetida exposição à publicidade medíocre emitida pelas estações de rádio, mas creio que já fazem falta, e até se podia começar por essas notáveis cobaias a que também se chama “taxistas”.

Isto tudo para contar-vos que há um anúncio que eu ando a ouvir há umas semanas e que todos os dias me faz soltar um palavraozito. Escrevo “palavraozito”, que talvez seja um neologismo, porque, de facto, não vai além disso, essa minha imprecação. É simplesmente um desabafo de quem se indigna um pouco, mas não mais do que um pouco, porque o hábito vai retirando cor à indignação, e eu já me acostumei, não só à misoginia deste anúncio, como a outras, porventura até mais graves.

Trata-se de um anúncio da Caixa Geral de Depósitos acerca de uma linha de crédito para empreendedores que queiram lançar-se no exigente mundo da iniciativa privada, mais borrascoso que aquele que os nossos antepassados enfrentavam quando partiam nas caravelas. E o texto do anúncio é mais ou menos assim:

Para criar uma empresa, é preciso:

Um homem com uma ideia, de preferência genial;

E ouve-se um tipo a gritar “Eureka!”

uma menina despachada para atender o telefone

E aparece uma voz feminina que, num tom monocórdico, anuncia:

O patrão não pode atender, está em reunião.

E depois há mais umas quantas coisas, como um camião rápido, e mais não sei o quê, porque no momento em que se anunciam as outras necessidades de uma empresa estou eu a soltar o palavraozito de que vos falei há pouco.

A CGD, essa instituição sólida e digna de respeito, na qual nunca falta uma palavra paciente para os velhinhos que vêm receber a reforma no dia ao qual toca a primeira letra do seu  nome, onde há sempre um mealheiro de plástico para os miúdos que se iniciam nas poupanças, que até tem uns depósitos a prazo só para mulheres, que se chamam “Woman”, talvez porque chamá-los de “Mulher” fosse uma coisa um pouco desprestigiante, esta mesma nobre instituição nacional acha que uma empresa precisa de um homem com ideias e de uma mulher para atender o telefone.

Corrijo: “um homem com uma ideia e uma menina para atender o telefone”, que ninguém quer chamar a secretária ao gabinete e levar com a fronha de uma velha rezingona. O homem empreendedor já faz muitos sacrifícios na sua luta diária no mundo hostil dos negócios para ainda ter que levar com uma cinquentona avinagrada, por muito competente que ela possa ser.

De facto, olhando para os órgãos de gestão da CGD, constata-se que  a esmagadora maioria dos cargos está nas mãos de homens. Não precisarão de ideias geniais para levar o seu barco a bom porto, que o negócio bancário não precisa dessas coisas, é só abrir a porta e deixar os milhões rolar, mas certamente não deixarão de reconhecer o contributo inestimável das meninas que atendem os telefones, e que vão anunciando, monocórdica mas respeitosamente, “o patrão não pode atender, está em reunião”.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Nada de exageros, está lá a Cardona!


  2. Aquilo é treta, eles nem têm dinheiro para emprestar.

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