Vozes de sábio não chegam ao Inferno

No sábado passado, fui ao Colégio Paulo VI, em Gondomar, assistir a uma palestra de Maria do Carmo Vieira. De todas as vezes que a ouço, reencontro o desassombro e a frontalidade necessárias na crítica a muito do que está errado na Educação, em geral, e no ensino do Português, em particular. Reencontro, ainda, nas palavras da minha colega a energia renovada para tentar ser melhor, para não me deixar acomodar.

Eis algumas das ideias que reencontrei, enquanto ouvia Maria do Carmo Vieira:

– as opiniões e os pareceres dos professores são fundamentais para a maior parte das decisões sobre Educação. Os sucessivos ministros, no entanto, limitam-se a olhar para os professores como funcionários que se devem limitar a obedecer;

– os professores não podem permitir a proletarização de que são alvo e devem exercer um exame crítico sobre todos os aspectos da sua actividade profissional;

– o empobrecimento da formação inicial e contínua dos professores é absolutamente criminoso e terá efeitos nefastos no futuro (a propósito disso, fomos brindados com uma extraordinária declamação de “Aniversário”, ao som de Prokofiev);

– a base da actividade docente reside no conhecimento científico e não nas questões pedagógicas, sendo que estas devem estar ao serviço das primeiras e não podem ocupar o papel principal na função docente; [Read more…]

Contra o Acordo Ortográfico: implicações pedagógicas

A dada altura, os autores do Acordo revelaram uma preocupação com os problemas de aprendizagem dos alunos, explicando que a supressão das consoantes mudas vai tornar tudo mais fácil. A fonética é fonte de muitos erros e a escrita das consoantes mudas fazia parte do rol.

Por esta ordem de ideias, seria importante repensar outras questões ortográficas, como, por exemplo, os vários valores fonéticos de ‘o’ (é vulgar as crianças perguntarem, no Primeiro Ciclo, se pato se escreve com u), de ‘i’ (o que dá origem a erros frequentes, como Medecina) ou de ‘x’ (letra que corresponde a cinco sons diferentes). Fica, ainda, por explicar por que razão tantas gerações de portugueses conseguiram superar essas e outras dificuldades levantadas pela ortografia portuguesa. [Read more…]

Portugal, o que é isso?

Tenho visto em diversos países como Portugal trata mal (ou simplesmente não trata) a sua afirmação externa.

Em muitos lugares Portugal não existe sequer, ou, se existe, deve-o a fenómenos pontuais como José Mourinho, Cristiano Ronaldo – o futebol, portanto -, a um ou outro escritor como Lobo Antunes ou Saramago, a um ou outro cantor ( lá está o fado), a um ou outro filme – a cultura portanto – e aos emigrantes portugueses – sendo que estes representam um fenómeno menos pontual.

O recente encerramento de parte da rede consular portuguesa e o despedimento de professores de português espalhados pela europa vem agravar este cenário, seja ao nível da afirmação externa, seja na ligação ao país e à língua  dos descendentes da emigração portuguesa, seja nas implicações comerciais futuras (os emigrantes e seus descendentes, além de consumidores de produtos portugueses “lá fora”, são e poderão ser excelentes “colocadores” destes produtos nos mercados em que se encontram).

Dir-me-ão que o país não tem dinheiro para luxos (luxos?), que os sacrifícios tocam a todos, etc e tal. Talvez, mas, de novo, parece-me que não se ponderou bem o deve e o haver. Acho que o que se poupa é inferior ao que se perde, além de malbaratar todo o trabalho anteriormente realizado e, nestes casos, descontinuar é regressar à estaca zero. Isto, admitindo que alguma vez se vai retomar o que agora se destrói.