Prometo Um Pénis de Ouro Para Todas as Mulheres

Pé MessianoAgora que já capturei alguma atenção, mais a sério. Não venho propor um novo princípio constitucional que garanta uma espécie de Pénis-Magalhães de Ouro a cada portuguesa, vibrátil, na linha dos direitos inefáveis, tendências democratizadoras e aspirações furadas que a Constituição consagra, deveria garantir, mas cujo chulé na verdade nem sequer cheiramos. Também não se está aqui a pensar em roubar aquele caralho de mel que parece estar na boca de Filipe Pinhal quando fala, ó ânsias de falo!, para dá-lo liberalmente a quem de direito carece da mais elementar glucose em suporte rígido. Pudessem todas as mulheres oprimidas e mal-pagas deste Portugal ousar chorar despudoradamente como ele, após anos de capitalização, offshores e mais valias. Não. Venho somente com a minha lenga-lenga beata do costume. Se há uma herança e um testemunho que desejo passar à mulher em geral e especialmente à mulher portuguesa não é de todo que todas passem a ter um áureo pénis só seu, realístico, áspero, nervurado e evocador, claramente artificial e artístico, como o Pé de Ouro engendrado a partir de um molde de silicone com Messi dentro. [Read more…]

À Minha Tia-Avó Amélia

Um telefonema. A notícia. Foi esta madrugada, agonizando entre as 06:30 e as 08:30 da manhã, que a minha querida tia-avó Amélia soltou amarras. Sabendo-a em doença terminal há semanas, uma daquelas gravíssimas situações dormentes e insuspeitas as quais, mal se manifestam, em menos que nada aniquilam a vítima, tive, na passada Quarta-Feira de Cinzas, um impulso interior poderoso para visitá-la. E fui. Foi como se todos os meus amados mortos do lado materno — o meu Avó Joaquim, a minha Avó Ana, os brasileiros meu querido Tio-Avô Manoel e a minha Tia-Avó Madalena, a minha querida tia-Avó Madrinha Emília, gente que amei e me amou [a Tia Madalena partiu em Agosto do ano em que nasci] —, gerassem no meu coração um ímpeto de despedida e de consolação. Ai de mim se não obedecesse ao que me gritava o íntimo.

Ao influxo das suas vozes vivas, meu coração-vela panda foi ajoelhar-se ao pé daquela lucidez bruxuleante, tomar-lhe a mão, beijá-la, beijá-lá muito, muitas vezes, e à sua fronte, beijá-la muito, muitas vezes, dizer-lhe que me era querida, dizer-lhe que tudo correria bem, invocar numa prece Jesus, o Deus Vivo, Espírito Consolador da Estirpe Humana, ser, enfim, abençoado pela irmã da minha querida Avó Ana, no Seio de Deus há vinte anos.

Logo me reconheceste. [Read more…]

E Tu, Já Fantasiaste Suicidar-te?

Querer morrer às próprias mão pode, em muitos casos, ter dentro também qualquer coisa de misteriosamente vaidoso e imaturo, golpe dado na passiva a quem pelo menos algum amor e zelo nutriu por nós e não ficará indiferente ao como acabamos. Não podemos julgar. Só compreender.

Algures na minha pré-adolescência, entre os meus intensos e apaixonados treinos de Ginástica Desportiva e de Karaté-Do, ficava-me um vazio social, uma anómala solidão: na escola e nos treinos separava-me deliberadamente dos meus colegas. Ficava metido comigo mesmo, convencido da excelência dos meus desempenhos, zelando pelo imaculado perfeccionismo da minha entrega física, para não falar no facto de a minha linguagem nada ter de chula como a da maior parte deles, no meu intolerante juízo. Não podia permitir que me contaminassem de prosaico e baixas expectativas. Tinha o exclusivo dos duplos mortais. Com dez, onze, doze anos, vivia na ilusão de atingir a perfeição moral e atlética através de uma feroz auto-disciplina. [Read more…]

Passou Janeiro, Ulrich!

Meu Céu Meu MarPassou Janeiro e não comprei absolutamente nada, não gastei dinheiro absolutamente nenhum para além de trinta cêntimos de pão. Consegui. Não me paguei a mim mesmo nenhum café, que adoro. Não me plantei peregrino e parvo no Merdia Market à babugem fosse do que fosse sem IVA, com respeito a todos os que o fizeram, falo de mim, o peregrino e o parvo seria eu. Não fui ao cinema, que adoro, nem ao teatro, que amo, nem à música, que idolatro. Não comprei coisa nenhuma, entrou dia, saiu dia, umas batas fritas, um bolo, um sumo, nada. Foram 31 dias vividos serenamente e em estado de combate, transformando a minha rebelião contra o Regime que Apodrece em Portugal em esvaziamento zen, em despojamento do meu Eu, num gesto concreto e num propósito reactivo como quem sintetiza o próprio sal e resiste ao Mega-Tributo a que nos submetem.

Jejuei todos os santos dias deste Janeiro, tomando apenas as duas refeições principais, regadas com meio copo de vinho tinto, broa, azeite, grelos cozidos ou couves, cavala em conserva, petinga ou atum ou salsichas. Estou vivo, mais leve, esvelto, e até mais belo, gracioso, com um brilho no olhar verdejante que muito me agrada. Corri para a minha praia, pisei a minha areia e bordejei as águas do meu Mar sempre que o clima o permitiu e mesmo quando chovia a cântaros. Passou Janeiro, espiritualizei-me, fui um pai omnipresente e solidário nas lides de casa, mantive o meu sorriso intacto, evitei demasiada virtualidade-net. Busquei o Sol. Emocionei-me na hora crepuscular, olhando, com o coração Menino e Impoluto, o Mar. [Read more…]

Requiem por Quem Fica Para Trás

Não é propriamente por uma moção de desânimo ou de auto-rejeição que, enquanto desempregado, passei a declarar-me radical e subversivamente contra o Consumo, todo o Consumo Pessoal, fora do estritamente indispensável sob os imperativos inerentes à minha paternidade. Os espíritos mais coreáceos, no seu empedernimento ofensivo e exibicionismo onanista do comentário, podem até brincar em torno do facto de a milhares de portugueses e a milhares de espanhóis faltar trabalho, escassearem recursos para sobreviverem dignamente, como se a circunstância pessoal do Palavrossavrvs fosse um cómico e desprezível problema dele e não o de tantos outros milhões, fruto amargo de todas as ilusórias legislaturas precedentes, em grande parte, noutra parte, puro azar, macrogestão, merda-FMI.

Os poderes da corrupção política em troca de uma generalizada dissolução social, os poderes da lógica do benefício pessoal ilícito na política em troca da desgraça de milhares, estão aí nos seus efeitos sobre mim. Esses poderes negros são fortes. A bronca não é para eles. É mais fácil manipular as pessoas que se auto-rejeitam do que as que se auto-aceitam. Rompo com a possibilidade de ser manipulado a começar pelo impulso de comprar. Consumir ávida e compulsivamente para além, dentro ou abaixo das próprias possibilidades tornou-se para mim uma desordem própria da auto-negação e da recusa em escutar o meu íntimo na sua fome de integridade e equilíbrio. Começo por assumir e aceitar a minha vulnerabilidade não como um medo de ser inútil, mas como uma certeza, já que tenho imenso tempo para contemplá-la. A certeza de ser amado. Um nada, qualquer coisa que nos amesquinhe insuportavelmente, pode levar-nos a uma profunda depressão e até ao suicídio. [Read more…]

Mata o Consumidor que te Habita

Não paro, jamais pararei a minha demanda por pessoas e lugares que me façam justiça e me recordem a minha mais profunda identidade. Sou um amado de Deus. Sei-o. Sinto-o. Vivo-o. Anuncio-o aos que se deixam permear pela minha voz propositiva, nunca impositiva, guru de mim mesmo.

Também por isso opto, com toda a minha liberdade, loucura e lucidez, por não consumir coisa nenhuma para mim. O que não gasto, sobra-me, desde que jejue e encare com calma a falta de recursos para um dentista, um problema mecânico, uma deslocação à cidade. Como se estivesse a fazer o meu próprio sal, e a resistir ao colonialismo ideológico de Passos Coelho, encontrei uma forma pacífica e eficaz de resistência psicológica à opressão político-económica em decurso, opressão que me escraviza e me declara fatal precário ou potencial desempregado no meu ofício docente até à minha morte por velhice. Como resistir ao opressivo asfixiar de economias familiares, como a minha? Matar em mim até ao Zero do Desejo qualquer vestígio de consumo. O meu Ganges interior reclama-me o despojamento. O Planeta agradece e a minha fome de viver de Espírito, Sabedoria e Belo agradece também. [Read more…]

Se não és Mulher

Devotos-hindus-realizam-rituais-matinais-as-margens-do-rio-ganges-no-primeiro-dia-do-festival-navratri-em-allahabad-na-indiaAbdica. Parte à aventura de não carecer de nada senão de ar, água e luz, música, para sobretudo desistir da ideia, da posse, da necessidade, do sonho, chamado dinheiro. Cumpre o teu Ganges, mergulhando nu no teu Nada, dia após dia. Contempla o sol crepuscular equatorial que se vê em África de nunca mais pesares no teu orçamento familiar. Todas as necessidades do teu agregado familiar são legítimas e supridas na medida em que não tenhas necessidades e não existas para a sociedade de consumo. Anula-te.

Parte para o País interior em que nenhum Relvas tenha o poder de te fazer franzir o sobrolho, muito menos Oli Rehn ou Draghi ou António Costa, na sua fidelidade omertàlhística ao áureo exilado. Não precisas de dinheiro. Nem de cartões de espécie nenhuma. Não para ter Alegria. Temos de morrer e temos, abdiquemos portanto do exercício falhado da argúcia que por exemplo transborda arrogante e mimada de Henrique Raposo, e aceitemos que nos ajustem segundo o irracional ultrapassar de limites com que nos ajustam, múmias sob cruciantes dúvidas que jamais serão saciadas, pois na pátria do cada qual por si, nenhum Nós interessa realmente. Se não és Mulher, não Sejas! Não anseies. Não busques.  [Read more…]

A sofreguidão pela vida

Continuando a transcrever o Diário 1941-1943 de Etty Hillesum (judia holandesa que morreu em Auschwitz em 1943)…

A 21 de novembro de 1941, também uma sexta-feira, Etty, com 27 anos, escreveu:

A sofreguidão deve existir igualmente na minha vida espiritual. O querer ingerir exageradamente, o que de vez em quando culmina em pesadas indigestões.

(…) [a mãe] Comia com gula e devoção. (…) Na sofreguidão dela havia algo como se ela tivesse medo que o mundo acabasse. (…)

Uma pessoa pode ter fome de viver. Mas com a sofreguidão pela vida, o objectivo é ultrapassado.

Deus: dentro ou fora?

 

Já aqui disse que havia comprado o Diário de Etty Hillesum, a judia que morreu em Auschwitz em Novembro de 1943.

Apetece-me partilhar o que ela escreveu a 26 de Agosto de 1941. Pode servir para discussão!

Dentro de mim há um poço muito fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí Deus está soterrado. Então é preciso desenterrá-lo.

Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Esses procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a cabeça e a escondem nas mãos, penso que essas procuram Deus dentro de si.