E Tu, Já Fantasiaste Suicidar-te?

Querer morrer às próprias mão pode, em muitos casos, ter dentro também qualquer coisa de misteriosamente vaidoso e imaturo, golpe dado na passiva a quem pelo menos algum amor e zelo nutriu por nós e não ficará indiferente ao como acabamos. Não podemos julgar. Só compreender.

Algures na minha pré-adolescência, entre os meus intensos e apaixonados treinos de Ginástica Desportiva e de Karaté-Do, ficava-me um vazio social, uma anómala solidão: na escola e nos treinos separava-me deliberadamente dos meus colegas. Ficava metido comigo mesmo, convencido da excelência dos meus desempenhos, zelando pelo imaculado perfeccionismo da minha entrega física, para não falar no facto de a minha linguagem nada ter de chula como a da maior parte deles, no meu intolerante juízo. Não podia permitir que me contaminassem de prosaico e baixas expectativas. Tinha o exclusivo dos duplos mortais. Com dez, onze, doze anos, vivia na ilusão de atingir a perfeição moral e atlética através de uma feroz auto-disciplina.

Nessa altura, creio ter ido longe de mais na escolha de um caminho de secura social, separação dos outros, mas era intuitivo-instintivo. Não tinha nem experiência nem consciência para mais que isto. Por isso, andava a maior parte das vezes murcho, triste, insatisfeito. Ainda não tinha descoberto a maravilha do Evangelho, a Luz Paradoxal que dimana do Outro, no seu contexto e singularidade, a realização plena da minha pessoa também pela sociabilidade, pelo sorriso, pelo acolhimento amigo do Próximo.

Costumava regressar da escola caminhando pela linha de comboio e, pelo menos num curto período em que não costumo pensar, confesso ter desejado a espectacularidade da minha própria morte, esborrachado pelo beijo mortífero de uma loucomotiva, acto com que egoisticamente magoasse os meus e os demais, na sua presumível indiferença, frieza e alheamento de mim, e os acordasse tarde de mais para a minha ponderosa existência. Fantasiava, por isso mesmo, uma espécie de acabar espectacularmente trucidado pelo voraz bicho metálico, vaidade de ser lamentado e gerar lágrimas.

Nunca mais pensei nestes termos e nunca mais fantasiei tal trânsito. Pelo contrário. Além da progressiva descoberta, vivência pessoal e comunitária, de Cristo Vivo, o que me caracteriza hoje, como a partir dos meus catorze anos, é a alegria de viver, a sedimentação da minha paz interior, a minha capacidade de gerar dentro de mim um silêncio e uma solidão, mas agora como lugares, paisagens intelectuais, ocasiões onde a Voz de Deus ecoa e ressoa incessante, envolvendo-me na própria substância amniótica do Amor Divino, para depois como um Bem-Amado comunicar isto mesmo a todos os que eu amo e me ouvem. Para mim, bem-estar é isto: ir à procura de um absoluto e intenso ponto de comunhão íntima com o Cosmos, com os Outros, com o Criador. E encontrá-lo.

O facto de estar desempregado e sem rendimentos de espécie nenhuma é um desafio novo que me convoca a uma paciência superior, a uma doçura íntima, transformadora. Saber que, ainda assim, posso fabricar com inteira disponibilidade a minha felicidade. Uma felicidade não-consumista. Saber que posso acender, em mim e em quem dela for capaz, uma revolta robusta contra o aviltamento produzido pela ganância irresponsável da Banca servida pela sádica frieza de Governos financeiristas e desumanos. Como? Abdicando de gastar. Abdicando de usar dinheiro. Recusando a usualidade da transacção.

E se todos os desempregados, todos!, quer os de longa duração amaldiçoados pela fatalidade dos seus quarenta ou cinquenta anos, quer os mais jovens, encontrassem uma plataforma comum de resistência criativa e eficaz?! Por que motivo não nos federamos e resistimos com estratégias comuns, eficazes, inesperadas?! Como os indianos que pacífica e passivamente forçaram a mão do império britânico? Como os negros norte-americanos que, nos anos sessenta do século XX, também de forma pacífica escaqueiraram séculos de segregação? Não é justo que milhões paguemos com acrescida penúria uma Banca Planetária que viveu acima da sua impotência, transcorrendo a estrema do decoro e da solidariedade cívica e política com a restante espécie humana sem bónus obscenos, sem prémios pornográficos, sem lucros contra a própria realidade e a miséria de milhões. Não é justo que suportemos, sobretudo nós desempregados, a receita cega de Governos herdeiros de outros Governos cujas pernas se abriram ao estupro consentido dos negócios mais ilegítimos e criminosos. Esses que viveram acima da Justiça e, por dinheiro, se dispuseram a esmagar povos inteiros, terão de prestar contas, [com excepção de Portugal, onde, sob o argumento tácito do dinheiro, elas nunca se prestam]. Vivos ou mortos.

[Se a Segurança Social não pode prestacionar-nos, a mim e a milhares, um subsídio de desemprego digno, talvez porque lhe pareça um Oliveira e Costa prevaricador dos sistemas sociais ou um Dias Loureiro, fodilhão das prestações sociais indevidas, por que caralho não me fiscaliza?! Ficava a saber de que contorcionismo se faz a minha sobrevivência e a de milhares.

Calma. Não posso azedar nem contra sistemas, nem contra políticos, nem contra coisa nenhuma. Necessito de conservar-me homem e rijo, aconteça o que acontecer. Fazer amor deliciosa e prolongadamente por cada banqueiro falador, armado em grilo falante dos que aguentam e do quanto aguentam.]

Toda a gente já pensou num suicídio e em razões para viver. No fim de contas, se vivemos, somos chamados a viver pelos outros. Por amor dos outros. Mas mesmo a nossa morte, social ou física, deverá ser uma mensagem de amor, não um gesto que agride e dilacera, que pune e desgraça, fruto de um desespero acalentado, doloroso golpe de teatro retroactivo. Que demónio segreda e seduz um tão monstruoso desfecho!

Comments


  1. Wow, wow, wow e wow outra vez!!!

    Meu caro, tiro-lhe o chapéu!


  2. O Papa resignou.


  3. “Mas mesmo a nossa morte, social ou física, deverá ser uma mensagem de amor.”

    Isto está muito Florbela Espanca.


  4. “Fazer amor deliciosa e prolongadamente por cada banqueiro falador.”

    Há quem faça amor por outras razões, mas a tua também não é mal pensada.

    Tens é de usar qualquer fortificante porque com tanto banqueiro a mandar aguentar, não sei se vais conseguir.


  5. “O facto de estar desempregado e sem rendimentos de espécie nenhuma é um desafio novo que me convoca a uma paciência superior, a uma doçura íntima, transformadora”

    Esta ideia não é original.

    “O primeiro-ministro considerou que o desemprego não tem de ser encarado como negativo e pode ser «uma oportunidade para mudar de vida»”

    E por aqui me fico porque cada frase se me solta um Wow, wow, wow e wow outra vez!!! ( como firma a Isabel G)

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