Mata o Consumidor que te Habita

Não paro, jamais pararei a minha demanda por pessoas e lugares que me façam justiça e me recordem a minha mais profunda identidade. Sou um amado de Deus. Sei-o. Sinto-o. Vivo-o. Anuncio-o aos que se deixam permear pela minha voz propositiva, nunca impositiva, guru de mim mesmo.

Também por isso opto, com toda a minha liberdade, loucura e lucidez, por não consumir coisa nenhuma para mim. O que não gasto, sobra-me, desde que jejue e encare com calma a falta de recursos para um dentista, um problema mecânico, uma deslocação à cidade. Como se estivesse a fazer o meu próprio sal, e a resistir ao colonialismo ideológico de Passos Coelho, encontrei uma forma pacífica e eficaz de resistência psicológica à opressão político-económica em decurso, opressão que me escraviza e me declara fatal precário ou potencial desempregado no meu ofício docente até à minha morte por velhice. Como resistir ao opressivo asfixiar de economias familiares, como a minha? Matar em mim até ao Zero do Desejo qualquer vestígio de consumo. O meu Ganges interior reclama-me o despojamento. O Planeta agradece e a minha fome de viver de Espírito, Sabedoria e Belo agradece também.

Não consumir significa deixar de ser um dos que encharcam rios, esgotos, oceano, de detritos, pequeninos pedacinhos de plástico incolor ou colorido que a maré insiste em devolver à praia, na sua oposição violenta à barbárie consumista ocidental. Somos seres valiosos aos olhos de Deus, mas que se perdem nas águas salobres do que nos é supérfluo e exterior, incapaz de nos saciar.

Comments

  1. Maquiavel says:

    Só um reparo: é possível deixar de consumir sem jejuar! Näo se consomem é coisas supérfluas, especialmente aquelas que depois de compradas ficam a apanhar pó porque näo há tempo para as usar!

    Mas de qualquer forma, parabéns pelo texto!
    O último parágrafo, entäo, é lapidar! Aplaudo!

    • António Machado Saraiva says:

      Bonito de se ler.
      Um desejo…uma crença…um sonho…”pelo sonho é que vamos”…”vamos”…uma pluralidade necessária, senão não dá né…

  2. nightwishpt says:

    Um discurso ao nível do estado novo! Parabéns!

  3. Amadeu says:

  4. Não consigo, sou pela paz.


  5. Não, não consigo perceber alguma da insensibilidade que por aqui medra – e noutros escritos do Joshua (Joaquim).
    Há que perceber o grito, os gritos de quem tem necessidade de gritar.
    Eu, que já senti na carne o desemprego e me sinto espoliado nos meus quase quarenta anos de descontos reflectidos numa pensão esportulada (quase de gorjeta, sim), único caminho que me foi dado para sair desse estado de desassossego, sei do que se fala aqui.
    Os meus respeitos, aqui e agora.


    • Meu caríssimo, um Abraço.


      • Meu caro, nem sempre com visões comuns- antes pelo contrário – mas acredita que procuro até ao limite da minha criatividade continuar a lutar, também pelo teu sonho, ainda que não me tenhas encomendado sermão nenhum. Posso até não conseguir nada, mas vou continuar a lutar, ainda que tu aches que o faço do modo errado. Respeito MUITO o que aqui escreves. JP


      • Alguns dos que o têm comentado, ao longo dos meses que levo do Aventar, precisavam de sentir na pele (e na alma) algo por que eu passei durante dois anos, e por que está a passar também.
        Não concordo com tudo o que escreve – confesso que não sou tão iconoclasta embora o meu sangue também o seja – mas respeito as convicções.


  6. “Não consumir significa deixar de ser um dos que….”

    (desculpa só ler este último parágrafo, mas leio o resto depois)

    Eu acho que não consumir dá cabo da economia do país e dá cabo de nós.

    Talvez o que queiras passa é o consumir de forma, digamos, sustentável?


    • Não. Refiro-me a uma ruptura mais radical. Não consumir mesmo. Em absoluto. Morrer para a lógica do desejo e da transacção: rejeitar as mais pequenas oportunidades para gastar. Socialmente parece um atentado, mas é uma reacção, uma rebelião. Se todos os desempregados e precários como eu usassem esta arma conscientemente, a arma de se absterem de gastar, coitados, cinquenta cêntimos num capricho, num deslize, numa fantasia, esse acto perseverante e quotidiano de massas, esmagador, representaria porventura o mesmo acto subversivo eficaz dos indianos quando foram aos milhares produzir o seu próprio sal no Índico e cuspir pacificamente no tributo imperial inglês sobre o sal oficial.


  7. Por falar em Deus, Ele disse, “Crescei e multiplicai-vos”.

    Sem consumo, não se consegue, não é?


  8. Caro Palavrossavrvs, entendo perfeitamente aquilo por que está a passar… sei-o tão bem e sei que dói. Dói no corpo e dói na alma, como diz o caro Armindo.

    Quem sou eu para dar conselhos ou confortos, mas sabe?, a Vida providencia tudo o que precisamos: se estivermos atentos, existem, no dia-a-dia, pequenos milagres que nos auxiliam a levar o barco a bom porto… mas temos que estar atentos, temos de viver aqui e agora, largando passados saudosos e sobretudo não congeminando futuros gloriosos…

    Abraço enoooorme!


  9. Agora é a minha ocasião… BRILHANTE.

    Quem pensa que “Mata(r) o Consumidor que te Habita” (citação adulterada!) é sinal de desgraça e do fim da economia, como já aqui li noutros comentários, está em sintonia com o actual sistema (sistema monetário e suas regras vigentes) ABSOLUTAMENTE DESUMANO, DESONESTO E ESCLAVAGISTA…

    Esta é a única forma de se iniciar a rotura com o sistema actual e começarmos a efectiva mudança… O objectivo será obtermos uma Civilização de RESPEITO e HONRA… Dois VALORES fundamentais e que sendo praticados activamente destroem por completo a actual abundância miserável e fétida de INTERESSES…

    A palavra “CONSUMO” terá que ir sendo, obrigatoriamente e ao longo do tempo, desassociada da sua actual definição e realidade prática!

    Infelizmente, para mim, estou bem ciente de que isto não será por mim experimentado…

    Abraços 😉

    (não faço ligações pois senão tenho que pagar taxas 😎 )


    • Ora nem mais!

      Agora vou citar-me sem falsa modéstia: A publicidade é o alimento dos idiotas e o consumismo o consolo dos fúteis!

      E agora uma frase carregadinha de sabedoria cujo autor desconheço: Tudo se pode quando se pode passar sem tudo!

  10. Paulo Sarnada says:

    Joaquim,
    Agradeço o texto.É uma fonte inspiradora.
    Nunca fui dado a consumos “desequilibrados”. Fui, felizmente educado numa família que apostava mais nos bens educacionais, livros, cursos.

    Vou fustigar ainda mais os meus hábitos de consumo.
    Respeitosamente,


  11. “Também por isso opto, com toda a minha liberdade, loucura e lucidez, por não consumir coisa nenhuma para mim. O que não gasto, sobra-me, desde que jejue e encare com calma a falta de recursos para um dentista, um problema mecânico, uma deslocação à cidade.”

    Respeito a sua opinião mas não concordo com ela.

    1- isto não tem nada a ver com liberdade, embora pareça que
    possa ter.

    2- encarar com calma a falta de recursos para o dentista, etc, não tem a ver com liberdade nem lucidez.

    O que está aqui patente é uma atitude de resignação em toda a linha, indo-se buscar Deus para abençoar esta ideia muito católica apostólica e romana da culpa, da resignação e do paraíso à espera, no final.

    Ao fim de tantos séculos de evolução, desenvolvimento e melhoria de vida e de tantas melhorias de condições a nível de saúde, educação e cultura, abdicar de tudo isto para nós e os nossos descendentes custa a tragar…..

    A não ser que este texto seja mais uma ironia mal feita……

    • palavrossavrvs says:

      A atitude de absoluta recusa do consumo e a privação de cuidados dentários por dificuldades circunstanciais no imediato não se aplica à minha descendência.

      A sabedoria trans e interreligiosa não pode ser menosprezada de nenhum modo. Trata-se no meu caso do exercício do autodomínio e de uma escolha com alguma carga subversiva, se for imitada: não gastar nem dez cêntimos em coisa nenhuma e ter Livros, Música, Pão, Água, Sensibilidade para o Belo, Afectos Fortes, Sol, Mar.

      Setenta por cento da população mundial não imagina o quanto se desperdiça comida e se esbanja recursos no Ocidente: faz, quer queira quer não, uma abstinência inata [e até à morte] do Ter e do Consumir. Tudo se partilha.

      O nosso egoísmo ocidental não tem perdão e não difere demasiado do sistema de extermínio burocrático em Treblinka.


      • Caramba, caro amigo Palavrossavrvs, tenho imenso orgulho em si!

        A si não estão a fechar-se-lhe portas, estão a abrir-se-lhe portais!!!

        Beijinhos

        • Sarah Adamopoulos says:

          Timão de Atenas, de Shakespeare (traduzido já pela Yvette Centeno) tem uma personagem-chave na pessoa de um filósofo, Apemanto, que se distingue absolutamente do filantropo tornado misantropo Timão justamente pelo “budismo” versão dura que norteia intransigentemente a sua vida. É um homem livre, sem passado consumista, digamos, jamais comprado, jamais comprador. A diferença entre eles é que Timão, embora tornado misantropo, dedica à Humanidade o ódio dos vencidos, isto é dos que voltariam a fazer tudo igual outra vez caso pudessem (voltando a acreditar na Humanidade desde que reconquistado o estatuto debaixo do sol e sobretudo acima dos outros, pelo exercício dos poderes, materiais ou outros). Ou seja, Timão foi um “consumidor” que se arrependeu de tê-lo sido porque ficou sem dinheiro, ouro, poderes. Pressinto um Timão no Palavroso, mas interessante mesmo seria ser um Apemanto, ou enfim, a aproximação possível a esse estado mental humano, que talvez só o budismo zen pode ajudar a alcançar. Duvido é que conseguisse a necessária e budista compaixão pelos tipos do PS, o que estragaria logo tudo. Que fazer? Libertar-se dessas paixões, nocivas ao grande vazio de que só pode emergir o amor, o amor por todos os seres, e até mesmo pelos do PS. Há mantras que ajudam, é procurar.


          • Sarah, tenho em mim a pulsão pura do filósofo Apemanto bem como a tentação rude de chafurdar numa reincidente misantropia anti-PS, é verdade. Fraquezas. O que me enriquece é precisamente esse conflito aberto entre o Apemanto que medula o que sou e o Timão que por vezes avulta, ressalvando que levei 33 anos de Apemanto e os últimos dez numa ilusão ambiciosa consumada ou redundada em erros, azares [acentuados pelo impacto da Política na minha vida concreta], má fortuna, amor ardente, perdas, ingenuidades, lições de vida.

            Aqui chegado, o que me resume, quanto a mim, é a necessidade de ser conscientemente o que todos somos inconscientemente, um Filho Pródigo, agora forcejando contra mim mesmo porque mudar é duro e a inércia uma lei moral, contra todas as lógicas do Mundo, contra toda a espécie de orgulhos, um Regresso contrito ao Pai, ao Cosmos, ao Essencial.

            No fim, dominadas as minhas paixões e refreada a minha bílis contra este tempo escandaloso de tão injusto, Apemanto, meu âmago, triunfará.

    • Paulo Sarnada says:

      Luis,
      A frugalidade e a acção deliberada para rejeitar tudo o que não é preciso para a existência, é um acto de liberdade.
      Parece-me…

  12. Pedro says:

    Este palavroso é mais ressabiado que anda a ler a bíblia demasiadas vezes. E claro, nao aprende nada.

  13. Pedro says:

    Que tal ires trabalhar. Mas trabalhar mesmo, não é dar à caneta ou ao giz.


    • O meu trabalho, com caneta e com giz, também passa por suscitar comentários imbecis, o que é ainda mais gratificante. Gosto de me compadecer por tudo o que é genuinamente humano.

  14. João Riqueto says:

    Não tarda, o dono do Pingo Doce manda fechar o Aventar.

  15. Pedro says:

    Está bem. Mas tenta ser menos piegas…


    • O que me proponho e proponho a quantos se encontram em circunstâncias semelhantes é de macho, só está ao alcance de temperamentos viris: corroer, pela insubmissão ao consumo, uma sociedade sufocada e dependente da procura, explorada nos preços, chulada e mal-tratada pelos interesses e lóbis sem alma.

      Romper. Portugal significa gente comum sempre a perder e sectores protegidos energético, público-privado das estradas exorbitantes, das telecomunicações, sempre a ganhar. Não consumir, prescindir, será, quando o for em massa, derrotá-los.

  16. António Fernando Nabais says:

    Querido J.
    Desejo, com a frieza de um atirador furtivo, a morte de qualquer consumidor que polua a habitação que somos, mas revolta-me o genocídio dos consumidores responsáveis e necessários e não me conformo com o despojamento a que és forçado, desejando-te, no mínimo, que a vida volte a ser suficientemente justa para que possas escolher o despojamento que mereces. Entretanto, tenho o desejo de que, em mim, sobrevivam alguns consumidores: aquele que te lê e um outro que adoraria consumir a paciência de todos os parasitas que me causam alergias dolorosas. Que isto é um mundo perigoso, pá: uma pessoa apanha chatos em São Bento e oxiúros em Paris. E o problema é que, como andam tão perto uns dos outros, uma pessoa acaba por confundi-los, porque a comichão mistura-se.
    Entretanto, não percebo qual é o problema do Pedro com o facto de andares a mexer na caneta ou no giz. É por serem símbolos fálicos? Um gajo já não se pode entreter sozinho, de vez em quando?

  17. Amerdalheu says:

    Se a caneta é um símbolo fálico, o problema do Palavros é o tesão do medo. No fim, eventualmente, acabará por parar a birra. Talvez adira a uma Igreja Unipessoal e passe a orar em línguas. Talvez arranje trabalho em tipógrafo na grande enciclopédia da autocomiseração universal. Se arriscar, talvez tenha sorte e venha a ter uma biblioteca maior que a do Mário Soares ou a do Umberto Eco.
    Sinceramente, gostava que ele tivesse sorte.

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