O «Jornal de Notícias» de 10 de Abril de 1974 refere que as Farmácias pretendem maior lucro, embora não queiram que o preço dos medicamentos suba. 35 anos depois, a mesma luta!
Rebentou uma bomba a bordo do Niassa, no momento em que o navio ia partir de Lisboa. Quatro militares ficaram feridos.
O Governo coloca a hipótese de requisitar matérias-primas ou mercadorias, de forma a proteger os consumidores.
O Secretário de Estado da Informação e Turismo, Pedro Pinto, foi recebido com folclore no Aeroprto Pedras Rubras.
No desporto, Yazalde deve jogar logo à noite contra o Magdeburgo, em jogo a contar para a Taça das Taças.
Na política internacional, Messner quer ser o único candidato gaulista às eleições francesas, mas Chaban-Delmas «furou» a unidade.
Faltam 15 dias para a Revolução.
Memórias da Revolução: 10 de Abril de 1974
A sombra de Caxias (II – Tortura do sono e quejandos)
Em Caxias, os presos entravam às centenas. Só no dia 7 de Maio de 1962, entraram 113 pessoas, acusadas de participarem nas manifestações do Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador. Nos três dias subsequentes, foram presos mais oitenta e cinco homens.
«Vocês poderão imaginar isto tudo, amigos? O que era, em prisões destas, ser torturado, espancado, apodrecer nos curros, adoecer, tuberculizar, ter cancro, ter dores, vomitar, ter período menstrual, não tomar banho, tremer de frio, passar fome? Ninguém pode imaginar. Só vendo. Vocês poderão imaginar, amigos, o que eram os interrogatórios, os insultos, a vida inteira devassada, avacalhada, o silêncio das noites, o isolamento, os anos passados, as cartas abertas, os parlatórios com microfones minúsculos, debaixo dos mosaicos das paredes, as visitas com guardas ao lado? Ninguém pode imaginar. Só tendo passado por isto.» (Maria Fernanda Leitão, in «Notícia», 25 de Maio de 1974).
O objectivo da PIDE era, acima de tudo, obter a confissão do preso, visto que na maior parte das vezes não havia uma única prova material do suposto crime. Daí que a confissão tivesse de ser autenticamente arrancada durante o interrogatório. O espancamento, a tortura do sono ou da gota de água, o isolamento continuado ou as ameaças de morte a familiares e ao próprio eram algumas das muitas técnicas utilizadas.
Quanto às salas de interrogatório, eram pequenas e constituídas por uma mesa, uma cadeira e um banco, um quarto de dormir e uma casa de banho. Por vezes, candeeiros escondiam microfones para gravar os interrogatórios.
A tortura do sono era uma das mais aplicadas em Caxias. Para impedir que o preso dormisse, às vezes durante semanas, a PIDE recorria a estímulos que iam aumentando de intensidade à medida que se tornava mais difícil mantê-lo acordado. Numa primeira fase, brincar com uma moeda, abrir e fechar gavetas ou obrigar o preso a passear pela sala; numa segunda fase, berrava-se, espancava-se, gravavam-se gritos, mudava-se repentinamente a temperatura, queimava-se o preso e obrigava-se o mesmo a ficar em posição de estátua.
«Exemplo suficientemente elucidativo dos processos então utilizados por aquela polícia política é o caso de José Pedro Correia Soares, preso no dia 1 de Junho de 1971. (…)
Foi primeiramente interrogado pelo director da prisão de Caxias e, perante a sua atitude firme, o interrogador começou a ameaçar: «Se não quer esclarecer a verdade, não esclareça, mas vamos tê-lo 6 meses ao nosso dispor e, se for preciso, mais 3 ou 6 meses.» (…)
Depois de uma noite de sono numa cela de isolamento em Caxias, regressou ao interrogatório no dia seguinte.
Esta primitiva «sessão» teve a duração ininterrupta de seis dias e seis noites, em que o preso esteve permanentemente acompanhado, pelo menos, por um agente que era rendido de seis em seis horas, e que se encarregava de não o deixar adormecer nos intervalos dos interrogatórios propriamente ditos e de proceder a uma pressão psicológica permanente no sentido de o preso fazer confissões. (…)
Quando o preso insistiu na negativa e declarou não aceitar a Direcção-Geral de Segurança como instituição legal porque só praticava injustiças, sofreu o primeiro espancamento: violentamente socado na barriga tombou no chão, sendo depois pontapeado várias vezes , do que lhe resultaram ferimentos no nariz e no olho direito.
Em seguida, obrigaram-no a permanecer de pé três dias e três noites consecutivas, e como o prisioneiro se tivesse recusado a comer enquanto fosse torturado, quiseram-lhe introduzir um tubo no estômago para alimentação.
O preso acedeu e voltou a comer. No quinto dia, foi o director da cadeia quem tomou a iniciativa da «persuasão» com socos na cara. Como o preso o insultasse, novo grupo de agentes entrou na sala para o agredirem a pontapé. (…) Estava terminada a sessão preliminar de «interrogatórios».
Interessante, até para dar uma visão diferente da prisão, é perceber de que forma Caxias era observada do estrangeiro, neste caso através de um texto do então correspondente do jornal inglês «London Guardian».
Um investigador americano, que visitou a prisão em Agosto de 1974 e que comparou Caxias, mais recentemente, ao sistema prisional americano, mais concretamente a Guantanamo, em Cuba, local onde os Estados Unidos mantêm ilegalmente, sem culpa formada nem acusação, centenas de prisioneiros.
Um dos motivos que leva ó autor a fazer essa comparação está relacionado com a tortura do sono, uma das principais especialidades da PIDE em Caxias. Um método que era aplicado com a ajuda da CIA, que em 1963 produzira o «Kubark», manual secreto que descrevia a forma de exercer tal tortura.
«Durante vários dias, no princípio do verão de 1974, tive acesso livre a uma estranha e terrível prisão próxima a Lisboa, então vazia devido ao golpe que no mês de Abril findou 48 anos de ditadura fascista em Portugal. (…)
A prisão de Caxias era dirigida pela polícia secreta, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), temida pelos portugueses. Os peões atravessavam a rua para evitar passar em frente à sua sede em Lisboa. Caxias era uma velha fortaleza próxima ao mar, mas no seu interior havia uma moderna câmara de tortura que utilizava as mais recentes técnicas de coerção — concebidas pela US Central Intelligence Agency.
Durante décadas, milhares de prisioneiros políticos, principalmente comunistas e socialistas, deram entrada em Caxias para tortura sistemática e a seguir foram soltos. Por que estes subversivos conhecidos, que haviam dedicado as suas vidas à destruição da ditadura, puderam retornar à liberdade? Porque o êxito das técnicas modernas de tortura importadas pela Pide significava que as suas vidas anteriores haviam-se tornado irrelevantes? Nas palavras da Pide, eles haviam sido “jogados fora do tabuleiro de xadrez”. As suas vidas, velhas ou novas, foram destruídas.» (Cristopher Reed)
É preciso ter lata!
Do «Público» on-line:
«Socialistas assinam texto crítico sobre situação do país
O “sistema capitalista” parece “ter entrado em ruptura”. Há “direitos conquistados durante gerações, pelos trabalhadores” que foram “gradualmente postos em causa”. O retrato, do mundo e de Portugal, é tudo menos risonho e é assinado pelo PS, o partido do Governo, e por alguns dirigentes da chamada “ala esquerda”, a começar por Manuel Alegre, e pelo fundador do partido Mário Soares.
Outros subscritores são o PCP, Bloco de Esquerda, Verdes, as duas centrais sindicais, CGTP e UGT, JS e JCP, entre outros.
Segundo os subscritores, a crise económica mundial está a ter consequências em Portugal, onde os seus efeitos se somam às “vicissitudes de antigos desequilíbrios estruturais que vêm de muito longe e persistem” e não pode justificar “violências contra os trabalhadores”. “O desemprego e a precariedade alastraram.”
Alegre e Soares são duas das mais de 600 personalidades de esquerda que assinam o “apelo à participação” na manifestação do 25 de Abril, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, organizada anualmente pela Associação 25 de Abril.»
Quando se sabe que gente como Alberto Martins e Vitalino Canas também assinou, só mesmo uma frase: É preciso ter lata!
Memórias da Revolução: 9 de Abril de 1974
Diz o «Jornal de Notícias» de 9 de Abril de 1974 que já são 17 os candidatos ao Palácio do Eliseu. A Esquerda unida apoia François Miterrand. Ao que parece, Giscard d’Estaign também vai concorrer.
Entretanto, em Inglaterra, Harold Wilson deu explicações na Câmara dos Comuns. «Negada qualquer ligação com negócios obscros». Heat & Cª. ouviram e calaram.
Iniciou-se finalmente a construção da nova ponte de Vila do Conde.
No Porto, foi realizada uma sessão de Satsang (uma palavra Hindu que significa associação com o Sábio ou mais popularmente, encontro com a Verdade).
Faltam 16 dias para a Revolução.
A sombra de Caxias (I-A Fuga de 1961)
«Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.»
(Manuel Alegre)
Pelo meio da evolução económica e social que se ia registando em Oeiras, deram-se importantes acontecimentos de ordem política em Portugal e no concelho.
Estávamos em plena Ditadura salazarista, e ao mesmo tempo que as pessoas começavam a ter acesso a outro tipo de informação, passavam também a receber de braços abertos todos aqueles que de alguma forma traziam uma solução para os problemas nacionais e mais ainda para aqueles que prometiam acabar com o regime.
Em 1958, a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República, que abalou os alicerces do regime ditatorial, representou um momento alto na contestação a Salazar. Apesar das batotas e das fraudes eleitorais, passadas a escrito pela PIDE, o «General sem Medo» conseguiu vitórias em alguns concelhos.
Em 1974, o 25 de Abril culmina um processo marcado por longos anos de esperanças sem efeito. Tudo aquilo que se esboçara em 1958, mas sem sucesso, tinha agora efectiva concretização. De Santarém partiu a revolução, no dia em que o capitão Salgueiro Maia liderou os seus homens em direcção a Lisboa.
Quanto ao concelho de Oeiras, sobressaiu durante toda a Ditadura devido à existência de uma prisão política, a de Caxias, que por muitos anos significou o terror dos opositores ao regime e a destruição de muitas vidas. Uma sombra em Caxias, freguesia tão recente, marcada por uma luminosidade muito especial. Na prisão de Caxias, no entanto, foi sempre tudo muito escuro, apesar daquilo que o Estado Novo queria fazer crer.
A fuga de 1961
Decorria a manhã do dia 4 de Dezembro de 1961 quando oito militantes comunistas, que se encontravam detidos, protagonizaram uma fuga que se tornou mítica pela forma como decorreu. Eram eles José Magro, Francisco Miguel Duarte, Domingos Abrantes, António Gervásio, Guilherme de Carvalho, Ilídio Esteves, Rolando Verdial (todos funcionários do Partido Comunista) e António Tereso.
Ao longo de um ano, aqueles haviam preparado meticulosamente todo o plano que iria conduzir à sua libertação. O impacto nacional desta fuga foi muito grande, já que Caxias era vista como praticamente inexpugnável. Em plena luz do dia, num pátio interior do forte, rodeado de taludes, GNR’s, carcereiros armados e sempre atentos e vigilantes, como fora possível que oito presos escapassem sem que os guardas tivessem tempo sequer de reagir?
Nos meses anteriores, a PIDE distribuíra aqueles presos por várias salas, para impedir a comunicação entre eles, mas, ao contrário, o que se assistiu foi ao reforço das ligações entre salas e pisos. Assim, a PIDE decidiu voltar a juntá-los todos outra vez numa sala do rés-do-chão. Dessa forma, se estivessem todos juntos, seriam melhor vigiados. No entanto, acabou por acontecer novamente o contrário do desejado, pois ficou facilitada a preparação da fuga.
Quando se soube que na garagem da cadeia se encontrava um Mercedes à prova de bala, logo ficou escolhido o meio de transporte a utilizar. Um antigo motorista da Carris, com conhecimentos de mecânica, António Teresa, foi encarregado de ganhar a confiança dos guardas, fingindo-se colaboracionista («rachado», como lhes chamavam) e oferecendo-se para arranjar os carros do director da prisão e dos guardas.

O objectivo era chegar perto do Mercedes, averiguar o seu estado e compreender até que ponto o portão da prisão aguentaria depois de um embate do carro. Depois de se chegar à conclusão que o portão seria facilmente derrubado, foi escolhido o dia e a hora – antes das dez da manhã, que era quando chegavam os familiares dos presos para as visitas. Ao mesmo tempo, todos os outros carros do interior do forte tinham de estar avariados, para não impedirem a fuga.
Quando os deixaram sair para o recreio, pouco depois das nove da manhã, os oito presos que se preparavam para fugir foram jogar voleibol como habitualmente. Pouco depois, aproxima-se deles o Mercedes, conduzido por António Tereso e com as portas apenas encostadas.
«Começámos a «protestar», os guardas muito atentos, aproximámo-nos do carro cujas portas só estavam encostadas – tudo aparentemente sereno mas muito rápido. Ouve-se o grito da senha: GOLO! E num gesto super rápido os oito fugitivos estavam no interior do «Mercedes» que, em grande velocidade, avança pelo túnel em direcção à liberdade. A sentinela não teve sequer tempo de fechar o gradão. O «Mercedes» vai direito ao portão exterior, arranca em primeira, dá uma pancada no portão que salta em pedaços! Ouvem-se tiros de metralhadora. O «Mercedes» arranca encostado ao talude do forte. Chovem tiros e ouvem-se as balas a fazerem ricochete no carro.» (António Gervásio, O Militante)
Os guardas correm então para os carros do forte, com o objectivo de perseguir os fugitivos, mas conforme fora planeado, António Tereso encarregara-se de os avariar a todos. Dez minutos depois, o Mercedes já chegara a Lisboa. Estacionaram-no no Arco do Carvalhão e desapareceram isoladamente, passando à clandestinidade, muitos deles até 1974.
A memória do Forte de Peniche
Sabemos todos que a maioria dos grandes monumentos nacionais estão em perigo de se degradarem definitivamente por falta de manutenção (o Estado não tem dinheiro para estes “bizantices”). Isto não impede que o Tuga sempre que tem uma ideia não coloque o Estado a pagar.
A associação Não Apaguem a Memória, que já tinha lutado contra os edifícios que nasceram ali no Chiado, no local da antiga sede da PIDE, luta agora para que o Forte de Peniche não se transforme numa pousada. Quer um museu, um centro que agrupe num mesmo local a documentação referente ao Estado Novo, preservando assim os locais onde tantos anti-fascistas estiveram presos.
O problema é que se este centro não for viável economicamente, vai ser o Estado e possívelmente a Câmara local a ter que pagar o seu funcionamento. O que é meio caminho para a sua morte lenta e para que poucas visitas tenha.
Se for possível (e basta bom senso) juntar no local uma Pousada, explorada por empresário do sector e um centro de documentação, junta-se o útil ao agradável. Não se apaga a memória e desenvolve-se uma actividade económica que sustenta a manutenção e a dinâmica do interesse do público.
O Forte e o belo local merecem e a memória antifascista também!
Memórias da Revolução: 8 de Abril de 1974
O «Jornal de Notícias» de 8 de Abril de 1974 refere a presença no norte do Secretário de Estado da Agricultura, Mendes Ferrão. O Palácio do Leite irá estar a produzir em pleno dentro de um mês. Todos os dias se consomem no distrito do Porto 130 mil litros de leite.
No Cais do Cavaco, um carro embateu contra uma coluna. Resultado da tragédia: dois mortos.
No desporto, Famalicão e Avintes agigantam-se na Taça de Portugal.
Na Praça de Touros de Vila Franca de Xira, o toureiro espanhol Jose Fuentes foi colhido por um touro e encontra-se em estado grave. Bem feito. Não fosse torturar animais para a arena.
Faltam 17 dias para a Revolução.
Memórias da Revolução: 7 de Abril de 1974
A 7 de Abril de 1974, diz o «Jornal de Notícias», decorrem em Paris as últimas homenagens a Georges Pompidou. À margem das cerimónias fúnebres, chefes de Estado de todo o mundo encontram-se para conversações informais.
A grande entrevista do dia é com Sarmento de Beires, que explica «como voei até Macau». Sarmento de Beires foi o primeiro piloto a efectuar uma missão de voo nocturno em Portugal em 22 de Janeiro de 1920. Em 1924, realiza com Brito Pais e Manuel Gouveia um voo até Macau.
No Porto, as crianças das escolas foram ao teatro e tiveram a surpresa de ver Cubillas, o jogador do F. C. do Porto. Na Taça de Portugal, o Tomba-Gigantes foi o Salgueiros, que eliminou a Académica.
No Festival da Eurovisão, o resultado do costume. Paulo de Carvalho terminou em último com 3 pontos, sendo que 2 deles foram atribuídos pela Espanha. A grande vencedora da noite foi a Suécia, com a canção «Waterloo». Os intérpretes? Um grupo que iria dar muito que falar nos anos seguites: os ABBA.
Faltam 18 dias para a Revolução.
Para sempre Capitães de Abril
Morreu Salgueiro Maia, o mais genuíno “Capitão de Abril”. Até a morte precoce sublinha esse despojamento de comendas e glórias materiais.
Morreu Melo Antunes, o mais político dos “Capitães de Abril”. Um homem íntegro, culto, que nunca teve a mais pequena dúvida de que quem não dormiu na madrugada libertadora, seria devorado pela “escumalha” que se escondia e que não tardou a aparecer.
É preciso dizer que a Pátria está em dívida com estes homens. Com a sua memória que “foi da lei da morte se libertando..” como diz o grande Camões.
Outros há, felizmente ainda vivos, que tudo deram e nada pediram para si mesmos. Todos eles são hoje o que seriam se não tivessem libertado do jugo fascista todo um povo! Nada ganharam com a Democracia a não ser o que a população dos campos, das fábricas, dos escritórios, das escolas tiveram também para si. A liberdade!
Bem pelo contrário, muitos deles vêm levantar-se obstáculos artificiais, com origem nos que tudo lhes devem!
São estes homens que muitas vezes se tenta dividir. Os do “25 de Abril” e os do “25 de “Novembro”. É preciso dizer que, no essencial, quem fez o “25 de Abril” tambem fez o “25 de Novembro”! Quem teve a coragem de enfrentar a fera fascista tambem se ergueu perante os que quiseram desvirtuar o objectivo político do movimento dos Capitães! Por uma e outra razão criaram inimigos,hoje poderosos, porque tudo lhes vieram comer à mão!
Quando se aproxima mais um aniversário do dia glorioso, é conhecida a intenção das mais altas figuras do Estado e das Forças Armadas em promover a General um dos “Capitães do 25 de Novembro”! Atente-se que é em 25 de Abril que se premeia quem é (e não é pouco) figura do 25 de Novembro. Por razões de índole pessoal? Há quem defenda essa hipótese. Mas não se pode deixar passar mais esta tentativa de divisionismo que em nada contribui para a pacificação de quem tudo deu sem nada receber em troca!
Memórias da Revolução: 6 de Abril de 1974
Chegou o grande dia, noticia o «Jornal de Notícias» de 6 de Abril de 1974. Logo à noite, em Brighton, realiza-se o Eurofestival da Canção, um dos maiores acontecimentos do ano. E lá está Paulo de Carvalho, com o seu «E Depois do Adeus», com música de José Calvário e letra de José Nisa, a representar Portugal.
Como sempre, a imprensa dá a nossa canção como uma das favoritas. Como sempre, diz-se que foi a mais aplaudida dos ensaios. Como sempre, e desculpem-me o tom pessoal, a minha mãe deve ter feito um bolo para passarmos o serão. Nesse ano não sei, que era pequenino, mas foi assim assim durante muitos anos, por isso naquele ano também deve ter sido.
Como sempre, a desilusão seria tão grande quanto a esperança. Não faz mal. «E Depois do Adeus», no 25 de Abril, desempenharia um papel muito mais importante.
Faltam 19 dias para a Revolução.
Memórias da Revolução: 5 de Abril de 1974
O «Jornal de Notícias» do dia 5 de Abril de 1974 referia que os preparativos para o funeral de Georges Pompidou estavam a decorrer e que, no dia seguinte, na Catedral de Notre Dame, esperavam-se os principais líderes mundiais. Um deles seria o senhor Presidente do Conselho, Dr. Marcello Caetano. Entretanto, ainda o corpo do falecido estava quente e já tinham surgido cinco candidatos ao Palácio do Eliseu.
A caminho de Inglaterra estava Paulo de Carvalho, para representar Portugal no Eurofestival da Canção com o seu «E Depois do Adeus». Uma música à qual estava reservado um destino bem mais importante alguns dias mais tarde.
Faltam 20 dias para a Revolução.
Salgueiro Maia morreu há 17 anos
«Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi Fiel à palavra dada e à ideia tida
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.»
Sophia de Mello Breyner
A 3 de Abril de 1992, após quatro operações cirúrgicas e vários anos de sofrimento, morria Salgueiro Maia. Ao funeral, realizado em Castelo de Vide ao som da «Grândola», como era seu desejo, ocorreram as mais altas instâncias, passadas e presentes, da governação. Confirmando o que alguém disse nesse exacto momento: «Mesmo depois de morrer, o Maia continua a servir sem se servir.»
O maior dos heróis de Abril.
Foi há 17 anos.
Memórias da Revolução: 4 de Abril de 1974
No «JN» de 4 de Abril de 1974, o tema forte é ainda a morte do presidente francês Georges Pompidou, que será enterrado num pequeno cemitério de província. As cerimónias fúnebres oficiais decorrerão depois de amanhã na Catedral de Notre Dame. «Pompidou: Uma lousa e um cemitério singelo», é a manchete.
Em Portugal, um avião «afocinhou na Base de S. Jacinto». Na Luz, Portugal empatou a zero no particular com a Inglaterra.
Na corrida aos Óscares, o filme «The Sting» foi o grande vencedor, com sete estatuetas, entre as quais a de Melhor Realizador (Roy Hill), Melhor Actriz (Glenda Jackson) e Melhor Actor (Jack Lemmon).
Faltam 21 dias para a Revolução.
Sons de Abril: Luís Cília
Luís Cília canta a sua canção de 1964 e hino de resistência, «Canção Final, Canção de Sempre», com poema de Manuel Alegre. A gravação foi feita num restaurante de Paris, onde o autor, exilado, ganhava a vida cantando. Devido à proibição dos seus discos em Portugal, esta música foi editada no nosso país com a voz de Adriano Correia de Oliveira.
Luís Cília nasceu no Huambo, Angola, em 1943. Veio para Portugal com 16 anos. Começou a dedicar-se à música em 1962, depois de conhecer o poeta Daniel Filipe. Dois anos depois, era obrigado a partir para Paris, onde se manteve até ao 25 de Abril.
Ao longo da sua carreira, gravou dezoito discos, sendo que o primeiro, «Portugal – Angola: Chants de lutte», foi publicado em França em 1964. Dele consta o referido «Canção Final, Canção de Sempre» e ainda outros hinos de resistência, como «Meu País», «Canto do Desertor» ou «Sou Barco».
De regresso a Portugal, após a Revolução, continuou a gravar como compositor e intérprete e a dedicar-se aos recitais. Consagrou alguns dos seus discos a poetas como Eugénio de Andrade, Jorge de Sena ou David Mourão Ferreira.
Nos últimos anos tem-se dedicado apenas à composição, nomeadamente para Teatro, Bailado e Cinema.
Memórias da Revolução – 3 de Abril de 1974
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O «JN» de 3 de Abril de 1974 noticia a morte do presidente francês Georges Pompidou após algumas semanas de doença. Entre 1962 e 1968, foi primeiro-ministro francês, passando a ocupar o lugar de Presidente da República a partir de Julho de 1969. A sua morte provocou de imediato uma disputada corrida à sucessão.
No «JN» deste dia, fala-se ainda do exorbitante preço dos livros e do caótico trânsito na cidade do Porto.
Logo à noite, no Estádio da Luz, a Selecção Nacional vai defrontar a Inglaterra em jogo particular.
Faltam 22 dias para a Revolução.
Memórias da Revolução – 2 de Abril de 1974

A 2 de Abril de 1974, o «JN» noticia que o Lord Mayor foi recebido pelo chefe do Governo. Sir Murray Fox era então o detentor de um cargo criado em 1189 e cuja principal função é a administração da cidade de Londres. Distingue-se do Mayor de Londres, que tem a seu cargo uma área mais abrangente.
O Ministro das Corporações e Segurança Social, Silva Pinto, estava em Madrid para participar no Colóquio Hispano-Português de Medicina, Higiene e Segurança no Trabalho. Um Ministro que começou por ocupar o lugar de Subscretário de Estado das Obras Públicas, entre 1968 e 1970, e que, até ao 25 de Abril, liderou o referido Ministério. Depois do 25 de Abril, viria a ser militante do Partido Socialista, tendo chegado mesmo a ser Deputado durante a VI Legislatura.
A nível internacional, grandes inundações no Brasil provocaram 4 mil mortos.
Faltavam 23 dias para a Revolução.
Memórias da Revolução – 1 de Abril de 1974

O mês de Abril, no «Jornal de Notícias», iniciava-se com o rescaldo do Sporting-Benfica da véspera. O Benfica fora a Alvalade vencer por 5-3, mas iria acabar por perder o Campeonato Nacional para os rivais da Segunda Circular. No camarote presidencial, uma personalidade que chegara de surpresa. «O senhor professor Marcello Caetano, adepto do desporto, assistiu ao jogo acompanhado dos senhores professores Veiga Simão, ministro da Educação Nacional (…) e dos senhores Borges Coutinho e João Rocha. O presidente do Conselho foi alvo de calorosa manifestação do público que, de pé, o saudou entusiasticamente». Convém dizer que a presença de Marcello Caetano fora omitida nos dias anteriores, para que não houvesse problemas.
Ainda nesse dia 1 de Abril, o «Jornal de Notícias» noticiava a Maratona do Ritmo, que se realizara no Porto e que culminara com a vitória de um tal de Quim, o «Cubillas do Tango».
Nas Antas, diz o «JN», Cubillas e Crujff iriam estar reunidos numa sessão publicitária, ao mesmo tempo que na Avenida dos Aliados estavam a decorrer gravações do filme «Simplesmente Maria». Eram as duas mentirinhas de 1 de Abril.
Faltavam 24 dias para a Revolução.
Porque é Abril!
Porque é Abril e aproxima-se o dia mais belo da democracia portuguesa, aqui no Aventar vamos seguir o bom exemplo de Maria João Pires nos tempos do «5 Dias» e consagrar o mês que hoje se iniciou à Revolução do nosso contentamento. Um «post», pelo menos um, evocará diariamente a memória do 25 de Abril. Um dia que está bem vivo no coração de todos aqueles que amam verdadeiramente a liberdade e a igualdade. Um dia que, infelizmente, está morto e enterrado para aqueles que detêm e que detiveram o poder em Portugal nos últimos 35 anos.
Convém não esquecer todos os heróis que lutaram pela liberdade. Convém não esquecer todos os parasitas que viveram e vivem à custa de uma liberdade conseguida por outros. E enchem a boca com a palavra liberdade e com a palavra Esquerda! Convém não esquecer todos os execráveis energúmenos que não descansaram enquanto não despedaçaram as conquistas de Abril. Tenhamos momentos de lucidez suficientes para denunciá-los.
Sabem de quem eu estou a falar. E nós, aqui no Aventar, também sabemos. Haverá surpresas em breve.
(imagem retirada de in wehavekaosinthegarden.blogspot.com)






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