00h20 – Nos estúdios da Rádio Renascença, situados na Rua Capelo, ao Chiado, Paulo Coelho, que ignora os compromissos assumidos pelos seus colegas do programa Limite, lê anúncios publicitários. Apesar dos sinais desesperados de Manuel Tomás, que se encontra na cabina técnica acompanhado de Carlos Albino, para sair do ar, o radialista prossegue paulatinamente a sua tarefa. Após 19 segundos de aguda tensão, Tomás dá uma “sapatada” na mão do técnico José Videira, provocando o arranque da bobine com a gravação que continha a célebre senha: a canção Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso.
in http://www.instituto-camoes.pt/revista/cronologia.htm
00.20 – Segunda senha: Grândola Vila Morena
22.55 – Primeira senha: E Depois do Adeus
22h55 – Primeira senha: João Paulo Dinis anuncia aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa: Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, «E Depois do Adeus». Era o primeiro sinal para o início das operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armadas.
Memórias da Revolução: 24 de Abril de 1974
Ontem, dia 23 de Abril de 1974, o norte do país esteve isolado do mundo. «Caiu uma faísca no cabo coaxial Porto – Lisboa», refere o «Jornal de Notícias».
Notícias do mar. Na Póvoa, os habitantes viram roubar mais de trinta quilos de ouro, num valor total de seis mil contos. Na Costa Verde, reclamam-se as praias que o mar está a fazer desaparecer.
A nível internacional, Brejnev recebeu Kennedy. Miterrand, por sua vez, faz namoro ao voto das mulheres.
Hoje, dia 24 de Abril, o Império está mais calmo do que nunca. O Governo ocupa-se de medidas a tomar quanto ao funcionalismo público. O tema dominante da reunião do Conselho de Ministros, no entanto, foi a inflação. Decidiram ainda os ilustres ministros reorganizar o sistema de previdência da classe médica.
O «Jornal de Notícias» anda revoltado com o aumento do preço dos telefones. Um aumento que é comparado à extorsão dos produtores de petróleo.
Cresce o porto de Leixões: Novas esperanças para a Barra do Douro.
Na campanha para as presidenciais francesas, o «eterno feminino» está bem presente. Num atentado contra Sadat, morreram 24 pessoas. Faleceu Franz Jonas, presidente da Áustria.
Tudo parecia calmo no império, mas alguns – poucos – capitães já estavam com o coração aos saltos. Era nessa noite. Faltava um dia para a Revolução.
Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (O primo António e a prima Aurora, ou os Açores na rota da conspiração)*
E como foi combinado o telegrama em código que vos avisaria do golpe?
Em determinada altura houve uma visita de estudo aos Açores, de um grupo de coronéis acompanhados por um capitão do Movimento, um capitão da Força Aérea, o Estevinho. Eles visitaram Ponta Delgada. Eu andei-lhes a servir, em certa medida, também, de cicerone, lá no Quartel-General e no contacto com o Estevinho pedi-lhe:
“Olha, faz-me um favor. Chegas lá, contactas o Otelo e dás-lhe este código.
E combinei, então, com o Otelo, precisamente, através desse capitão
Estevinho, que ele me enviaria um telegrama, para a direcção da sogra
do Melo Antunes…
Era o célebre “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António.”
Exacto. Ele só teria que preencher o nome do país, o dia e a hora. E garantir que efectivamente havia esse voo. O que nos interessava era
a data e a hora, para sabermos quando é que se iniciava o golpe.
E, ao recebermos o telegrama, no dia 24 de Abril, soubemos que às 3 horas da manhã do dia seguinte, 25, tudo ia começar.
Preparámo-nos para intervir, em caso de necessidade. O Melo Antunes tinha-me dito que havia suspeita de que Marcelo Caetano mantivesse o plano de Salazar para, em caso de golpe militar em Portugal, retirar para Ponta Delgada e pedir o apoio dos Aliados.
Com a agravante de o fazer em território nacional. Por isso, tínhamos
que nos preparar para essa eventualidade.
Na altura, apenas disse ao Melo Antunes: “Só ponho uma condição, o comandante da força que vai receber o Marcelo ao aeroporto sou eu. Nada me dará mais prazer que telefonar ao Otelo e dizer-lhe que o Marcelo já está preso, já não constitui problema”. Infelizmente Marcelo
não fugiu para os Açores… mas ainda bem que tudo se resolveu aqui
e depressa…
O nosso plano passava por eu e o Melo Antunes prendermos o almirante
comandante militar, assumindo o comando do Quartel-General.
As duas unidades de São Miguel estariam do nosso lado, o Regimento através dos elementos do Movimento que lá se encontravam, prenderiam o comandante e o segundo comandante, hostis ao Movimento, a bateria de Artilharia, através do seu comandante, aceitaria cumprir as ordens que recebesse do Quartel-General, pelos canais normais, sem querer saber quem lhas dava.
Admitimos, então, três hipóteses: isto, aqui no Continente, não se resolvia logo, nós assumíamos o controlo de São Miguel, declarávamos
a nossa participação no golpe de Estado em marcha e, com isso, influenciávamos a decisão a favor do Movimento; isto corria mal, os militares do Movimento eram presos, nós faríamos uma acção tipo suicida, controlando São Miguel e exigindo a libertação deles. Pretendíamos com isso, acima de tudo, provocar um grande escândalo internacional, denunciando a situação de ditadura que se vivia em Portugal; o Marcelo conseguia fugir para Ponta Delgada e, aí, eu esperá-lo-ia, no aeroporto…
E não se passou também o mesmo na Guiné? O MFA, na Guiné, não tinha também decidido que se o golpe falhasse aqui no Continente,
lançaria, 24 horas depois uma ofensiva, no sentido de pressionar
o Governo para acabar a guerra?
Sim, sim. Sem coordenação prévia. É sinal que nos guiávamos mais
ou menos pela mesma cartilha. Mas, na Guiné, face às condições existentes, até admitiam fazer avançar uma força para aqui.
E em Angola e Moçambique não tomaram a mesma decisão?
Não, porque quer em Angola, quer em Moçambique, a dificuldade de intervenção era muito maior.
Voltando aos Açores…
Como estava previsto, o telegrama chegou. Cerca das 18 horas do dia
24 de Abril, o Melo Antunes regressa ao Quartel-General, manda-me chamar e entrega-me um papel. Estou a vê-lo… Mais tarde, vim a saber
que, ao chegar a casa, a Gabriela, sua mulher, lhe disse: “Oh Ernesto,
quem é o primo António? E quem é a tia Aurora? Recebi aqui um telegrama para a minha mãe, ela está nas Furnas, já lhe telefonei a lê-lo, não percebo nada!” “Então, eu não te disse que havia de chegar esse telegrama, que é para mim?!” “Oh, esqueci-me…”
Pois bem, olho para o papel e digo: “Mas é esta noite! Ainda bem que estou de oficial de dia…” De facto, estava de oficial de dia, por acaso em pagamento de uma troca com outro oficial, para me permitir ir jogar um torneio de bridge. Coincidências felizes…
De imediato, avancei com o planeado. Chamei o tenente do regimento,
que me apareceu em fato de treino, pois andava a fazer jogging, mandei-o avançar, e chamei o aspirante miliciano que me fazia a ligação com os milicianos do Quartel-General. Era o David Lopes Ramos, hoje jornalista, a quem, depois do jantar perguntei: “Oh Ramos,
você sabe rezar?” “Porquê? Porque me pergunta isso?”, diz-me com
ar surpreendido. “Porque, se soubesse, mandava-o rezar!” “Não me diga! Não me diga que é hoje!”, responde-me ele, a tremer. “Sim, sim,
é esta noite. Vamos embora preparar tudo…”
Imagino o nervosismo e a ansiedade dessas horas de espera…
Foram momentos de uma tensão muito grande… porque, entretanto, a vida corria normalmente. Fiz o recolher, fui a cada caserna ver, exactamente, onde é que estava cada homem a dormir. Nunca devo ter
feito um serviço tão rigoroso. Entretanto, dei a minha pistola de oficial
de dia ao Melo Antunes que não tinha arma, e fiquei a fazer o serviço
de pistola-metralhadora, que era uma coisa um pouco estranha, mas
eu achei que ele, Melo Antunes, não devia ir para casa sem ir armado.
Depois do recolher, fiquei no meu gabinete e comecei a pensar: “Como
é que eu faria, se estivesse lá a dirigir as operações, se estivesse no lugar do Otelo?” Bem: “A primeira das coisas a fazer era ocupar uma estação de rádio e, a partir daí, utilizar essa estação de rádio para enviar mensagens, quer para a população, quer mesmo para os militares envolvidos no golpe. Pode ser que o Otelo tenha a mesma ideia.” Para além de não saber se o Otelo teria, de facto, essa ideia, não sabia se, em caso afirmativo, qual a emissora que utilizaria. Pus-me, portanto, a correr os vários postos, à procura, sozinho, no gabinete do oficial de dia. Havia uma diferença horária, entre o Continente e São Miguel de duas horas.
Cerca das 2h35, “caio” num posto que, estando a transmitir música, se
ouvia muito bem, admito que seja um posto português, espero pelo fim
da música. Termina. Começa o locutor a falar, verifico que não é um posto português e vou correr, rapidamente, para outro que eu sabia que era português. E apanho o primeiro comunicado do MFA, quase no
fim. Aí a dois terços. Vejo logo que, efectivamente, as coisas já tinham
começado, mas fico na dúvida. Este comunicado de quem é?
O fim do comunicado não era muito explícito. Apelava às pessoas para
se manterem em casa. Apelava aos médicos para acorrerem aos hospitais, e eu fiquei sem a certeza de quem seria o comunicado. E devo confessar que no fim, aquela marcha militar (que, mais tarde, se veio a transformar na marcha do MFA) não me adiantou de muito. Passei ali dois ou três minutos que me pareceram uma eternidade, sozinho, a passear de um lado para o outro, tipo fera enjaulada. Absolutamente desvairado, sem saber o que é que se estava a passar, até que, a certa altura, pára a música e ouço: “Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.”
Dou por mim aos saltos, aos berros. “Já ganhámos, já ganhámos!”
A partir daí, tive a convicção absoluta de que tínhamos ganho. Se de
facto, já estávamos com uma estação de rádio nas mãos, era sinal de que isto estava a correr bem e não podia falhar. Pronto, foi uma convicção ínt
ima, absoluta e inabalável.
E como é que correu o resto da noite em Ponta Delgada?
Bem, a partir daí, chamei, imediatamente, o tal aspirante Ramos.
Ele foi às 3 ou 4 da manhã, para o quartel, ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc. Entretanto, eu tinha preparado o tal tenente (Melo Cabral) para ocupar a unidade. E também o comandante da Bataria de Artilharia.
Tinha-lhes dito que ia ser nessa noite. Depois, mandei chamar o Melo
Antunes que, tinha ido para casa dormir (o casarão da sogra) e não se
conseguiu acordar. Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e nada. A certa altura, disse ao David Ramos: “Vá lá a ver se consegue acordar o Melo Antunes e se o traz.” Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o Melo Antunes só me apareceu pelas 7 ou 8 da manhã, finalmente acordado pelo telefone, que tocou toda a santa noite! Depois, foi continuar a controlar a situação.
Sem problemas de maior, presumo!
Sim, mas com pequenos incidentes. Por exemplo, quando, depois de “passar a pasta” ao oficial de dia que me rendeu, me dirijo para as minhas instalações, já com a pistola à cintura (o Melo Antunes já ma
devolvera), encontro um capitão espúrio, ex-miliciano portanto, que eu não conseguira envolver no Movimento. Era um tipo amorfo, que não constituía perigo, mas também nunca se envolveria.
Encontrámo-nos numa das ruas interiores do Quartel-General, e ele,
preocupado, pergunta-me: “O que é que se passa? O que é que se passa em Lisboa?” “O que é que se passa? Sei lá!”, respondo com ar sério.
“Tu sabes! Tu sabes e não me queres dizer. O que é que se passa?”
“O que é que queres que se passe?”, digo, já com outra voz. “Fomos nós, o Movimento, que tomámos conta da situação! Foi esta noite!”
Aí, vejo o homem respirar fundo e desabafar: “Ainda bem! Ainda
bem que eu lá não estava!…”
Bom, ia-me passando. Enquanto levava a mão à pistola, fazendo
o gesto de a sacar, dizia-lhe: “O quê?! Então eu dava, sei lá o quê, para lá estar e tu dizes-me isso?! Eu mato-te! Eu dou-te um tiro!”
Ainda hoje me rio, quando recordo o seu ar assustado, a gritar: “Não! Não!” e a fugir, sem ouvir as minhas gargalhadas.
Ainda no dia 25, quando chega um outro major, açoriano, que estava no Quartel-General, chamámo-lo para lhe dizer: “Temos tudo preparado. Se for necessário prendemos o almirante e eu e o Melo
Antunes comandamos, qual é a tua posição?” “Tudo bem! Obedecer-
-vos-ei, sem problemas!”
O pior foi quando, no dia 26, analisámos a constituição da Junta de Salvação Nacional. Ainda ouço os impropérios que lancei…
Tirando isso as notícias eram favoráveis, tudo estava controlado, a correr bem, o almirante fez uma reunião com os principais oficiais, incluindo os comandantes das unidades. E, aí, aparece o comandante
do Regimento, a convidar-me para, um dia destes, visitar a unidade.
Mandei-o a um sítio esquisito, não lhe dizendo que ainda não fora preso, porque não se tinha mostrado necessário. Nessa reunião, o almirante deu instruções para se estar atento ao evoluir da situação no Continente.
E foi já no dia 26 que, vendo que ele nada decidia, eu e o Melo Antunes lhe exigimos nova reunião, para definir a nossa posição. O almirante começa por afirmar que não pode tomar posição, pois não sabe o que se passa, não conhece o Programa do MFA. Foi aí que o surpreendi, ao exibir uns papéis: “Tem aqui o primeiro rascunho do Programa. O que foi anunciado não é muito diferente deste!” E, perante
as suas hesitações, continuo: “Oh, senhor almirante, vamos ver se compreende a situação. Tem à sua frente dois dos principais responsáveis do Movimento. Tome uma decisão!” “Bem, eu sabia que vocês eram importantes no Movimento, mas…” “Não éramos, somos! Tome uma posição e não nos obrigue a atitudes drásticas! O senhor ainda não foi preso, porque não foi necessário. Mas, por favor, decida-se!”
E, aí, o almirante afirma: “Eu obedeço a toda e qualquer ordem da Junta de Salvação Nacional.”
Olhei para o Melo Antunes, acenámos afirmativamente: “Muito bem! Serve perfeitamente!”
A partir daí, acatou a nova ordem sem qualquer resistência?
Sim. Depois daquela hesitação, aceitou. Ainda que me tivesse pedido que o pusesse em contacto com o Posto de Comando do MFA.
O que deu origem a nova situação cómica. Ligo para a central dos telefones – recorde-se que nem havia telemóveis, nem as chamadas
eram directas, tínhamos de pedir à operadora que fizesse a ligação – e peço para me ligarem ao Posto de Comando do MFA. Passado algum tempo, respondem-me da Cova da Moura, falo com o major Foitinho, e peço-lhe para chamar o Otelo, o Victor Alves ou alguém responsável. Diz-me que não está lá nenhum deles, pelo que lhe digo: “Muito bem, vou chamar o almirante comandante-chefe dos Açores e tu vais dizer-lhe que, a partir deste momento, ele passa a obedecer às ordens do capitão Vasco Lourenço e do major Melo Antunes.” “Quem, eu? Então, estás tu aí, dá-lhe tu as ordens! Eu é que lhe vou dar instruções, contigo aí?
Porque tu…” (Era-lhe difícil perceber porque, sendo eu da Direcção
do Movimento, era ele, um oficial das bases, como se diria hoje, a dar
uma ordem daquelas.) “Está bem, não faças perguntas, que eu mais
tarde explico-te. Agora, fazes o que te disse e pronto!” “OK, está bem!
Chama o almirante.”
Chamei o almirante e passei-lhe o telefone: “Senhor almirante, tem o Posto de Comando do Movimento em linha, faz favor.”
Ainda hoje recordo bem, a cena seguinte. Não ouvia o que diziam do outro lado, apenas via o almirante, agarrado ao telefone, a acenar
com a cabeça e a dizer: “Sim senhor, sim senhor! Muito obrigado! Muito
obrigado!”
Terminou o telefonema, agradeceu-me e, a partir daí, não fez nada sem obter o nosso acordo.
Confesso não me ter arrependido deste procedimento. Poderíamos ter actuado como o MFA fez na Guiné, termo-nos precipitado e prendido o almirante. Eu sei que as situações eram diferentes, eles estavam em guerra, tinham lá muitos oficiais do MFA e era impossível evitar a explosão que toda a tensão vivida provocou. Considero, no entanto,
que nós tivemos mais bom senso e evitámos transformar-nos em “heróis à força”. Eles prenderam o governador, o Bettencourt Rodrigues, talvez pudessem tê-lo evitado, mas não sou eu que me sinto em condições de atirar qualquer pedra.
Sim, sim. De qualquer modo, não me parecem comparáveis as situações. A Guiné era um teatro de guerra, e como tal, muitíssimo mais
delicado e perigoso, não é?
Sim, sim, era. A situação era bastante diferente, mas talvez mais fácil de controlar. Tenha-se presente que lá havia montes de oficiais do Movimento e tinham tropas muito mais operacionais. Mas, como costumo dizer, só vivendo a situação se pode ter opinião clara…
Por nós, quando me despedi do almirante, tive oportunidade de lhe responder, à sua afirmação de que eu tinha de me dominar mais (estava a lembrar-se da reunião em que eu o forçara a definir-se), que, um dia mais tarde, nos agradeceria o nosso bom senso e a nossa calma.
E o facto é que, três anos depois, num encontro que tivemos, recordei-lhe esta conversa e ele concordou e agradeceu-me. Bem, a partir dali, começámos a actuar. Desde logo, fomos tomar as instalações da PIDE/DGS e da Legião.
Com o tal coronel campeão de bridge…
À PIDE, telefonou-se e deu-se ordem aos agentes para se entregarem.
Foi perto do meio-dia de 26. O Melo Antunes disse-me: “Deixa-me esta para mim. Tenho sonhado imenso com ela!” “Sim, mas eu fico aqui no Quartel-General, com uma força pronta a avançar, ao menor sinal!”
E assim foi. O Melo Antunes foi com uma pequena forç
a e, passado
menos de uma hora, telefona-me: “Podes vir, está tudo calmo.”
A sede da PIDE ficava perto, no largo das Portas da Cidade, cheguei
e encontrei uma pequena multidão, que ia enchendo o largo. Ainda ajudei os populares que reclamavam e insistiam em arrancar do passeio o sinal de estacionamento privativo da DGS. Depois, subi ao primeiro andar, onde o Melo Antunes me mostrou as armas e os documentos que os agentes da PIDE lhe tinham entregue, podendo ver os olhares de pânico que estes lançavam para todos os lados. Fomos à varanda, com o largo já completamente cheio (calculo que mais de cinco mil pessoas) e é quando o Ernesto Melo Antunes me diz, com as lágrimas nos olhos:
“Nunca pensei! Isto é extraordinário, ver as Portas da Cidade cheias, com imensos jovens, a manifestarem-se, a gritar vivas à Liberdade! Isto, em Ponta Delgada, nos Açores, era impensável! Estamos a realizar-nos!”
À tarde, depois de um telefonema ao meu parceiro de bridge, fui eu
que me desloquei às instalações da Legião Portuguesa, para as receber.
À minha espera estava o coronel acompanhado pelo guarda das
instalações. De imediato, me põe o problema do guarda e da família.
Eles viviam nas instalações, como ia ser? Pensei um pouco e decido:
“Por agora, ficam aqui, depois, o comandante-chefe decidirá. Mas, para já, ficam aqui!”
Começámos a visita e, por duas ou três vezes, aparecem-me a espreitar nos corredores, a mulher e os filhos menores do guarda. O que o coronel aproveitava para me questionar: “Mas, o guarda, a família, coitados, não têm para onde ir…” À terceira ou quarta vez, passei-me. “Cale-se, com a questão do guarda e da família. Já lhe disse que, para já, ficam aqui. Depois, se verá. Porventura, nunca se preocupou com eles, mas agora quer armar-se em quê? Em bom samaritano? Nós fizemos o que fizemos, não foi para pôr uns desgraçados na rua! Se fosse ao contrário, se nós perdêssemos,
seria diferente, vocês teriam outro procedimento para connosco!”
“Mas, por que diz isso?”, pergunta-me o coronel aterrorizado. “Porquê?
Basta ver o que se passou no Chile!”
E, aí, vejo o coronel começar a tremer, a gaguejar e a balbuciar-me
“Não me diga! Não me diga, que me vai fuzilar!” “O quê? Você está
louco? Quem é que lhe falou em fuzilamentos? Está a ver, está a ver
como tem a consciência pesada?”
O pobre coronel lá recuperou e até ganhou ânimo para me dizer: “Eu
tenho aqui dois quadros que são meus. Posso levá-los?” “Oh homem”,
respondi-lhe, “tire tudo aquilo que é seu, ponha de lado e leve. Vai entregar-me as chaves e, depois, o problema será com o Comando Militar!”
“Obrigado, obrigado. Eu logo vi que isto ia acontecer, quando você me
disse que não ficava cá muito tempo.” balbuciava o coronel. Vim a encontrá-lo, passados vários anos, num torneio de bridge em Lisboa. Apresentou-me o filho, esse sim, um bom jogador de bridge.
Falou-me de um comunicado que fizeram.
Sim, como em toda a parte, também em Ponta Delgada apareceram,
de imediato, os oportunistas, os vira-casacas.
Neste caso, o responsável pelo Governo, não me lembro qual o cargo
específico, mas era o correspondente a governador civil, que fez um
comunicado a dizer que estava com o MFA, estava com a Junta de
Salvação Nacional.
Ora, uns dias antes, o homem havia recebido o ministro Veiga Simão
com toda a pompa e circunstância, manifestando-lhe publicamente toda a deferência, como membro do governo português. O que na altura deu nas vistas, considerado um exagero.
Perante isto, eu e o Melo Antunes decidimos fazer um comunicado, em
nome do MFA – terá sido o primeiro comunicado, depois dos operacionais na acção militar – onde desmascarávamos o oportunismo do fulano e nos manifestávamos contra os vira-casacas, apelando à vigilância dos democratas.
Mal contávamos, na altura, com a onda que se verificou, por todo o lado…
* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Portugal e a Memória: Guerra Colonial
Começa hoje e termina a 3 de Maio. Um conjunto de ciclos temáticos organizados pela Câmara Municipal de Torres Vedras e subordinados ao tema «Portugal e a Memória». A Guerra Colonial terá um destaque especial.
(mais informações aqui)
Entregar as colónias foi um disparate*


Depois de ver estas quatro fotos do Grande Hotel Beira-Moçambique, é impossível não dizer que a entrega das colónias foi um disparate e que o resultado está à vista. Afinal, aquela gente sabe lá governar-se a si própria! Para os mais destatentos, sempre se dirá que as duas fotografias de cima foram tiradas antes da independência e as duas de baixo em 2007.
Assim se prova que que a política colonial portuguesa era justa e estava no bom caminho. A limpeza, a alegria, o arranjo dos espaços exteriores, os relvados e uma piscina pejada. Em baixo, a destruição, a miséria, o abandono, o tribalismo.
Claro que em cima não se vê nenhum negro, apenas brancos das classes médias. Pelo que se vê em cima, o desenvolvimento fazia-se de e para os brancos. Mas isso são pormenores, não são?
* com Luís Moreira
Estamos de vermelho… porque é Abril!

A partir de hoje e até ao 1 de Maio, o Aventar está de vermelho. Porque é Abril.
É a nossa homenagem a todos os capitães e a todos os outros que fizeram o dia do nosso contentamento. O dia mais belo da história de Portugal.
Vasco Lourenço – Do Interior da Revolução (O Golpe Militar)*
As instalações para a reunião foram obtidas pelo capitão Bismarck, que por sua vez recorreu a um amigo que fizera a guerra com ele como oficial miliciano. O amigo cedeu-lhe a vivenda e mais, esteve à entrada da mesma, com a mulher e os quatro filhos (crianças) para despistar, para dar a entender a quem visse aquele movimento de tantas pessoas, que se tratava de uma reunião familiar. Ora acontece que, sem o dono saber, a sua irmã tinha utilizado essa vivenda para aí esconder material explosivo da LUAR. Mas o mais dramático é que, na sequência da prisão do Palma Inácio, em 22 de Novembro, dois dias antes, haviam sido feitas outras prisões de elementos da LUAR, entre os quais a irmã do nosso anfitrião. Que, nesse dia 24, ao mesmo tempo que se realizava a nossa reunião, estava a ser interrogada e torturada pela PIDE/DGS que pretendia saber onde ela guardara o tal material explosivo. A senhora portou-se muito bem, não lhes deu qualquer informação, e foi essa a nossa sorte. Está a ver o que teria acontecido se ela falasse e lhes indicasse a vivenda, e eles lá fossem, provavelmente desprevenidos, e dessem com cerca de quarenta oficiais, a maioria deles armados!
Ainda me lembro que, quando estávamos a estacionar os carros, nas proximidades da vivenda, o capitão Francisco me chamou, abriu o porta-bagagens e disse-me: “Oh Vasco, isto hoje vai à bazucada! Se eles aparecerem, levam com isto!” E apontava para duas bazucas e algumas granadas! Eu reagi de imediato: “Estás louco? Isto hoje vai à bazucada?!”
Está a ver o ambiente previamente vivido. Agora, com a enorme animação, mesmo exaltação, que se viveu durante a reunião, teria sido lindo, se os pides aparecessem…! Desconfio que não saía de lá nenhum ileso. Com as inevitáveis consequências que isso provocaria…
É extraordinário o que me conta! Porque revela os vários caminhos e as várias frentes de luta que conduziram ao 25 de Abril, assim como o contributo de muitas pessoas, tantas anónimas, para esse objectivo. Mas revela também a importância do factor sorte nos encontros, mas também nos desencontros, como foi o caso…
Aliás, essa vivenda tem uma história. Já em 1969 alguns oficiais da Armada, que se vieram a integrar no Movimento, através do Pereira de Bastos, familiar dos proprietários, a tinham utilizado para lá passarem o filme Couraçado Potemkin, proibido pela censura…
Vamos então à reunião…
Vem a ser uma reunião bastante importante, onde é feito o ponto de situação, relatada a evolução do Movimento até ali, a cisão que tinha havido, e é dito que aquela Comissão Coordenadora provisória, que tinha saído de Alcáçovas, estava dissolvida. Nós considerávamos que tinha terminado as suas funções e, portanto, era necessário escolher uma nova Comissão Coordenadora. Bem, e então decidimos que seria necessário convocar uma grande reunião onde estivessem praticamente presentes delegados de todas as unidades do país.
Mas é também muito importante por uma outra razão: é onde surge o tenente-coronel Luís Ataíde Banazol. Aparece, de forma bastante radical, mesmo brusca, a pôr a questão nestes termos: “Vocês andam para aqui a perder tempo com papéis, assinaturas para aqui, abaixo-assinados para acolá. Isto não vai lá com papéis, não vai lá com assinaturas. Isto só vai com um golpe militar. Há que fazer rapidamente um golpe militar. Bem, e eu quero dizer-vos que estou mobilizado, estou a formar batalhão em Évora. Vim aqui com o meu segundo comandante. Se não houver outra maneira, nós pegamos no batalhão, tomamos conta de Évora e avançamos sobre Lisboa e, como isto está tão podre, vai cair, porque todas as outras unidades vão aderir. Isto está podre, o Governo vai cair. Nós vimos direitos a Lisboa e vamos difundindo uma espécie de comunicado, um panfleto sobre a situação e sobre o que é necessário fazer.”
Uma acção com algumas semelhanças com o falhado golpe de Beja
em 1961…
Bem, como calcula, aquilo caiu que nem uma bomba. Autenticamente que nem uma bomba. Um burburinho dos diabos, uma grande confusão. Como moderador da reunião, tento serenar os ânimos, e decreto um intervalo, onde poderíamos acalmar, discutir, desanuviar…
Recordo que dou comigo a desabafar para o Luís Macedo: “Eh pá, isto de facto é espantoso. Ando eu aqui há não sei quanto tempo a falar na hipótese de fazer um golpe militar e ninguém me dá ouvidos. Porquê?
Porque sou capitão, igual aos outros. Chega aqui um tenente-coronel que ninguém conhece de lado nenhum” – apenas era conhecido de dois ou três que o tinham lá levado, nomeadamente, o Piteira Santos que era um capitão que estava em Évora – “chega aqui um tenente-coronel, atira com a hipótese de um golpe militar e toda a malta desata a bater palmas, só porque é tenente-coronel.”
Mas então, como é que controlaram a situação?
A verdade é que o Banazol abusou, digamos assim, dos galões de tenente-coronel para chegar a uma reunião de capitães e de majores e atirar uma bomba para cima da mesa. E, de facto, aquilo agitou e a maior parte da malta começou a pensar em termos de golpe militar em vez de andar às voltas com os documentos.
Bem, e desde logo ali foi decidido marcar uma reunião para oito dias depois, onde deviam estar delegados de todas as unidades do Movimento. Esses delegados, além de levarem a indicação de quantos elementos representavam, deviam responder a quatro questões:
Primeira – Qual das três hipóteses de acção apoiavam?
a) “Conquista do poder para, através de uma junta militar, criar no país as condições que possibilitem uma verdadeira expressão nacional”, tenho aqui entre aspas “Democratização”.
b) “Dar oportunidade ao Governo de se legitimar perante a Nação através de eleições livres, devidamente fiscalizadas pelo Exército.”
(Sabíamos bem que livres, livres, só se nós as fiscalizássemos.) “Precedidas
de um referendo sobre a política ultramarina.”
c) “Utilização das reivindicações exclusivamente militares como forma de alcançar o prestígio do Exército e de pressão sobre o Governo.”
Segunda – “Devemos circunscrever o problema só ao Exército ou devemos alargá-lo a todas as Forças Armadas?”
Terceira – “Como deve ser constituída a Comissão Coordenadora?
Por quem e quais as suas funções?”
Quarta – “Para a solução escolhida, acha que se deve contactar algum chefe? Em caso afirmativo, quem?”
Para além da informação sobre o Movimento, foi esta a agenda definida e para que pedimos respostas. É evidente que isto mostrava já um avanço qualitativo extraordinariamente grande. Foi bastante importante, de facto, a presença do Banazol para agitar as massas e para levar, desde logo, a uma aceitação do golpe militar como hipótese e que nós difundimos depois por todas as unidades. “Tragam-nos respostas a isto para Óbidos.” Organizámos, então, a reunião de Óbidos que, juntamente com mais meia dúzia foi das mais importantes.
Já agora, quais foram as outras mais importantes?
Se quisesse definir uma classificação de importância das reuniões, englobaria nas mais importantes: Alcáçovas, em 9 de Setembro de 1973; a tetrapartida na zona de Lisboa, em 6 de Outubro de 1973; São Pedro do Estoril, em 24 de Novembro de 1973; Óbidos, em l de Dezembro de 1973; Caparica, em 5 de Dezembro de 1974; Cascais, em 5 de Março de 1974. São talvez estas as fundamentais, a que acrescentaria, aliás, a realizada em casa do coronel Marcelino Marques em Lisboa, a 5 de Fevereiro de 1974, e a realizada em casa do capitão Candeias Valente, em Lisboa, a 24 de Março de 1974. Mas nesta, já não estive, porque tinha sido chutado para os Açores.
* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Jaime Neves
Brilhante, é a palavra certa para definir o artigo de opinião de Freitas do Amaral hoje, na Visão (pág. 28):
“(Jaime Neves) cumpriu o seu dever. E não exigiu recompensa. Ninguém o ouviu em 1975-76 fazer declarações políticas ou de bravata pessoal. Não deu entrevistas (que me lembre), nem escreveu livros tardios a rebaixar ou a atacar camaradas de armas. Guardou silêncio durante 33 anos. Não se lhe ouviu uma gabarolice, nem uma crítica, nem um queixume (…)É fácil imaginar, por algumas reacções infelizes de agora, os obstáculos que então se terão levantado. Já desde Camões sabemos como a inveja é uma infeliz característica dos portugueses (…) foi feita justiça” (igualmente AQUI)
Memórias da Revolução: 22 de Abril de 1974
Ontem, o «Jornal de Notícias» noticiava um pavoroso incêndio na Reitoria da Universidade do Porto. «Um pesadelo enquanto a cidade dormia». Do Salão Nobre e do Arquivo Geral, só restam cinzas. Da primeira página, pouco mais há a reter, a não ser uma pequena referência ao almoço em Belém dos membros do Governo com o chefe de Estado.
Hoje, 22 de Abril de 1974, continua sem se saber a origem do fogo que destruíu parte da Reitoria da Universidade do Porto.
No Campeonato Nacional de Futebol, Benfica e Setúbal apertam o cerco ao líder Sporting. Yazalde e Dinis, lesionados, não vão a Magdeburgo.
A nível internacional, sobe a cotação de Miterrand na campanha para as eleições francesas. A Gioconda está no Japão. 10 segundos é quanto cada visitante tem para olhar para ela, tão grande é o número de curiosos.
Faltam 3 dias para a Revolução.
Vasco Lourenço – Do Interior da Revolução (A Kaulzada)*
A ideia era a eliminação física de Spínola e Costa Gomes?
É mais natural que fosse só eliminação política ou militar… Não sei exactamente. Nunca conseguimos definir isso porque, felizmente, as coisas não avançaram nesse sentido. Portanto, o Sousa e Castro vem em pânico e diz-nos: “Pronto, a situação é esta, pá. Tenho aqui o documento que o homem nos entregou para justificar o alto patriotismo do Kaúlza.”
O facto é que a situação era altamente perigosa. A nossa precária
organização, a grande indefinição ideológica, que ainda se verificava,
obrigavam a uma actuação rápida, sem recorrer a grandes reuniões…
Bem e o que é facto é que decidi não reunir a Direcção e actuar de
imediato. Combinei com os elementos que estavam nessa subcomissão
do estudo de situação, que eram capitães da minha inteira confiança,
fazer abortar o golpe. Rapidamente, contactei um capitão que estava no Estado-Maior General das Forças Armadas, a quem já tinha pedido, em tempos, para me preparar uma entrevista com o Costa Gomes…
Quem era esse oficial?
O capitão Machado de Oliveira. Pedi-lhe: “Arranja-me, com urgência,
para ontem, uma audiência com o general Costa Gomes.” Passado pouco tempo: “Pronto. Recebe-te amanhã.” Era numa sexta-feira, avancei para falar com o general Costa Gomes. Lembro-me de que levava uma pistolazita pequena, e quando cheguei pedi para ma guardarem, para não ir para o gabinete do Costa Gomes armado, e, então, tenho uma conversa com ele. Não o conhecia, ele também não me conhecia de lado nenhum. Disse-lhe ao que ia: “Estou aqui para lhe denunciar um golpe militar que está em marcha, um golpe de Estado dirigido por estes quatro generais. Portanto, a situação é esta: O senhor e o general Spínola são os dois inimigos principais a eliminar, não sabemos se fisicamente se não. E nós estamos em pânico porque não sabemos que fazer e estamos sem capacidade de nos opormos a isto, portanto, é preciso fazer abortar isto imediatamente.”
Eu confesso que a reacção do Costa Gomes foi uma enorme desilusão: “Ah, muito bem, com que então um golpe!” E eu: “Estou a pensar falar com o general Spínola também. Vim primeiro falar com o meu general, agora penso falar com o general Spínola.”
“Sim senhor. Acho muito bem que fale também com o general Spínola. Sim senhor. Muito obrigado pela vossa confiança. Muito obrigado por ter vindo contar-me isso. Sim, senhor. Eu vou ver. Muito obrigado.”
Estou ali dez minutos e saio absolutamente aparvalhado e a pensar: “Mas o que é isto? Venho eu ao chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, trago-lhe estes elementos, há um golpe de Estado que está em marcha, quatro generais metidos, ele é um dos alvos principais a eliminar e recebe-me como se estivesse a tomar um cafezito, uma bica!”
Então e foi logo falar com Spínola?
Primeiro, encontro-me com o Fabião. Ele estava, na altura, a tirar o curso do EPOSE, em Pedrouços, ali no Instituto de Altos Estudos Militares. Era, aliás, o chefe de curso. E combinámos, então, um encontro. Ele iria de comboio até à estação de Pedrouços e eu iria buscá-lo lá. Fomos para a zona em frente dos Jerónimos, saímos com receio que pudesse haver algum microfone dentro do meu próprio carro, e conto-lhe:
“A situação é esta. Extraordinariamente grave. Eu preciso de falar com o Spínola. Você ponha-me imediatamente em contacto com ele.” Bem, eu já lhe contei qual era a minha relação com o Spínola. Nunca mais tínhamos falado…O Fabião foi à cabine telefónica que havia ali próximo, telefonou para casa do Spínola, que mandou dizer pela mulher que sim, que falava com ele, para o esperar na Cova da Moura.
Nós arrancámos para a Cova da Moura e ficámos dentro do meu carro à espera, no largo, quase em frente do portão. Passado um bocado, chegou o Spínola, que assim que me viu, não esconde o espanto: “Você aqui?” e o Fabião diz: “Oh meu general, aqui o capitão Vasco Lourenço precisa de falar consigo sobre um assunto importante.” E eu: “Oh meu general, vamos esquecer o que se passou porque neste momento, há um assunto mais importante do que tudo o resto. Está em marcha um golpe, quatro generais [e refiro os nomes], o senhor e o general Costa Gomes são os dois inimigos principais a eliminar. O general Costa Gomes, pelo passado dele e por 61; o senhor porque foi contactado pelo general Kaúlza de Arriaga para entrar no golpe e recusou, respondendo a certa altura, que tivesse cuidado, porque o senhor, só à sua conta tinha a Calçada da Ajuda toda.”
E o Spínola reage e diz: “Ai ele disse isso? Tem piada, mas isso é verdade. Eu, de facto, disse-lhe isso. Tem piada.” “Como vê, não estamos a inventar nada, o senhor confirma a conversa, portanto, nós
estamos a contar-lhe aqui o que é que se passa. E é preciso intervir. É preciso actuar. Eu já estive, ontem, com o general Costa Gomes, e disse-lhe que vinha falar consigo, ele achou muito bem.”
“Ah, já falou com o Costa Gomes? Ah, está bem, muito bem, sim senhor. Sim senhor! Bom, como vocês sabem, eu fui nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Eu vou tomar posse em princípios de Janeiro, lá para dia 10 ou 12… Vocês estejam atentos que eu vou tomar uma posição firme no meu discurso.” Eu olhei para ele e digo: “O quê, meu general?
Desculpe. Daqui a um mês? Tomar posse…?” “Sim, sim. Estejam descansados.”
“Não. Mas oiça, o que eu lhe estou a denunciar é um golpe que está em marcha. Pode ser amanhã. Pode ser daqui a dois ou três dias. Está em marcha. Qual daqui a um mês! Qual ir tomar posse!” “Estejam atentos que eu vou tomar posse. Pronto. Obrigado, prazer em vê-lo.
Prazer em vê-lo, oh Fabião.”
Bem, e foi-se embora. O Fabião e eu ficámos com cara de parvos a olhar um para o outro: “O que é que se passa? Mas que é isto? Que raio de generais é que nós temos? O outro, ontem, recebeu-me com um cafezito, e tudo bem. Este, hoje, manda-nos esperar pelo discurso daqui a um mês!
Eh pá, como é que é? Isto é o fim! Nós temos que fazer qualquer coisa porque isto assim não pode ser!” E diz-me o Fabião: “Bem, eu tenho uma possibilidade… Acho que temos que ser nós a fazer isto. Vamos fazer o seguinte: eu segunda-feira em Pedrouços, encarrego-me de denunciar publicamente o golpe. É o local óptimo, mais do que indicado.”
E eu digo: “Óptimo! Força! Você denuncia isso em Pedrouços e eu vou pôr a ligação a funcionar, dentro do possível”. E diz-me o Fabião: “O irónico é que nunca ninguém se vai convencer de que eu não vou fazer a mando do ‘Velho’, e ele nunca mais na vida me vai perdoar esta”. E, de facto, toda a gente ficou convencida de que isso fora iniciativa do Spínola. Quando não foi absolutamente nada.
O episódio é conhecido. Mas não resisto a pedir-lhe a sua versão, dada a extraordinária memória que tem…
Então, na segunda-feira de manhã, como estava combinado, na primeira aula que, ainda por cima, era uma aula com todo o curso presente (acho que eram para cima de duzentos majores que estavam a tirar o curso EPOSE, um estágio para oficial superior), o Fabião, que era o chefe de curso, quando chega o primeiro professor:
“Dá licença? Eu tinha uma informação para prestar ao curso.” E o professor convence-se de que é uma informação escolar: “Sim, senhor. Faz favor.” O Fabião levanta-se e diz mais ou menos isto: “Camaradas, quero informar-vos que, neste momento, está em marcha um golpe de estado liderado pelos generais Kaúlza de Arriaga, Joaquim Luz Cunha, Silvino Silvério Marques e Henrique Troni. Os dois inimigos principais a eliminar são os generais Costa Gomes e Spínola.” Bem, uma bomba no meio da sala, não teria provocad
o maior efeito. Aquilo foi, como calcula, o fim. Uma confusão dos diabos. Interromperam-se as aulas. Interrompeu-se o curso. Mandaram-nos todos para casa. Pronto, o Fabião foi corrido, depois, para o Distrito de Recrutamento de Braga. O Kaúlza negou, participou, queria que o Fabião fosse punido, enfim…
Ao mesmo tempo eu, na Trafaria, no BRT, que era a minha unidade, na sala de oficiais a fazer as ligações com as unidades e a gritar-lhes ao telefone: “Está em marcha um golpe militar do Kaúlza. Se acontecer
qualquer coisa não temos nada que ver com isso. Isso não é nosso. Alerta a malta toda que não temos nada a ver com isso, antes pelo contrário.”
Como disse, o nosso receio era que o golpe fosse lançado e houvesse
unidades nossas que aderissem, convencidas de que o golpe era o nosso.
* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Vasco Lourenço – Do interior da REvolução (O Regime reage)*
Qual foi o critério da escolha de quatro capitães para uma primeira admoestação por parte do regime?
Como já referi, eu era o coordenador de toda a ligação. O Antero Ribeiro da Silva e o Carlos Clemente eram dois dos meus elementos intermédios de ligação. O Martelo era o elemento de ligação em Águeda, na Escola Central de Sargentos. Houve lá um documento que eles não conseguiram destruir que tinha os nossos nomes e um oficial leva-o ao comandante. Há a participação para a Região Militar, vem para o Estado-Maior. E eles, com base nisso, resolvem transferir os quatro.
Levantam-nos um processo de averiguações e depois um processo criminal. A ideia era expulsarem-nos do Exército.
Bem, eu, no dia 8, por acaso, estou na carreira de tiro interna da minha unidade o BRT – agora BIRT – na Trafaria. Estava a treinar tiro de pistola, para os torneios internos da Região Militar e chegou a ordenança do comandante que me diz: “Meu capitão, o nosso comandante pede para ir ao gabinete dele.” Sensivelmente ao meio-dia. Bem, interrompi o tiro, e encontro-me com o comandante que estava com cara de comprometido e, ao mesmo tempo, preocupado. Sem me dizer nada, estende-me um papel, assim um pouco a medo. Era uma mensagem do Estado-Maior do Exército a dizer que eu, por razões de serviço, era transferido, imediatamente, para o Quartel-General da Zona Militar dos Açores, em Ponta Delgada. Olhei para ele e digo: “Mas, que é isto?! A que propósito?!” Ainda por cima, eu estava numa situação militar de inamovível.
Portanto, não podia ser transferido fora do meu serviço. E ele: “Recebi
esta ordem… é para seguir amanhã! O embarque é daqui a 24 horas.”
“Estão malucos! Estão doidos! Não vou! Não vou! Era o que faltava!
Não estou para os aturar! Não vou, não vou!” E começa o comandante:
“Eh pá, isso é uma chatice. É uma chatice. Se me dizes que não vais… Eu recebi essa ordem, eu tenho que a fazer cumprir. Portanto, se me dizes que não cumpres a ordem, eu … sou obrigado, regulamentarmente, a fazer-te cumprir a ordem. Portanto, como é que é?” Olho para ele e digo: “Então e se eu disser que vou?” “Bem, se disseres que vais… vais embora e amanhã vem cá buscar o bilhete do avião e a guia de marcha.”
“Então, eu vou. Eu vou.” Ele olha para mim: “Mas vai mesmo?” “Vou! Estou-lhe a dizer que vou!” “Mas vai mesmo?” “Oh homem! Já não é a primeira vez que isto acontece. Não me faça perguntas esquisitas para não receber respostas esquisitas! A minha posição para si é: eu vou!”
E, desta vez o “Baptistinha”, como o tratávamos, terá alternado mais que nunca o tratamento por tu e por você, que já costumava fazer…
A minha ideia era ir buscar a guia de marcha, mesmo que depois não fosse, para não comprometer o comandante. Era, de facto, a minha ideia quando saí dali. Bem, simplesmente, saí dali e fui, rapidamente, convocar uma reunião da Direcção o mais alargada possível. Entretanto, soubemos das outras três transferências. Foi em casa do Pinto Soares. Apareceu também o Antero Ribeiro da Silva, e decidimos fazer uma reunião à noite, da Comissão Coordenadora, com elementos da Marinha e da Força Aérea, em casa do pai do Luís Macedo. Mais uma vez fomos para a casa do brigadeiro, que mal sonhava que nós estávamos em casa dele a conspirar.
Eu estou a ver aqui o rascunho do Otelo. Havia vários pontos a discutir, mas o mais importante era o estudo da reacção a tomar face às retaliações que se estavam a verificar. Era o ponto fulcral da discussão. Duas posições fundamentais se levantam ali: Uma, “pronto, paciência… o importante é continuar a conspiração e a preparação.” Outra, “não senhor, não vamos deixar passar isto em branco e vamos fazer algo de muito duro, e responder à retaliação”. Eu e os outros dois (porque dos transferidos só não estava o Martelo) tentámos alhear-nos, digamos assim, da decisão, assumindo: “Nós aceitamos a decisão que aqui for tomada pelo colectivo.” Decidiu-se não ir: o Movimento iria raptar-nos e impedir o nosso embarque.
De quem é que surge essa ideia no mínimo original?
Francamente, não lhe sei dizer quem é que tem a ideia de que a solução seria raptar-nos – defendendo a posição individual dos transferidos, pois eles queriam ir mas não os deixavam –, evitar o embarque e no dia seguinte fazer uma concentração, às quatro da tarde, no Terreiro do Paço, junto do Ministério do Exército, todos fardados. E aí, lá vem a tal manifestação.
Aí decide-se mesmo fazer uma manifestação. Todos fardados de número um, com condecorações, tudo junto do Ministério do Exército, para forçar a revogação do despacho do ministro.
No entanto, os marinheiros presentes, (lembro-me que o Contreiras, era um deles), diziam que tinham muito boas relações com o Ministro da Marinha: “Nós temos boas relações com o Ministro da Marinha. O tipo é um gajo porreiro. Nós propomos ir falar com ele. Deixem-nos falar com ele.” Uma grande discussão. “Isso só vai alertá-los. Isso não…”
Mas depois de muita discussão, decidiu-se: “Pronto. Vão lá falar com o ministro da Marinha, mas isto não nos faz parar.” E eles foram falar com o ministro, foram-no acordar às 3 da manhã, e dizer-lhe qualquer coisa como isto: “Os oficiais do Exército não admitem essa situação. Vão-se opor a ela, portanto, para evitar problemas mais complicados, fale lá com o ministro do Exército e convença-o a revogar a decisão.”
Bem, eu saí dali, eram 4 e meia da manhã, dizendo-lhes que me informassem do evoluir da situação, com a decisão de às 7 da manhã, ser raptado, pelo Otelo. Cheguei a casa por volta das 5 e, está claro, como andava a cair de sono, adormeci profundamente Passada uma meia hora, acorda-me a minha mulher… Estava o telefone a tocar. Atendo e oiço do outro lado (e é bom frisar isto, porque eu e quem me estava a telefonar, sabia que o telefone estava sob escuta da PIDE).
“Daqui fala o Sanches Osório. Sai imediatamente de casa porque houve bronca.” “Houve bronca?” “Pois, aquela diligência da malta da Marinha.
Está tudo de prevenção rigorosa. As Forças Armadas entraram de
prevenção rigorosa, portanto, sai imediatamente de casa.” A prevenção rigorosa é uma situação militar que não existia em Portugal desde 1962, quando foi da tentativa do Golpe de Beja…
Permita-me aqui um parêntesis para falar da sua mulher, pois sei que pelo meio da conspiração ainda arranjou tempo para casar…
Sim, nós casámos em plena conspiração, a 29 de Setembro de 1973. Casámos num sábado e na segunda-feira estava a chegar a casa às 5 da manhã. Aliás, logo nessa primeira semana foram cinco reuniões conspirativas. Portanto, ela estava mais do que habituada a isso, assumia perfeitamente e apoiava-me bastante. Então e informou-a do que se estava a passar?
Sim, genericamente, para não a assustar demasiado. Dissera-lhe da decisão de me transferirem para os Açores, e quando cheguei da reunião, onde ela sabia irmos discutir o que fazer, disse-lhe “não vou! Vamos opor-nos à transferência.” E, ela “já calculava isso. Nunca
tive dúvidas, que era isso que iam fazer.” Bem, despedi-me, com a promessa de a contactar assim que fosse possível.
Saí e fui direito à casa do Otelo. Em vez de o raptor me ir raptar a mim, fui eu ter com ele. Chego a Oeiras, aí às seis e meia da manhã, e vejo um Mercedes lá perto da casa dele. Um Mercedes oficial, penso:
“Que é isto? haverá aqui algum problema? Terão vindo prender o Otelo
em vez de me irem prender a mim? Como é que é isto?!” Escondi-me
no carro, estive a observar, até que vejo sair um tipo lá de casa, meter-se no carro e arrancar. Logo de seguida chega outro Mercedes. Bo
m, eram dois fulanos ligados ao Governo, que viviam ali e que, devido à situação, também foram chamados. Deixei-os sair, lá toquei à campainha do Otelo. Ele aparece-me e quando lhe digo que ele também iria ser chamado à sua unidade, responde: “Sim, sim. Já me chamaram. Já me contactaram para me apresentar na unidade.” Isto porque, na situação de prevenção rigorosa, os efectivos estavam a 100 por cento nas unidades.
Daí que os que lá não pernoitavam, caso dos oficiais e sargentos, eram
imediatamente chamados. Fico ainda um bocado em casa dele, enquanto ele faz alguns contactos, e passado algum tempo, é o Monge que arranja um sítio para eu me esconder. Fui para uma casa desabitada de uma tia dele, em Miraflores, no mesmo prédio em que ele vivia.
Depois, apareceu-me o Dinis de Almeida, que estava colocado em Penafiel. Tinha recebido ordem para se apresentar imediatamente na
unidade. Como não regressou imediatamente, porque andou ainda aqui
na conspiração, foi punido e foi transferido para a Figueira da Foz.
Portanto, no 25 de Abril já não estava em Penafiel mas na Figueira da
Foz. Esta transferência, que já era a segunda do Dinis de Almeida, e as transferências motivadas pelo 16 de Março – nomeadamente dos
oficiais de Lamego – viraram-se claramente contra o regime e foram-
-nos bastante úteis. Em unidades onde o Movimento não tinha força
(caso do Regimento de Cavalaria de Estremoz), a ida forçada de oficiais
nossos para lá, permitiu a intervenção dessas unidades no 25 de Abril.
Como costumo dizer, ao castigarem-nos e transferirem-nos, ajudaram-
-nos a espalhar a conspiração…
Quanto ao Dinis de Almeida, arranjou-me comida, foi colher informações, e assim nos fomos mantendo em contacto, uns com os outros.
Rapidamente se chegou à conclusão de que não havia possibilidades
de fazer a tal manifestação que estava prevista. Porque os oficiais tinham ido todos para as unidades. E, face a essa nova situação, foi decidido, então, que os oficiais do Movimento fizessem manifestações – entre aspas – junto do comandante da unidade, mostrando o seu desacordo com o que se estava a passar, o apoio aos camaradas transferidos e a exigência da revogação da ordem do ministro.
Isso no dia seguinte? Dia 9?
No dia 9. Que era o dia do embarque e da manifestação. Entretanto,
o Pinto Soares, que estava de baixa no hospital, não tinha unidade que
o chamasse e não se apercebeu bem desta nova situação. De maneira
que, apareceu de farda número um (foi aliás o único) para a manifestação no Terreiro do Paço. Quando se inteirou do que se estava a passar, decidiu apresentar um pedido de demissão de oficial, por não concordar com a retaliação em relação aos capitães, na direcção da Arma de Engenharia.
Mas isso não foi uma atitude demasiado voluntarista?
Sim, mesmo quixotesca. Mas o Pinto Soares é um homem de carácter,
que preza muito determinados valores, é um homem para se atirar para
atitudes desta natureza. E daí, ficou, desde logo, denunciado… Era mais um a prender na primeira oportunidade, não é?
E essas manifestações junto dos comandantes chegaram a fazer-se?
Claro. E eu conheço em pormenor – porque me contaram – o que se passou na EPI. Em Mafra, havia, na altura, uns quarenta e dois ou
quarenta e quatro oficiais do Movimento. Que nomearam uma delegação de dois capitães e um tenente, com este, que era o Marques Júnior como porta-voz, dado que pertencia à Comissão Coordenadora. Foram falar com o comandante em nome dos outros todos. A Escola Prática de Infantaria de Mafra era a única unidade do Exército comandada por um brigadeiro. Normalmente, as unidades são comandadas por coronéis.
Era, de facto, uma unidade bastante importante. E a conversa passa-se, mais ou menos, desta maneira: “Meu comandante, queremos falar consigo, e a primeira questão é esta: nós estamos de prevenção rigorosa?”
“Pois, estamos de prevenção rigorosa.” “A ordem foi dada por quem?”
“Foi o ministro do Exército que deu a ordem, através da Região Militar.”
“Mas o meu Comandante sabe porque é que nós estamos de prevenção
rigorosa?” “Não, não sei.” “O meu comandante não sabe? Mas nós sabemos” Aí o homem começou: “Mas como é que é?! Eu não sei e vocês sabem? Então porque é que foi?” “É que houve três camaradas
nossos, três capitães do Movimento (falava-se sempre no Movimento)
que foram transferidos para as ilhas, por ordem do ministro do Exército,
e não embarcaram, porque o Movimento não os deixou embarcar.”
Vasco Lourenço esperem lá, eu não estou a perceber bem. Quem é que deu a ordem de transferência?” “Foi o ministro do Exército.” “O ministro do Exército, deu uma ordem, e houve três capitães que não embarcaram, que não cumpriram essa ordem?” “Pois… Quer dizer, eles até queriam cumprir mas o Movimento é que não os deixou.” “O Movimento?! Mas quê…”
“Os outros capitães… Os outros oficiais do Movimento não os deixaram.”
“O quê?! Mas vão contra uma ordem do ministro do Exército?!
Não, não estou a perceber nada disto.” “Sim, e nós estamos aqui para
dizer ao meu comandante que estamos de acordo com o Movimento em
ter impedido o embarque desses três oficiais e estamos contra a ordem
do ministro” “Hã? Mas como é que é? Vocês, oficiais da minha unidade,
não aceitam a ordem do ministro?” “Sim, sim. Mas, queremos frisar bem.
Não somos nós os três. Nós estamos aqui a falar em nome de quarenta
e quatro oficiais da unidade.” E, aí, o comandante começa a ficar aflito:
“Bem, mas então eu tenho que comunicar isso superiormente. Isso é muito grave. Eu tenho que participar superiormente.” “Pois, é precisamente por isso que nós estamos aqui, porque queremos que o senhor participe superiormente, exigindo a revogação da ordem do ministro.” Bem, aí o Comandante não se aguentou, desatou a chorar que nem uma criança.
Começou a ver o mundo dele todo a ruir…
Bom, o que é facto é que nós, os transferidos, decidimos reunir-nos em casa do Pinto Soares. Só dois, porque entretanto o Carlos Clemente
não tinha saído a tempo de casa e tinha sido apanhado pelo tenente-
-coronel Ferrand de Almeida, (o mesmo que vem a ter aquela cena no
Terreiro do Paço com o Salgueiro Maia, a quem se rende) que o leva até ao avião e ele embarca mesmo para Angra do Heroísmo.
Como estava tudo nas unidades, fizemos uma espécie de reunião pelo telefone, contactando os outros membros da Direcção e da Comissão Coordenadora. Optámos por nos entregar porque já tínhamos atingido os objectivos principais, já os tínhamos posto em situações complicadas, decretando uma medida excepcional de segurança, todos
aflitos, à nossa procura…
* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Memórias da Revolução: 20 de Abril de 1974
Ontem, dia 19 de Abril de 1974, o «Jornal de Notícias» revelava o novo chefe de Distrito do Porto, o Conselheiro Valente Leal. Na tomada de posse, promete «manter a ordem e a tranquilidade da vida pública». Presidiu à cerimónia o Ministro do Interior.
Américo Tomás, por seu lado, anda pelo vale do Mondego. Ontem, foi dia de visitar a Barragem da Aguieira.
A nível internacional, vai animada a campanha presidencial de França. Ainda em França, morreu Marcel Pagnol, dramaturgo e cineasta de grande nível.
Hoje, dia 20 de Abril, voltam a ser as eleições presidenciais o tema forte. Delmas e Miterrand vão à frente do pelotão.
Uma agência do BPA foi assaltada no Bombarral. Levaram três mil contos. Sarmento de Beires venceu o prémio «Barretina de Ouro».
Na Asembleia Nacional, discute-se a habitação de Angola e Moçambique.
Faltam 5 dias para a Revolução.
Convém não esquecer…
A iniciativa do Aventar é, logicamente, louvável e apreciável.
O lançamento de um livro é sempre um acontecimento relevante. A sua pré-publicação na blogosfera é, a todos os títulos, valiosa e para o blogue em um grande momento. Por isso o divulguei, também, no meu.
Porém, isso não invalida alguns considerandos. Não tanto sobre a obra mas antes sobre a sua personagem: Vasco Lourenço. Com a qual não simpatizo minimamente. Talvez por isso, ao ver o seu nome, rapidamente me veio à memória outra figura revolucionária: Vladimir Ilitch Lenine e o seu discurso de 1917 aos bolcheviques,
“Todo o poder aos sovietes pressupõe a completa transferência da administração e do controlo económico do país para as mãos dos operários e dos camponeses, a quem ninguém se atreverá a resistir e que, através da prática e através da sua própria experiência, depressa aprenderão a redistribuir adequadamente a terra, os produtos e os cerrais”.
Como se sabe, o que foi distribuído com afinco foi a pobreza e a fome. O nosso revolucionário de trazer por casa queria fazer o mesmo com especial denodo. Felizmente, tivemos todos muita sorte. O que convém não esquecer. Não apagar da memória. Pessoal e colectiva.
Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (O 16 de Março)*
O seu embarque é no dia 15, véspera do 16 de Março. Teve conhecimento, nesta altura, de preparativos, de encontros, de reuniões que decorreram, sensivelmente entre 11 e 16 de Março, com vista a um golpe?
Na altura, não tive conhecimento. Estava, de facto, relativamente incomunicável com o exterior. Posteriormente, soube que, efectivamente, a seguir à nossa prisão, começou a movimentação para avançar para a decisão final que se tinha já acordado em Cascais, que era o golpe militar.
Hoje sei relativamente bem o que se passou e tenho a minha teoria. Em primeiro lugar, importa ter presente que a minha saída de cena criou enormes problemas ao Movimento, em termos de ligação. A Comissão Coordenadora tentou agarrar a situação, mas não soube fazer frente à tentativa dos spinolistas, que viram ali a hipótese de recuperar da derrota que tinham sofrido, há poucos dias, na reunião de Cascais.
E, por isso, forçaram o golpe, sem estar ainda elaborado o programa político. Tiveram, então, influência o Monge e o Casanova Ferreira, que haviam chegado há pouco tempo da Guiné e vinham, como se costuma dizer, com o fogo todo no rabo. Queriam, à força, fazer rapidamente qualquer coisa…!
A essa desorientação e desorganização acrescenta-se a demissão de Costa Gomes e de Spínola, no seguimento da Brigada do Reumático. Estão, portanto, criadas condições para uma tentativa de golpe não planeado, feito em cima do joelho, destinado a falhar. A Direcção divide-se, o Victor Alves não concorda, a Comissão Coordenadora divide-se, só dois ou três elementos acompanham Otelo, a ligação não funciona, não há coordenação com as unidades e o falhanço é total.
E o facto é que apenas o Regimento das Caldas da Rainha avança, convencido de que Lamego e Viseu já vinham por aí a baixo e outras unidades contactadas em cima da hora, não avançam por razões várias.
Como, por exemplo…
Quando contactaram a Escola Prática de Infantaria em Mafra, encontram-na em exercícios de campo. Apesar disso, quando a unidade recebe ordem da Região Militar de Lisboa para mandar avançar uma força, para fazer frente à que vinha das Caldas da Rainha, os oficiais do Movimento fazem com que o comandante dessa força seja um deles, que vem “navegando à vista”, como se costuma dizer, para ver como as coisas se iam passando. Quando contactam a Escola Prática de Cavalaria em Santarém, o Salgueiro Maia diz-lhes: “Mas, o Vasco Lourenço sabe que eu preciso de 48 horas para me municiar”. Apesar disso, quando recebem ordem para avançar uma força para cercar o quartel das Caldas da Rainha, os oficiais do Movimento fazem com que o comandante dessa força seja um deles, o capitão Palma, e este leva mais de oito horas para fazer o percurso de Santarém às Caldas da Rainha.
Quando contactam com a Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, o oficial de dia, que era do Movimento, o capitão Duarte Mendes – o que veio a vencer o Festival da Canção –, diz-lhes que nada feito, pois o pessoal fora de fim-de-semana.
E, mesmo na força do Batalhão de Caçadores 5, que foi esperar a coluna do Regimento das Caldas da Rainha, à entrada de Lisboa, estavam oficiais do Movimento, nomeadamente o capitão Bicho Beatriz, que comandava uma companhia, também a “navegar à vista”, pronto a alterar o rumo.
Como vê, quatro exemplos de unidades que vêm a ter uma importância decisiva no 25 de Abril.
Mas… e Lamego?
Esteve para sair, chegou à porta de armas, mas recebe uma contra-indicação que a faz parar. Algo semelhante se passa com Viseu.
O facto é que o mau funcionamento da ligação fez chegar a Viseu e Lamego a informação de que já havia unidades na rua, nomeadamente o RI5 das Caldas da Rainha, e este sai porque recebe indicação de que Lamego e Viseu já vêm por aí abaixo.
Tudo forçado pelos spinolistas, nomeadamente por alguns espúrios.
O pior é que conseguem envolver o Otelo.
Mas qual foi na realidade, o grau de envolvimento de Otelo Saraiva de Carvalho?
Total. Durante esses dias, procura organizar as forças e fazer o golpe.
É contactado pelos spinolistas, que o incentivam a reagir à possível demissão de Costa Gomes e Spínola. Elabora um primeiro plano de operações, em casa do Casanova Ferreira, muito em cima do joelho.
Apesar de não terem embarcado na ideia desse militar, que defendia que bastava lançar uma bomba de 250 quilos em São Bento, para resolver a situação!
Em reunião com os pára-quedistas e os cavaleiros de Santarém, vê esse plano reprovado e aceita que os páras apresentem uma ordem de operações, a sério, como eles disseram, até ao dia 20.
Não consegue, contudo, resistir à pressão dos spinolistas, face à demissão dos dois generais que escolhêramos em Cascais e, embora com o apoio de outros elementos da Comissão Coordenadora, não ouve os conselhos do Victor Alves, que se põe de fora, dizendo que tudo ia falhar, avança quando chega a informação de que Lamego já vinha por aí abaixo. E aceita enviar um espúrio, o capitão Armando Ramos, às Caldas da Rainha, com a missão de os fazer sair. Que tem a missão dificultada, porque aos oficiais do Movimento lhes cheira a esturro, pois a ligação habitual nada lhes disse, mas que consegue o seu desiderato, por duas razões. Pela pressão dos vários oficiais espúrios existentes na unidade e porque os oficiais do Movimento (havia lá um forte núcleo do Movimento), nomeadamente quando lhe garantem que o Otelo e o José Maria Moreira Azevedo estão nisto, decidem não permitir que os acusem de boicotar a acção.
Com isto tudo, importa realçar que o 16 de Março não é feito fora do Movimento, não é um processo paralelo. É, sim, dentro do Movimento.
Mas, de qualquer modo, não considera uma tentativa de monopolizar o Movimento por parte de uma facção minoritária, os spinolistas?
Em certa medida, sim. É essa a minha opinião. O facto é que há ali uma grande dose de voluntarismo, uma reacção a quente, quer à nossa prisão, quer à demissão do Costa Gomes e do Spínola. Que leva muitos a atirarem-se para a frente, esquecendo-se de que na reunião de 5 de Março tinha sido assumido, como essencial, a elaboração de um programa político.
Um esquecimento que não deixa de ser significativo porque altera completamente a natureza e objectivos do golpe.
Sim, mas o que me parece è que há graus de responsabilidade muito diferentes. Houve pessoas, em certa medida, manobradas e instrumentalizadas por um grupo que tinha outras intenções. Mas, e isso é bom frisá-lo, o 16 de Março não é fora do Movimento. Não é estranho ao
Movimento. É o Movimento que tenta fazer o 16 de Março. Com a componente spinolista em força mas com elementos da própria Direcção e da própria Comissão Coordenadora do Movimento envolvidos.
Sim, mas nota-se inclusive no próprio relato de Otelo Saraiva de Carvalho no seu Alvorada em Abril uma grande descrença no eventual êxito destas operações. É claro que ele estava a partir para essa acção, completamente vencido e quase resignado ao insucesso…
Bem, é capaz de ter razão aí. Agora, é o que eu digo, há ali um misto de sentimentos que se conjugam para levar a essa tentativa que, na minha opinião, a posteriori, ainda bem que falhou. Mas, a sofreguidão de fazer alguma coisa, o ver o terreno a fugir debaixo dos pés quando o Costa Gomes e o Spínola são demitidos, leva as pessoas a correrem contra o tempo e a fazerem uma tentativa de golpe de Estado em cima do joelho, sem planeamento nenhum, sem coordenação nenhuma e, portanto, é natural que quem estivesse envolvido nisso se tivesse, a certa altura, apercebido que aquilo não tinha muitas condições para sair vitorioso. Mas, por outro lado, também não se queria ficar de fora porque, inclusivamente, podia-se ter
o sentimento que se estava a abandonar
os camaradas da conspiração. Penso que consigo compreender o tipo de sentimentos que, na altura o Otelo, que estava no centro dos acontecimentos, terá tido. Quer dizer, era-lhe proibido, digamos assim, pôr-se de fora mas, por outro lado, não é em três ou quatro dias que se conjuga um plano capaz de fazer um golpe de Estado vitorioso.
Havia que arriscar de qualquer modo. É isso?
Sim, mas, por outro lado, havia como disse a tentativa dos spinolistas em aproveitar as condições para fazer o golpe sem o tal plano político… E é preciso ver ainda que havia também muita gente com aquele sentimento que o Banazol tinha expresso, há tempos, de que “isto estava de tal maneira podre que bastava um levantar-se que os outros iam atrás, toda a gente ia apoiar e o regime caía de podre.” Que se provou não ser bem assim. No 16 de Março provou-se que afinal não era, exactamente, como o Banazol preconizava. Por um bambúrrio, o Otelo não vem a ser preso, o que teria sido desastroso.
São presos cerca de 200 militares. Fundamentalmente, os das Caldas da Rainha e mais alguns ligados ao grupo spinolista, alguns na Academia Militar, como o Bruno, o Monge e o Casanova que foram interceptar a coluna que vinha das Caldas e dizer-lhes que estava tudo perdido.
Mas porquê que Otelo também não foi preso?
O Otelo, tanto quanto ele me contou, teve intenção de os acompanhar às Caldas da Rainha, mas quando chegou ali à rotunda do aeroporto, ou junto do RALIS, aquilo estava tudo já de tal maneira ocupado por forças militares que ele achou melhor não aparecer para não se denunciar.
Normalmente, o Otelo também devia ter sido preso o que, inclusivamente, provocou uma situação compreensível a seguir ao 16 de Março.
É que o Otelo começou a ser olhado de lado por muitos militares do MFA, porque diziam: “Eh pá, toda a malta foi presa e este tipo não? Ele que andou tão envolvido, porque é que não foi preso?” E o Otelo teve alguma dificuldade, junto de alguns, em demonstrar que não tinha ligações nenhumas com o poder e com a PIDE. O facto é que não tinha sido preso, unicamente, por sorte…
Apesar dessa clarificação, no sentido de integrar o 16 de Março no Movimento, o certo é que ele foi inspirado pela figura de Spínola.
E continua por esclarecer o envolvimento de Spínola no golpe das Caldas…
Eu penso que o grau de envolvimento dele nunca foi muito grande.
Quer dizer, o Spínola, quer no 16 de Março, quer no 25 de Abril, mais tarde, nunca se envolveu muito directamente. É evidente que ele dava, digamos assim, a directiva geral, certamente, aos seus homens…
Talvez fosse o suficiente. Pelo que afirma o seu ajudante-de-campo António Ramos, partiram dele próprio os contactos para uma acção de protesto contra a demissão dos dois generais. Tudo leva a crer que houve aqui um forte impulso do próprio Spínola, obviamente através do seu ajudante-de-campo.
Se falarmos em acção de protesto, tipo manifestação, sim. Tal como lhe disse atrás, essa foi, aliás, uma das pressões feitas sobre o Otelo. Agora, acção de força, duvido. Duvido e tenho argumentos. Como lhe contei, por duas vezes (e a última tinha sido a 3 de Março…) o Spínola mostrou-se sempre renitente a qualquer acção de força da nossa parte.
Falava em discursos e manifestações. Por isso, duvido que ele tivesse dado luz verde aos seus homens, para desencadearem um golpe militar.
Mas, como conheço bem o António Ramos e outros spinolistas, admito perfeitamente que, ao receberem alento para fazerem qualquer coisa, o seu espírito, a sua capacidade de decisão de homens atirados para a frente, os levasse a ignorarem os conselhos de acalmia de Spínola e a avançarem.
* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Primeira reunião alargada)*
PRIMEIRA REUNIÃO ALARGADA, NUM MONTE AGRÍCOLA, PERTO DE ÉVORA
Lá fomos para a reunião. Preocupados com a segurança, decidimo-nos por dois locais de concentração em Évora. Um junto do Templo de Diana, para os que vinham do norte, e outro, numas bombas de gasolina, à entrada da cidade, para os que iam de sul…
Enquanto nas bombas de gasolina estava o Piteira Santos e mais um outro capitão, que conheciam os previstos vindos do sul, no Templo de Diana, formámos um grupo de recepção com um elemento de cada curso da Academia Militar.
Seria, portanto, difícil que quem chegava não conhecesse ninguém. Como recurso, estava previsto que entre as 14 e as 14.30 estaria um carro com o capot aberto, simulando uma avaria, devendo quem precisasse dirigir-se ao condutor, apresentar-se, pois seria encaminhado.
Mal chegámos junto do Templo de Diana, vimos aparecer um Mercedes de matrícula militar com um velhinho a sair de lá de dentro. «O que é isto?», diz o Bicho Beatriz. «Quem é aquele tipo?», digo eu. «Eh pá, aquele tipo é o comandante da Região Militar.»
«Alto! Estamos denunciados». «Bom, está bem, ninguém se perturba. Vamos para o jardim».
Íamos para avançar para o jardim, aparece outro Mercedes com outro velhinho, e diz o Bicho Beatriz. « Eh pá, aquele é o segundo comandante e o tipo conhece-me!»
Dá meia volta, mete-se no carro e zarpa. Bem, croquis numerados era ele que os tinha no carro.
Avanço para o jardim e que vejo? O jardim cheio de malta nova, cabelo curto, a assobiar, a passear em grupos de dois ou três, a passarem uns pelos outros, a fazerem que não se conheciam, a tentar despistar. Mas qualquer pessoa que chegasse via que se passava qualquer coisa. Em Évora, num domingo, o jardim cheio…
Bem, de repente, eu entro pelo meio daquilo, com os croquis, e à medida que os vou entregando, vou dizendo. «Desaparece! Desaparece! Desaparece!»
E começa aquela malta toda a sair do jardim, a meter-se nos carros e a zarpar! Com os generais a olharem para nós com caras de parvos. Mais tarde, viemos a descobrir como é que eles tinham sabido. Tinha sido um major do Quartel General de Évora que tinha denunciado a reunião. Um major de Artilharia chamado Gaspar, conhecido pelo Gasparito, o doido, mas, enfim, o Dinis de Almeida tinha-o informado da reunião e ele tinha-nos denunciado.
* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Memórias da Revolução: 18 de Abril de 1974
Ontem, dia 17 de Abril de 1974, faltavam 8 dias para a Revolução, o «Jornal de Notícias» dava a conhecer as conversaçõs entre o Vaticano e o Governo a propósito do caso dos Missionários de Nampula. O Ministério do Ultramar publicava uma nota sobre o assunto.
As Juntas Médicas vão passar a funcionar junto dos postos clínicos das Caixas de Previdência.
Américo Tomás vai visitar a «notável» Barragem da Aguieira.
Em França, o radical Schreiber não vai concorrer às eleições. Ainda assim, já são 33 os candidatos.
Hoje, 18 de Abril, fala-se do aumento dos funcionários públicos. Aumeto para breve? – uma sugestão renovada na Assembleia Nacional.
Na Rotunda da Boavista, no Porto, vai começar em breve a Feira do Livro. No mesmo dia, um camião espalhou dezenas de pernis de porco em plena Avenida da Boavista.
Nos Estados Unidos, nova derrota de Nixon. Fracassou o apoio a um republicano. William Simon nomeado Secretário do Tesouro. Em França, foram eliminados 19 dos 33 candidatos ao Eliseu. Nova sondagem dá vitória a Giscard d’Estaign.
Faltam 7 dias para a Revolução.
Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Dedicatória)*
Meu querido Vicente:
Este é um livro com dois autores: a entrevistadora, Manuela Cruzeiro, e o entrevistado, o teu avô Vasco.
Pela minha participação, sinto que posso dedicá-lo a alguém.
E é a ti, querido Vicente, que dedico a narrativa de parte da história da minha vida.
Para não ficares sozinho, permite que te junte duas pessoas que são também as mais que tudo para mim: a tua mãe Gabriela e a tua avó Adélia que me proporcionou o dia mais feliz da minha vida ao dar-me uma filha.
Ao leres este livro, tomarás conhecimento de parte da luta do teu avô por uma sociedade melhor. Muitos factos e momentos específicos são aqui tratados, mas muitos outros episódios ficaram de fora. Temporalmente tem o limite de Abril de 1976, quando se aprovou a Constituição da República Portuguesa, resultante do 25 de Abril de 1974, e a particularidade de, embora publicado em 2009, ter sido feito entre 1992 e 1995.
Uma coisa te quero garantir Vicente: o teu avô procurou ser honesto, falar verdade e não fugir às questões. Foi essa sempre uma das minhas características e não poderia permitir a publicação deste livro se não me revisse nele. Por isso, apesar de ter amenizado algumas 8 afirmações, não fugi à polémica, com o que terei desgostado alguns.
Dos amigos a quem porventura desgostei, espero que me compreendam e desculpem.
Haverá outras verdades. Não duvido, pois nunca tive a presunção de ter o seu exclusivo. Mas, de uma coisa podes estar certo: não inventei nem exagerei, mesmo que às vezes custe a acreditar que as coisas se tenham passado como as conto. Procurei, aliás, evitar ao máximo comentários e adjectivos.
Um aspecto me preocupa: não vejas nesta minha verdade a presunção de que tudo girou à minha volta. Cada um de nós, o teu avô
e os seus companheiros, desempenhou um papel, mais ou menos importante. Só que, tal como sempre compreendi que os outros, ao escreverem a história em que participaram, o façam à volta dessa sua participação pessoal, também eu não poderia deixar de ao contar a minha experiência, falar principalmente de mim. O que não invalida que haja outras experiências, outras vivências, outras estórias.
Aqui, à tua frente, tens pois a minha verdade das coisas, referentes a um período da minha vida, que confio possa contribuir para não deixar deturpar a História. Quanto ao resto, não sei se irei contá-lo, em entrevista ou em autobiografia.
Até lá, um grande beijinho do teu avô que te adora.
Vasco
* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Apresentação)*

* PRÉ-PUBLICAÇÃO
Memórias da Revolução: 16 de Abril de 1974
No dia 16 de Abril de 1974, a política internacional é o prato forte da capa do «Jornal de Notícias». Em frança, Fouchet desistiu a favor de Delmas. Na Nigéria, a tropa ocupou o poder. Um tenente-coronel derrubou o Presidente da República. Na Síria e no Líbano, continuam os ataques de Israel. O Egipto avisa que não ficará de braços cruzados se esses ataques continuarem.
A Portugal, já chegou o Bispo de Nampula, D. Manuel Vieira Pinto, para discutir a questão dos padres combonianos.
Agora que se aproximam as Feiras do Livro, o que lêem as crianças? Mafalda ou Mickey.
Charles Chaplin, o Charlot, está de parabéns. Faz hoje 85 anos.
Faltam 9 dias para a Revolução.
Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos (III)
(parte anterior aqui)
Em 1944, Soeiro Pereira Gomes começa a escrever «Engrenagem», mas não chega a concluir o livro. A realidade que apresenta nesse romance não difere muito da dos «Esteiros». Retrata as relações económicas e humanas numa grande fábrica de ferro e aço de uma vila ribatejana, que podia muito bem ser a fábrica de cimentos de Alhandra. Os diálogos, a acção, as condições de trabalho – tudo se assemelha a um quotidiano que o autor conhecia perfeitamente.
Os «Contos Vermelhos», que foram escritos na clandestinidade, narram a vida dos resistentes comunistas que, como ele próprio, andavam fugidos à PIDE. Cada um deles é um homem comum – com medo de tudo, mas também com esperança num futuro melhor e com força para o procurar.
Em «Refúgio Perdido», um homem perseguido é obrigado a dormir ao relento depois de perder o local onde se refugiava. Em «O Pio dos Mochos», um «bufo» recebe uma segunda oportunidade para regressar à luta política contra o regime. Em «Mais um Herói», tudo gira à volta da capacidade de resistência dos presos perante os horrores da tortura e dos interrogatórios.

A sua intervenção política, por alturas da publicação de «Esteiros» e da redacção de «Engrenagem», era cada vez mais intensa. Numa altura em que decorria a II Guerra Mundial e o mundo tomava conhecimento da barbárie nazi, Soeiro Pereira Gomes abria as janelas da sua casa para que todos pudessem ouvir as novidades da Guerra através da BBC, que estava proibida em todo o país.
Quando participou nas greves de 8 e 9 de Maio de 1944, como membro do Comité Regional da Greve do Baixo Ribatejo, chamou a atenção da PIDE para as suas movimentações políticas. Quando a Polícia Política se preparava para prendê-lo, conseguiu escapar e acabou por entrar na clandestinidade no dia 11 de Maio daquele ano. Na altura, foi uma vizinha que o avisou de que a chegada da PIDE estava eminente. Só teve tempo de fugir, dentro do seu automóvel, a caminho da clandestinidade.
Mesmo fugido, Soeiro Pereira Gomes não abrandou a sua acção política. Assumiu o comando da Direcção-Regional do Alto Ribatejo, contribuindo para o alargamento da base de apoio do Partido, e foi eleito membro do Comité Central.
Em 1946, elaborou um «esboço sobre a maneira como utilizar as praças de jornas ou praças de trabalho no Movimento de Unidade Camponesa para o derrubamento do fascismo». Esse trabalho foi publicado pela primeira vez no jornal «Ribatejo», periódico clandestino por ele impulsionado. O objectivo do seu escrito era criar «Comissões de Praça», que discutissem com os patrões o valor a pagar por cada jorna.
Torna-se membro da Comissão Executiva do MUNAF – Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista, acompanha as actividades do MUD – Movimento de Unidade Democrática, serve de elemento de ligação entre o Partido e o Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista e participa na primeira fase da campanha presidencial de Norton de Matos.
No entanto, nesta altura, já se encontrava gravemente doente e impedido, por razões óbvias, de ser devidamente tratado. Chegou a estar previsto a sua deslocação a Inglaterra, mas os perigos que encerrava uma viagem clandestina com várias escalas levaram o cancelamento da operação. Tinha apenas 40 anos quando morreu, no dia 5 de Dezembro de 1949.
No largo fronteiro à Sociedade Euterpe Alhandrense, a mais antiga colectividade do concelho (1862), encontra-se o monumento de homenagem a Soeiro Pereira Gomes. Foram seus autores os escultores João Duarte e João Afra, após concurso público em 1981.
Memórias da Revolução: 15 de Abril de 1974
A 15 de Abril de 1974, israelitas e sírios batiam-se no monte Hermon: dezenas de homens foram mortos na disputa de um «pico nevado».
Entretanto, a nível nacional, surgem preocupações quanto à praia Figueira da Foz: é possível conciliar petróleo com turismo. O turismo ainda lá anda, o petróleo é que não.
A Direita francesa tenta ainda a unidade em torno de Messner. Miterrand esclarece que não é antiamericano.
Faltam 10 dias para a Revolução.
Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos (II)

(parte anterior aqui)
Joaquim Soeiro Pereira Gomes é uma das figuras maiores de Vila Franca de Xira. Mesmo não tendo nascido no concelho, a população, sobretudo a de Alhandra, vê-o como um dos seus.
Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô, Baião, em 1909, no seio de uma família de pequenos agricultores. Fez os primeiros estudos na terra-natal e seguiu para Coimbra, onde tirou o curso de Regente Agrícola.
Em 1930 e 1931, trabalhou em Angola ao serviço da Companhia de Catumbela, mas regressou devido às más condições de trabalho e ao clima demasiado rigoroso. Apesar de curta, esta experiência em África deu-lhe uma consciência diferente dos valores do humanismo e da liberdade, devido à opressão colonial que ali sentiu bem de perto.
Instalou-se então em Alhandra e começou a trabalhar como chefe de escritório na fábrica «Cimento Tejo», que pertencia ao Grupo Sommer Champalimaud.
A sua intervenção política iniciou-se nos finais dos anos 30, no momento em que aderiu ao Partido Comunista. Pouco tempo depois, integrava já o Comité Central de Alhandra e participava activamente na acção cultural e política que o Partido desenvolvia em todo o Baixo Ribatejo.
Algumas das iniciativas que protagonizou foram extremamente importantes para o desenvolvimento da freguesia de Alhandra. Organizou cursos de ginástica para os operários da fábrica onde trabalhava, ajudou a criar bibliotecas populares nas sociedades recreativas e impulsionou a construção de uma piscina, a «charca», que servisse toda a população.
Era uma altura em que, em Alhandra, os assalariados da indústria e da agricultura lutavam, em conjunto, por melhores condições de vida.
Ao mesmo tempo, começa a dedicar-se à literatura e ao movimento neo-realista, que então dava os primeiros passos. Escreve para o «Sol Nascente» e para «O Diabo» e recebe em sua casa figuras como Sidónio Muralha, Alexandre Cabral e Alves Redol. Com este último e ainda com Dias Lourenço, promoveu e animou inúmeras excursões de fragata no rio Tejo, os tais «passeios culturais» a que anteriormente aludimos. Mais do que a confraternização, o objectivo era o trabalho político e a conspiração contra o regime.

Os célebres «Passeios Culturais no Tejo». Na imagem da direita, Álvaro Cunhal.
Entre 1940 e 1942, Soeiro Pereira Gomes participou na reorganização interna do Partido Comunista e ingressou no Comité Central do Ribatejo. No seguimento da acção cívica que desde cedo empreendera, empenhou-se activamente no resgate de muitas famílias afectadas pelo grande ciclone de 1941. Tripulando uma frágil barca no Tejo, com três outros trabalhadores de Alhandra, salvou mais de vinte assalariados que se refugiavam da intempérie numa pequena ilhota em frente à cimenteira, o Mouchão de Alhandra.
Foi nesse mesmo ano que publicou «Esteiros», uma obra editada pela Sirius e ilustrada por Álvaro Cunhal. Dedicou-a aos adultos que nunca foram meninos. Crianças que foram obrigadas a trabalhar quando deviam estar a estudar, crianças tão aventureiras quanto miseráveis. Não escondendo demasiadamente os seus sentimentos, o autor indigna-se pela exploração infantil de que são vítimas essas crianças e transmite a sua ternura por elas.
Soeiro Pereira Gomes conhecia bem a realidade de que falava em «Esteiros». Personagens como as do João Gaitinhas, do Maquineta, do Malesso, do Cocas, do Sagui ou do Gineto eram, afinal, bem reais. Representavam as vítimas das injustiças sociais, da exploração dos fracos pelos fortes, do monopólio crescente da grande fábrica perante as pequenas e médias empresas.
Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos (I)

Nasceu em Gestaçô, Baião, há 100 anos, feitos hoje. Morreu em 1949, corria o quinto dia de Dezembro. Nome maior do neo-realismo literário português, autor de uma obra longa mas pouco divulgada nestes nossos dias, militante comunista, desde cedo desenvolveu uma enorme sensibilidade social.
No túmulo tem escrita a frase: A tua luta foi dádiva total.
Amanhã e depois, iremos homenageá-lo aqui no Aventar. Para que o esquecimento não seja total.
Memórias da Revolução: 14 de Abril de 1974
O «Jornal de Notícias» de 14 de Abril de 1974 noticia a «rajada de internacionalização» no Aeroporto de Pedras Rubras. Em 1975, prevê-se que mais de um milhão de passageiros utilize a infra-estrutura.
É Domingo de Páscoa e o «JN» publica a mensagem pascal do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Ainda uma nota sobre o Compasso, uma «tradição perdida».
amanhã, aumenta o preço das comunicações telefónicas.
No noticiário internacional, Miterrand é o favorito depois da primeira sondagem realizada em França; e Israel vinga-se no Líbano, matando 2 mulheres e dinamitando 24 casas.
Faltam 11 dias para a Revolução.
Memórias da Revolução: 13 de Abril de 1974
Marcello Caetano e Lopes Rodõ, diz o «Jornal de Notícias» de 13 de Abril de 1974, estiveram em Coimbra. Passaram a noite no Buçaco. Previam ir à serra da Estrela, mas o mau tempo não o permitiu.
Neste momento, há mais de trinta candidatos ao Eliseu. Miterrand expôs linhas moderadas, Delas reuniu-se em segredo com Giscard d’Estaign.
Na sequência do massacre de Kiryat Shemone, Israel tenciona vingar-se no Líbano.
Faltam 12 dias para a Revolução.
Memórias da Revolução: 12 de Abril de 1974
Em 1974, o dia 12 de Abril calhou numa Sexta-Feira Santa. Os espanhóis invadem Portugal em busca de um fim-de-semana mais alargado.
Alguns padres combonianos foram ontem expulsos de Moçambique. Não se sabe para onde vão.
A União dos Sindicatos Ferroviários, lê-se em todos os matutinos de Lisboa e Porto, deslocou-se ontem ao gabinete do ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa, para lhe manifestar o seu reconhecimento pelos benefícios resultantes de alterações ao acordo colectivo de trabalho (ACT) introduzidas por este ministro quando era titular das Corporações e Segurança Social. O líder da União, Olímpio da Conceição Pereira, não se queda, porém, pelos agradecimentos sindicais. Aproveita para deixar dito que o Governo “pode contar sempre com os dirigentes corporativos dos verdadeiros ferroviários” na sua política ultramarina.
O sindicalismo, realmente, não era o que é hoje. Quer dizer, a UGT é a reencarnação exacta do velho sindicalismo do Estado Novo.
Sons de Abril: José Barata Moura
A música é de José Barata Moura e chama-se «Vamos Brincar à Caridadezinha». Editada pela Orfeu, em 1973, faz parte do primeiro disco do artista e é essenciamente uma música de protesto e de crítica ao regime e à sociedade do tempo da Ditadura.
Sobres esta música, escreveu ernando Madail no «Diário de Notícias» de 22 de Dezembro de 2007: «”Vamos brincar à caridadezinha, festa, canasta e boa comidinha”, cantava José Barata Moura em tom de crítica àquele tipo de senhora que “passa a tarde descansada, mastigando a torrada, com muita pena do pobre, coitada!” O músico, que seria reitor da Universidade de Lisboa entre 1998 e 2006, devia estar cansado de ler notícias como a que o DN publicava no dia 18 de Dezembro de 1965 sobre uma “obra de amor e de bem-fazer”.
A explicação vinha logo no título daquela notícia a meio da sétima página : “A sede dos ‘Fernandinhos Pobres’ começou a encher-se de crianças dos bairros humildes de Lisboa que ali vão buscar alegria e agasalhos”. E a legenda acrescentava: “dirigentes e benfeitoras dos ‘Fernandinhos Pobres’, durante a festa de ontem”.
Para os espíritos mais progressivos, parecia impossível escrever algo deste género: “Uma centena de crianças humildes de Lisboa foi já, ontem à tarde, ao grupo ‘Fernandinhos Pobres’ receber alguns dos donativos que ali costumam distribuir na quadra do Natal”. Mas, enfim, nessa longa noite do fascismo lusitano, havia – já se sabe! – exploração.
“Presidiu à cerimónia a sr.ª D. Maria Natália Rodrigues Thomaz, filha do Chefe do Estado [acerca da qual corriam quase tantas anedotas como sobre o pai]. Presentes, também, muitas senhoras da alta sociedade que patrocinam aquela obra de caridade.” Ah! Essa amaldiçoada palavra “caridade”!
“A partir das 14 horas, começaram a afluir os gaiatos, juntamente com as mães e outros familiares à sede daquele organismo de beneficência. Eram crianças das mais pobres que há na cidade [como se isso fosse um motivo de orgulho para elas] , filhas dos casais que vivem nos bairros mais humildes, tais como Sete Moinhos, Casal Ventoso e Curraleira [provavelmente uma garantia de que, afinal, não eram os falsos pobres de que sempre se suspeita, seja na distribuição de prendas aos pobrezinhos ou no rendimento mínimo]. A pouco e pouco as cem alcofas foram sendo distribuídas. A primeira foi entregue pela sr.ª D. Maria Natália Rodrigues Thomaz [apontada, então, quase como sendo um sinónimo da fealdade], a segunda pela sr.ª D. Maria Madalena Morais, presidente da Cruz Vermelha, e a terceira pela sr.ª D. Maria Emília Castro, esposa do sr. dr. Augusto de Castro [director do Diário de Notícias e, obviamente, uma figura do regime]. E, durante mais de duas horas estas e outras senhoras espalharam, com estes donativos, alegria e conforto a tantas famílias.”
Lá cantava José Barata Moura, no seu timbre claro, em que todas as sílabas se entendem perfeitamente, que “o pobre, no seu penar, habitua-se a rastejar e, no campo ou na cidade, faz da sua infelicidade algo para os desportistas da caridade”. Adiante.
“Na sede dos ‘Fernandinhos Pobres’ reinava uma atmosfera de ternura e de felicidade contagiantes. As crianças riam ou abriam os olhitos com aquela expressão de encanto que é apanágio das suas horas de emoção mais alta.” Seja lá este aspecto o que for…
“As beneméritas protectoras do grupo, a que preside a sr.ª D. Virgínia Lopes da Silva, comungavam, também, na satisfação geral dos seus protegidos, que se sentiam com o Natal deste ano mais iluminado e mais aberto à esperança.” Estávamos, pois – nunca se deve esquecer! -, em pleno fascismo, um tempo de ignorância e de miséria. Aliás, a notícia do lado parecia uma metáfora velada, pois “Lisboa sem sol foi ontem uma cidade triste” e “o nevoeiro deu-lhe uma poesia estranha e fantasmagórica fora dos hábitos alegres dos alfacinhas” – em contrapartida, registavam-se 40 graus em Lourenço Marques, como se designava, nesse tempo de guerra contra os turras (os guerrilheiros da Frelimo), a agora Maputo.
“Hoje, à tarde”, concluía o jornalista, “o mesmo grupo e as mesmas senhoras vão ainda distribuir por mais quatrocentas crianças outras valiosas prendas. São peças de vestuário e de calçado, um lanche e umas guloseimas, para que os miúdos participem, com algo de concreto, no sortilégio mágico do Natal.”
Moral da História: 42 anos depois, derrubado o regime fascista e finda a guerra colonial, com 33 anos de democracia e 22 de adesão europeia, ainda continuamos a necessitar de instituições como a dos “Fernandinhos Pobres”. E a canção parece não ter perdido actualidade: “Não vamos brincar à caridadezinha, festa, canasta e falsa intençãozinha.»
A sombra de Caxias (III – Caxias e o Estado Novo)
Em Janeiro de 1972, a revista «Continuidade», o órgão oficial da PIDE, descrevia assim as condições da prisão: «Somente a presença de grades nas janelas lembra que se trata de uma prisão. Os detidos dispõem de quartos individuais, com casa de banho privativa e água corrente quente e fria, permitindo-lhes as melhores condições de alojamento…
A cozinha de Caxias, dotada de moderna aparelhagem, permite a confecção de alimentos nas melhores condições, completando as demais condições de alojamento, que podem ser consideradas das melhores em todo o mundo. Um posto médico, apetrechado com o material corrente em qualquer bom consultório, assegura uma completa assistência a quantos dela possam carecer.»
Como é óbvio, a realidade eram bem diferente. Os presos que o digam. Foram os seus relatos, verdadeiramente impressionantes, que revelaram a dimensão do horror, o alcance da tragédia.
«Falo-vos de Caxias. Falo-vos de uma máquina de bestialização articulada em nome de uma ideologia como pretexto adeuqado. Aqui, o carácter recíproco do respeito entre os homens foi ferozmente destruído. Aqui, recusando aos presos a higiene mais elementar, infligindo-lhes os mais brutais tratamentos, os pides negavam-se a ver neles homens. Aqui, os cárceres, os curros, os catres com sangue seco, as paredes, os corredores, os silêncios, os gritos, o desespero – depõem sobre a irresistível evolução do espírito nazi-fascista para o desprezo total do homem no homem. Aqui, com o sacrifício das próprias vidas, os mais puros e abnegados dos resistentes ao insulto fascista encarnam a liberdade (com L maiúsculo, camarada tipógrafo, com L maiúsculo!) na sombra, no opróbio, na morte – sempre honrando-se, sempre honrando-nos!» (Baptista Bastos, in «Diário Popular», 25 de Maio de 1974)
Caxias era, pois, uma pequena parte de um vasto complexo de tortura e morte, que englobava o Aljube, Peniche, Ilha Terceira e Ultramar, como Timor, o Tarrafal, em Cabo Verde, ou Machava, em Moçambique.
E se o Estado Novo insistia em encontrar apenas virtudes no estabelecimento prisi0onal, os deputados da Oposição não iam, definitivamente, na mesma «onda». Em 15 de Janeiro de 1972, o então deputado Francisco Sá Carneiro propôs na Assembleia Nacional a designação de uma comissão eventual que procedesse a um inquérito ao regime prisional de Caxias. Numa fase que começava a ser conturbada, numa fase em que a Ditadura já não conseguia, como conseguira nas décadas anteriores, sufocar todo o tipo de contestação ao regime, os deputados da Oposição já se sentiam à vontade para falar e para enfrentar os fiéis da União Nacional.
A acta número 149 do Diário das Sessões da Assembleia Nacional do dia 17 de Janeiro de 1972, páginas 3003 a 3022, reflecte bem a forma como o regime e a Oposição se preocupavam com Caxias. Por motivos diferentes, como é óbvio. A Oposição preocupava-se com as condições dos presos, que já ninguém conseguia esconder, enquanto que o regime se preocupava com as repercussões que essas condições podiam ter na contestação nacional e internacional.
O excerto que em seguida apresentamos, do referido Diário das Sessões, e que traduz o discurso de Farnacisco Sá Carneiro e o diálogo com outros deputados, alguns deles afectos ao regime, é apenas uma pequena parte das actas referentes àquela tarde em que, durante duas horas e meia (das 15.40 às 18.10 horas), o tema principal foi a prisão de Caxias.
«Tenho recebido, nos últimos tempos, numerosas queixas quanto à actuação da Direcção Geral de Segurança, tomado conhecimento de várias exposições sobre essa matéria e lido acusações que lhe são feitas publicamente.
Os pontos mais graves referem-se a casos de prisões e buscas sem mandados e aos métodos de interrogatórios praticados, durante os quais se não admite a presença de advogado dos suspeitos presos. (…)
Investigação não é, não pode nunca ser, obtenção de confissões. (…) A defesa da sociedade não pode fazer-se com desrespeito pelas pessoas.
O Sr. Casal-Ribeiro: – Faz-se à bomba …
O Orador: – V. Ex.ª disse alguma coisa, Sr. Deputado?
O Sr. Casal-Ribeiro: -Disse, disse, em voz bem alta: faz-se à bomba!
O Sr. Henrique Tenreiro: – V. Ex.º dá-me licença?
O Orador: – Só um momento. Éque há duas interrupções …
O Sr. Casal-Ribeiro:- Eu, é só um comentário: só à bomba!
O Orador: – Não, é uma interrupção …
O Sr. Casal-Ribeiro: – Pois é. E um comentário: faz–se- à bomba. (…)
O Orador: – Sr. Deputado, eu não lhe estou a pedir resposta nenhuma, nem estou preocupado … Agora do que não abdico é o de estar no uso da palavra, de responder a quem eu entender e como entender. (…)
Poderá pensar-se, ante a ida a prisão da Direcção-Geral da Segurança em Caxias, dependente do Ministério do Interior, que foi a mesma a atitude deste.
Não foi.
Como a imprensa noticiou, essa visita teve lugar no dia 4 e durante ela tivemos ocasião de falar com vários presos.
Essa era a razão determinante da nossa ida; por isso imediatamente aderi à oportuna iniciativa do Sr. Deputado Correia da Cunha, fruto da sua intervenção junto do Sr. Ministro do Interior, à qual se associou também o Sr. Deputado Pinto Balsemão.
Foi-nos depois esclarecido pelo Sr. Ministro que poderíamos visitar a cadeia quando quiséssemos, mas não falar com as pessoas aí detidas, a não ser eventualmente, a título excepcional e meramente pessoal; não como Deputados.
Nessas condições entendo que se não justifica qualquer outra diligência directa. A própria visita à cadeia, que no dia 4 não prevíramos e que não houve tempo para efectuar, tendo ficado prevista para mais tarde, não tem justificação se não pudermos, como Deputados, ouvir os presos que entendermos.
É nessa qualidade que tenho recebido as numerosas queixas e reclamações a que aludi, que se referem não só ao regime prisional de Caxias, mas também, e sobretudo, á actuação da Direcção-Geral de Segurança quanto a detenções, buscas e interrogatórios.
É como Deputado que tenho a obrigação de não me calar e de exigir que, se os factos são verdadeiros, se lhes ponha termo e se punam os responsáveis; se são falsos, se responsabilize quem os publica. (…)
E assim termino por propor, Sr. Presidente, que a Assembleia Nacional designe uma comissão eventual para estudar todas as queixas, reclamações e acusações formuladas e proceder a inquérito à actuação da Direcção-Geral de Segurança e ao regime prisional da Cadeia de Caxias, devendo apresentar, no prazo de um mês, um relatório circunstanciado da sua actividade, das conclusões a que chegou e das medidas que propõe.
Disse.
Vozes: – Muito bem!
O Sr. Henrique Tenreiro: – Não apoiado!
O Sr. Casal-Ribeiro: -Isso mesmo, não apoiado.
Vozes: – Apoiado! Muito bem, muito bem!
O orador foi cumprimentado. (…)
Requerimento
Ao abrigo do disposto no artigo 11.º, alínea d), do Regimento, requeiro que me seja dado conhecimento se foi realizado algum inquérito, ordenado designadamente pela Presidência da República ou pela Presidência do Conselho, ao modo como foi interrogado na Direcção-Geral de Segurança José Pedro Correia Soares, que actualmente se encontra detido na prisão de Caxias; no caso de ser afirmativa a informação pedida, requeiro também que me seja facultada cópia integral de todas as peças desse inquérito e prestadas informações sobre as suas consequências.
Sala das Sessões da Assembleia Nacional, 15 de Janeiro de 1972. – O Deputado, Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro.»
No mesmo ano, ainda se voltaria a ouvir falar de Caxias. No dia 20 de Abril, foi lida na Sessão Parlamentar que Ana Maria Correia Antunes enviara uma carta a propósito
das condições em que vivam os presos de Caxias. No dia 7 de Dezembro, Francisco Sá Carneiro «voltava à carga» e, desta vez, exigia informações sobre uma estudante universitária do Instituto Superior de Agronomia, chamada Dália Rosa Falcato.
Queria saber, nomeadamente, se a aluna se encontrava detida em Caxias à ordem da Direcção-Geral de Segurança; se estava doente e com febre e, por isso mesmo, tinha sido vista por um médico da Faculdade de Medicina de Lisboa e por um psiquiatra da mesma cidade; se lhe fora diagnosticada uma depressão nervosa e aconselhado o fim do regime de isolamento a que fora votada desde a sua detenção; se esse isolamento já terminara e em que dia; se fora requerida a sua transferência para um hospital pisquiátrico e através de que despacho; e a quantos interrogatórios fora sujeita Dália Rosa Falcato e com que duração.
No ano seguinte, o mesmo Sá Carneiro apresentaria um projecto-lei de amnistia para crimes políticos e infracções disciplinares, mas, por ser considerado «gravemente incorrecto», nem sequer lhe foi dada a palavra.
Segundo esse projecto-lei, seriam amnistiados os crimes políticos e as infracções disciplinares que tivessem também origem em motivos políticos. O objectivo final era a consagração, na Constituição e nas leis, das liberdades públicas que não existiam em Portugal. Assim, a amnistia política surgiria como corolário da alteração de uma situação que levava a PIDE/DGS, a considerar delituosos, constantemente, comportamentos e atitudes que não passavam de actividade política e cívica.
O projecto apresentado por Sá Carneiro seria liminarmente recusado e nem sequer chegou, como se disse antes, a ser discutido em plenário. O Presidente da Comissão Parlamentar de Política e Administração da Assembleia Nacional, Gonçalves Proença, considerou que não era oportuna tal discussão naquele momento.
Foi apenas o último de vários projectos do deputado que já tinham sido recusados anteriormente, como o da liberdade de associação, da liberdade de reunião, dos funcionários civis, da alteração ao código civil, do divórcio e separação de pessoas e bens e da organização judiciária. A todos eles, não foi dada a mínima oportunidade para serem ao menos discutidos, e a justificação era sempre a mesma: gravemente inconvenientes.
Por todas estas razões – no fundo, porque não conseguia cumprir a missão para que fora eleito pelo círculo do Porto – Francisco Sá Carneiro viria a renunciar ao seu mandato no dia 25 de Janeiro de 1973.
Memórias da Revoulção: 11 de Abril de 1974
Após o susto inicial, o navio Niassa lá partiu. Desta vez, não há qualquer referência aos feridos provocados pelo rebentamento da bomba.
No próximo dia 22, a Bolsa do Porto começará a funcionar, terminando assim a «Bolsa de Sampaio Bruno», que há vários meses funcionava na cidade ao ar livre.
Em Ribeira de Pena, um homem construiu sozinho uma estrada.
Faltam 14 dias para a Revolução.








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