Em memória de Goebbels

Imprensa

A União Europeia meteu os ditos no sítio e tomou uma decisão inédita para contrariar o ímpeto totalitário do governo polaco que é conservador mas que aparentemente não é radical. O objectivo é dialogar com o país para tentar reverter a sua deriva extremista de querer controlar a imprensa estatalcondicionar a acção do Tribunal Constitucional. Caso o diálogo não resulte, a Comissão Europeia pondera a aplicação de sanções.

A resposta do governo polaco não se fez esperar. Pela voz do ministro da Justiça Zbigniew Ziobro, o executivo de Varsóvia acusou o vice-presidente da Comissão, Frans Timmermans, de “persuasão de extrema-esquerda“. Resta saber se Bruxelas terá com os polacos o mesmo músculo que demonstrou ter com outros povos rebeldes do sul da Europa. Contudo, não deixa de ser curioso que o país que no passado foi invadido e massacrado pela Alemanha nazi se veja agora em apuros por querer ressuscitar a memória de Goebbels. A história tem destas ironias.

Memória vigilante

Não, não sou anti-alemão nem nada que se pareça. Mas procuro também não ser ingénuo. Estamos e queremos continuar em paz, mas convém não ter memória curta. Esta citação não é uma provocação nem se ignora a diferença de contexto. Mas talvez seja bom para todos (todos!) lembrar tempos não muito antigos, uma certa maneira de ver:

Fazemos unicamente o que convém ao nosso povo e, neste caso, o interesse do povo germânico consiste no estabelecimento de uma rigorosa ordem alemã nestes países, sem prestar a menor atenção às reclamações, mais ou menos justificadas, das pequenas nacionalidades” ( Joseph Goebbels)

A máquina do tempo: por que motivo não compraram os quadros do jovem Adolf?

 

Um documento esquecido nos Arquivos Nacionais Franceses, datado de 1924, e recentemente encontrado, descreve Adolf Hitler – já nessa altura líder do Partido Nacional Socialista Operário Alemão – como um "demagogo bastante astuto" e como o equivalente germânico do ditador italiano Benito Mussolini. Contudo, não alerta para uma eventual influência de Hitler na realidade europeia dos anos seguintes. Ao que parece, ninguém parecia ter-se apercebido do perigo que aquele demagogo, com bigode chaplinesco e com o penteado de risca ao lado, representava.

«Não é idiota, mas sim um demagogo bastante astuto", afirma a breve e amarelecida nota redigida por um espião francês, acompanhada por uma fotografia de Hitler vestido com fato e gravata. O agente apresenta Hitler como “o Mussolini alemão”, avisando que “comanda grupos paramilitares de orientação fascista”, embora não recomendasse a adopção de qualquer medida contra o homem que iria desencadear a  Segunda Guerra Mundial e ordenar o Holocausto.

 

Esta nota faz parte de um enorme arquivo que remonta ao período em que as tropas francesas ocuparam a Alemanha após o final da Primeira Guerra Mundial. O relatório sobre Hitler, que muito em breve estará à disposição dos historiadores, estava guardado num arquivo de metal fabricado em 1791 durante a Revolução Francesa, que contém mais de 800 textos, entre os quais se destaca o diário de Luís XVI e de Maria Antonieta. Estes documentos foram posteriormente transportados para Paris em 1930 e estão armazenados desde então nos Arquivos Nacionais. A nota que descreve Hitler é acompanhada de textos similares que se referem aos seus lugar-tenentes, Goebbels, Hermann Goering e Heinrich Himmler, ministro do Interior e chefe da policia alemã, ao qual se acusa directamente de “racista”.

 

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Em 1924, Adolf, com 36 anos, fora preso em 26 de Fevereiro e , em 1 de Abril, condenado a cinco anos de cadeia devido às suas actividades políticas. Na prisão de Landsberg redigiu o primeiro volume de «Mein Kampf». Em 20 de Dezembro obteve a liberdade condicional mediante o pagamento de uma fiança. Desde 1919 estava ligado ao DAP (Partido Alemão dos Trabalhadores), sendo nomeado responsável pela propaganda; em 1920 o partido mudaria a sigla para NSDAP (Partido Operário Nacional Socialista Alemão). Em 1921, passaria a ser o número um da organização que ganhava rapidamente os seus contornos agressivos, criando as SA (divisões de assalto) e as SS(secções de protecção). Uma carreira meteórica e cheia de êxitos até à derrota final.

 

 

Se viajarmos um pouco mais para trás, vamos encontrar um jovem cabo austríaco desmobilizado, andando à deriva numa Berlim boémia, cosmopolita, dominada por judeus ricos e vivendo os anos loucos do pós-guerra.

 

 Em 1910, com 22 anos, Hitler estudava na Academia de Belas Artes, ganhando algum dinheiro pintando postais e desenhando cartazes de publicidade a detergentes, graxa para sapatos e outros artigos de consumo. Sem êxito – os quadros não se vendiam e os trabalhos com que ganhava a vida, escasseavam. Esse fracasso na arte e na publicidade atirou-o para as lides políticas onde descarregou a sua frustração contra um mundo que não soubera apreciar os seus dotes. Pelo que se pode ver das suas produções artísticas, não terá passado ao lado de uma grande carreira, como se costuma dizer dos futebolistas. Perdeu-se um mau pintor e ganhou-se um político horroroso. Os judeus ricos de Berlim deviam ter comprado os seus quadros sem regatear os módicos preços.

 

Imprudências.