A máquina do tempo: Santo Eugenio e os campos de extermínio

Bento XVI, apelou no domingo passado, durante a tradicional oração do Angelus na Praça de São Pedro, a um sentido mais religioso destas festividades, dizendo que o Natal «não é um conto para crianças», mas sim a «resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz».

A mensagem começou com uma expressão de pesar porque em «Belém, que é uma cidade símbolo da paz na Terra Santa e em todo o mundo, não reina a paz». Bento XVI explicou em seguida que o Natal «é profecia de paz para cada homem, compromete os cristãos na tomada de consciência de dramas, com frequência desconhecidos e escondidos, e dos conflitos do contexto em que se vive». Recordou que o Natal tem que fazer com que os homens se transformem em «instrumentos e mensageiros de paz, para levar o amor aonde há ódio, perdão onde haja ofensas, alegria onde haja tristeza e verdade onde haja erros».

Entretanto, a comunidade judaica critica a decisão do papa de aprovar as «virtudes heróicas» de Pio XII, primeiro passo para a sua beatificação, apenas faltando que se reconheça um milagre feito por sua intercessão para que Eugenio Pacelli seja considerado beato.

Será que os judeus têm razão? Vamos ver. [Read more…]

No 5 Dias: o descaramento da indecência

Hitler & Stalin

Independentemente do juízo que possamos formar acerca do tipicamente italiano Berlusconi, existem limites que na política não podem nem devem ser ultrapassados. O bestial apelo à violência e desrespeito pela integridade física dos agentes políticos – sejam eles quem forem -, surge cada vez mais como apanágio de uma certa ideia de “liberdade” que pode num futuro não muito distante, virar-se contra os próprios promotores da agressão. Ainda há uns anos, aqueles que com gaudio sempre gostaram de exibir as chocantes imagens de Mussolini na Piazza del Loreto, indignaram-se com a execução dos Ceausescus ou de Saddam Hussein. Há um perceptível movimento pendular que a ninguém passa em claro, Berlusconis à parte.

No 5 Dias, há quem tenha perdido a vergonha e despudoradamente alinhe de forma aberta com os esquemas organizativos de Al Capone, Himmler ou da dupla Iezhov/Béria. Espancamentos à falta do morticínio puro e simples, eis a forma de ver a política sob o prisma dos caderninhos revolucionários que um Lenine tão bem aplicaria a muitos milhares que depressa chegariam a milhões. Não esqueceram nem aprenderam coisa alguma. Incrível.

A máquina do tempo: por que motivo não compraram os quadros do jovem Adolf?

 

Um documento esquecido nos Arquivos Nacionais Franceses, datado de 1924, e recentemente encontrado, descreve Adolf Hitler – já nessa altura líder do Partido Nacional Socialista Operário Alemão – como um "demagogo bastante astuto" e como o equivalente germânico do ditador italiano Benito Mussolini. Contudo, não alerta para uma eventual influência de Hitler na realidade europeia dos anos seguintes. Ao que parece, ninguém parecia ter-se apercebido do perigo que aquele demagogo, com bigode chaplinesco e com o penteado de risca ao lado, representava.

«Não é idiota, mas sim um demagogo bastante astuto", afirma a breve e amarelecida nota redigida por um espião francês, acompanhada por uma fotografia de Hitler vestido com fato e gravata. O agente apresenta Hitler como “o Mussolini alemão”, avisando que “comanda grupos paramilitares de orientação fascista”, embora não recomendasse a adopção de qualquer medida contra o homem que iria desencadear a  Segunda Guerra Mundial e ordenar o Holocausto.

 

Esta nota faz parte de um enorme arquivo que remonta ao período em que as tropas francesas ocuparam a Alemanha após o final da Primeira Guerra Mundial. O relatório sobre Hitler, que muito em breve estará à disposição dos historiadores, estava guardado num arquivo de metal fabricado em 1791 durante a Revolução Francesa, que contém mais de 800 textos, entre os quais se destaca o diário de Luís XVI e de Maria Antonieta. Estes documentos foram posteriormente transportados para Paris em 1930 e estão armazenados desde então nos Arquivos Nacionais. A nota que descreve Hitler é acompanhada de textos similares que se referem aos seus lugar-tenentes, Goebbels, Hermann Goering e Heinrich Himmler, ministro do Interior e chefe da policia alemã, ao qual se acusa directamente de “racista”.

 

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Em 1924, Adolf, com 36 anos, fora preso em 26 de Fevereiro e , em 1 de Abril, condenado a cinco anos de cadeia devido às suas actividades políticas. Na prisão de Landsberg redigiu o primeiro volume de «Mein Kampf». Em 20 de Dezembro obteve a liberdade condicional mediante o pagamento de uma fiança. Desde 1919 estava ligado ao DAP (Partido Alemão dos Trabalhadores), sendo nomeado responsável pela propaganda; em 1920 o partido mudaria a sigla para NSDAP (Partido Operário Nacional Socialista Alemão). Em 1921, passaria a ser o número um da organização que ganhava rapidamente os seus contornos agressivos, criando as SA (divisões de assalto) e as SS(secções de protecção). Uma carreira meteórica e cheia de êxitos até à derrota final.

 

 

Se viajarmos um pouco mais para trás, vamos encontrar um jovem cabo austríaco desmobilizado, andando à deriva numa Berlim boémia, cosmopolita, dominada por judeus ricos e vivendo os anos loucos do pós-guerra.

 

 Em 1910, com 22 anos, Hitler estudava na Academia de Belas Artes, ganhando algum dinheiro pintando postais e desenhando cartazes de publicidade a detergentes, graxa para sapatos e outros artigos de consumo. Sem êxito – os quadros não se vendiam e os trabalhos com que ganhava a vida, escasseavam. Esse fracasso na arte e na publicidade atirou-o para as lides políticas onde descarregou a sua frustração contra um mundo que não soubera apreciar os seus dotes. Pelo que se pode ver das suas produções artísticas, não terá passado ao lado de uma grande carreira, como se costuma dizer dos futebolistas. Perdeu-se um mau pintor e ganhou-se um político horroroso. Os judeus ricos de Berlim deviam ter comprado os seus quadros sem regatear os módicos preços.

 

Imprudências.

 

 

 

A máquina do tempo: a juventude é um lugar estranho

 

«A Antiguidade do tempo é a juventude do mundo», disse Francis Bacon, político e filósofo inglês do século XVII. E com este pensamento, respeitável, poético e profundo, inicio uma feérica girândola de citações sobre o tema da juventude. Um tema inesgotável (como quase todos os temas). Vamos a isso.

Era Bernard Shaw, o escritor irlandês, prémio Nobel de 1925,  quem dizia que a «juventude é uma coisa maravilhosa», acrescentando cinicamente, «só é pena ser desperdiçada nos jovens». Herbert Asquith, um político britânico do princípio do século XX, disse quase a mesma coisa, mas de uma maneira mais prosaica: «A juventude seria uma idade ideal se chegasse numa fase mais tardia da vida». Shaw, obviamente, através de um dito espirituoso, faz uma afirmação igualmente profunda: os jovens vivem a juventude, mas não têm nem tempo nem distância para a poder apreciar. Apenas o nostálgico filtro da idade permite avaliar tudo o que a juventude teve de bom.

Paul Nizan, o escritor e filósofo francês, em «Aden Arabie» punha a questão em termos mais introspectivos e pessimistas – «Eu tinha vinte anos. Não deixarei ninguém dizer que é a mais bela idade da vida». Nizan, mesmo aos velhos, que em sonhos regressam todos os dias à sua juventude, idealizando-a já que não a conseguem reviver, recorda-lhes a terrível angústia dos vinte anos – a protecção, que nos acompanhou até ao fim da adolescência, terminou, abrindo-se agora o mundo para uma paisagem nebulosa, onde se esfumam as convicções da criança e a experiência do adulto é quase nenhuma. Ou seja, abre-se uma porta para o desconhecido. A isto junta-se a revolta por nada ser como o desejaríamos, num mundo dominado pelos velhos (pelos que têm mais de trinta anos). Para creditar o pessimismo de Nizan, aprecie-se o número de jovens que, por volta dos vinte anos, se suicidam. A juventude é um lugar estranho.

 

«Nos olhos do jovem arde a chama, nos olhos do velho brilha a luz», disse o grande escritor francês Victor Hugo. É um lugar-comum o atribuir-se esse ardor indomável à juventude e a luz da sabedoria à velhice. Como se não houvesse jovens néscios, preguiçosos e cobardes e velhos estúpidos e ignaros como carros de bois. Mas, como veio do grande Victor Hugo, deixemos passar. Adulando a juventude, os velhos, ou melhor, a sociedade, procuram instrumentalizá-la, aproveitando o seu entusiasmo e energia, canalizando-os para os seus objectivos. Positivos ou negativos (geralmente, negativos)

Guevara, que nunca chegou a ser velho, dizia: «o alicerce fundamental da nossa obra é a juventude». Mussolini foi, na história recente, um dos primeiros a aperceber-se do enorme potencial de energia gratuita que a juventude, no seu conjunto, contém. Não é por acaso que o hino fascista se chamava «Giovinezza» (juventude), dizendo no seu saltitante estribilho: «Giovinezza, giovinezza,/Primavera di bellezza…»

A Opera Nazionale Balilla, arregimentando os jovens e enquadrando-os politicamente, foi uma das forças primordiais do regime. Os bandos de adolescentes de camisa negra, empunhando matracas, aterrorizavam, batiam, matavam. Entravam num café e quem, por exemplo, não fizesse de imediato a saudação fascista era espancado e por vezes os rapazes só paravam quando o «infractor» estava desfeito, morto. É que os jovens têm certezas e dificilmente aceitam que se possa pôr em dúvida as suas convicções. Por isso eu falei em canalização positiva ou negativa do ardor e da energia juvenis.

Hitler, com as suas «hitlerjugend» seguiu as pisadas do ditador italiano no aproveitamento da juventude. Não poucos foram os pais denunciados pelos filhos que punham o ideal e o führer acima da família, como lhes era ensinado. Franco, não se fez rogado e criou as suas «juventudes», os jovens camisas azuis, dispostos a abdicar da vida e do amor em prol da «causa» – «Cara al sol con la camisa nueva,/que tú en rojo bordaste ayer /me hallará la muerte si me lleva/y no te volvo a ver…»

Em Portugal, Salazar, embora tentando fugir dos arroubos fascistas (porque mais do que fascista, ele era salazarista), não resistiu à pressão dos entusiastas e criou a Mocidade Portuguesa: «Lá vamos que o sonho é lindo,/Torres e torres erguendo,/Clarões, clareiras abrindo/Alva de luz imortal…» Os movimentos comunistas não perderam também essa energia. Na União Soviética, na China Popular, na Jugoslávia de Tito, na Cuba de Fidel, não se desperdiçou esse caudal de força, esse pilar, como lhe chamou o Che.

Usa-se muito nos partidos políticos o lugar comum – «a juventude é o futuro», como se isso fosse uma coisa importante. Porque o que é importante é saber que futuro vai haver, em que mundo os jovens vão viver amanhã., em suma, que futuro lhes vamos legar. O futuro não é necessária nem garantidamente melhor do que o presente. Joseph Joubert alimentou também o mito com uma frase célebre: «Nos homens apenas há de bom os seus jovens sentimentos e os seus velhos sentimentos». Benjamin Disraeli, um primeiro – ministro da rainha Vitória considerou «A juventude de uma nação é a depositária da posteridade». Bonitas palavras para nada dizerem.

Há também os que afirmam, como Samuel Ullman, que «a juventude não é uma época da vida, é um estado espírito». Claro que, sob diversas variantes, esta frase é extremamente agradável aos que já não são jovens. O grande arquitecto norte-americano Frank Lloyd Wright disse o mesmo por outras palavras – «A juventude é uma qualidade e não uma questão de circunstância». Na realidade, há velhos com espírito jovem (veja-se Manoel de Oliveira). Pablo Picasso dizia mesmo: «Precisamos de muito tempo para nos tornarmos jovens». Não que seja mentira, mas estamos, neste caso, não a falar de idades, mas de graus de inteligência, de vivacidade, de entusiasmo. Que, claro, não são sentimentos exclusivos dos jovens.

Há maniqueísmos entre os jovens, considerando todos os velhos caducos e ultrapassados, e entre os velhos abundam os aforismos sobre a inépcia dos jovens. No fundo, como sempre que se generaliza, erra-se, porque nem a juventude é sempre impetuosa e ardente, nem a velhice é sempre sábia e iluminada. Um estúpido é um estúpido, tenha a idade que tiver. O contrário é igualmente verdade. Neste sentido, Blaise Pascal reconheceu que «quando somos jovens ajuizamos mal as coisas e quando somos velhos também.» e Ambrose Gwinett Bierce, um jornalista americano do princípio do século XX, afirmou que «se chama experiência a quando renunciamos dos erros da juventude para os substituir pelos da velhice».

O surrealista Jean-Louis Bédouin, no seu livro «André Breton» (1955), rebela-se contra os «conselhos» que os mais velhos se acham no direito de ministrar aos jovens: «Porque se existe algo que, para nós, incarne o surrealismo é a juventude; a juventude que não sabe o que fazer com os conselhos dos velhos, os infames velhos que, não contentes em nos terem legado a memória de duas guerras, um mundo corrompido e a ameaça de uma terceira matança, levam a impudência ao ponto de nos querer ensinar quem vive e quem morre…»

«Se pudesse voltar à juventude, cometeria todos os erros que cometi. Só que os cometeria mais cedo», disse Tallulah Bankhead, a actriz americana dos anos 40 do século passado, num registo bem-humorado e lúcido. De facto, aos velhos nada de melhor resta do que reconciliarem-se com o seu «eu» de décadas atrás e aos jovens, se me estivessem a ler, recomendaria prudência. Porque, como também disse Francis Bacon, «os desatinos da juventude são conspirações contra a velhice e pagam-se caro ao anoitecer as loucuras praticadas pela manhã».

E, com esta, por hoje, me retiro.