A máquina do tempo: por que motivo não compraram os quadros do jovem Adolf?

 

Um documento esquecido nos Arquivos Nacionais Franceses, datado de 1924, e recentemente encontrado, descreve Adolf Hitler – já nessa altura líder do Partido Nacional Socialista Operário Alemão – como um "demagogo bastante astuto" e como o equivalente germânico do ditador italiano Benito Mussolini. Contudo, não alerta para uma eventual influência de Hitler na realidade europeia dos anos seguintes. Ao que parece, ninguém parecia ter-se apercebido do perigo que aquele demagogo, com bigode chaplinesco e com o penteado de risca ao lado, representava.

«Não é idiota, mas sim um demagogo bastante astuto", afirma a breve e amarelecida nota redigida por um espião francês, acompanhada por uma fotografia de Hitler vestido com fato e gravata. O agente apresenta Hitler como “o Mussolini alemão”, avisando que “comanda grupos paramilitares de orientação fascista”, embora não recomendasse a adopção de qualquer medida contra o homem que iria desencadear a  Segunda Guerra Mundial e ordenar o Holocausto.

 

Esta nota faz parte de um enorme arquivo que remonta ao período em que as tropas francesas ocuparam a Alemanha após o final da Primeira Guerra Mundial. O relatório sobre Hitler, que muito em breve estará à disposição dos historiadores, estava guardado num arquivo de metal fabricado em 1791 durante a Revolução Francesa, que contém mais de 800 textos, entre os quais se destaca o diário de Luís XVI e de Maria Antonieta. Estes documentos foram posteriormente transportados para Paris em 1930 e estão armazenados desde então nos Arquivos Nacionais. A nota que descreve Hitler é acompanhada de textos similares que se referem aos seus lugar-tenentes, Goebbels, Hermann Goering e Heinrich Himmler, ministro do Interior e chefe da policia alemã, ao qual se acusa directamente de “racista”.

 

*

Em 1924, Adolf, com 36 anos, fora preso em 26 de Fevereiro e , em 1 de Abril, condenado a cinco anos de cadeia devido às suas actividades políticas. Na prisão de Landsberg redigiu o primeiro volume de «Mein Kampf». Em 20 de Dezembro obteve a liberdade condicional mediante o pagamento de uma fiança. Desde 1919 estava ligado ao DAP (Partido Alemão dos Trabalhadores), sendo nomeado responsável pela propaganda; em 1920 o partido mudaria a sigla para NSDAP (Partido Operário Nacional Socialista Alemão). Em 1921, passaria a ser o número um da organização que ganhava rapidamente os seus contornos agressivos, criando as SA (divisões de assalto) e as SS(secções de protecção). Uma carreira meteórica e cheia de êxitos até à derrota final.

 

 

Se viajarmos um pouco mais para trás, vamos encontrar um jovem cabo austríaco desmobilizado, andando à deriva numa Berlim boémia, cosmopolita, dominada por judeus ricos e vivendo os anos loucos do pós-guerra.

 

 Em 1910, com 22 anos, Hitler estudava na Academia de Belas Artes, ganhando algum dinheiro pintando postais e desenhando cartazes de publicidade a detergentes, graxa para sapatos e outros artigos de consumo. Sem êxito – os quadros não se vendiam e os trabalhos com que ganhava a vida, escasseavam. Esse fracasso na arte e na publicidade atirou-o para as lides políticas onde descarregou a sua frustração contra um mundo que não soubera apreciar os seus dotes. Pelo que se pode ver das suas produções artísticas, não terá passado ao lado de uma grande carreira, como se costuma dizer dos futebolistas. Perdeu-se um mau pintor e ganhou-se um político horroroso. Os judeus ricos de Berlim deviam ter comprado os seus quadros sem regatear os módicos preços.

 

Imprudências.

 

 

 

Comments


  1. Se o nariz da Cleópatra tivesse mais uns centímetros a história seria outra.


  2. Pois. E a minha máquina visita o passado, mas não o pode modificar.


  3. Mas é extraordinário como é que um homem assim, chegou onde chegou.E eleito, o que parece aconselhar que há certos conceitos absolutos que não deveriam ser tão absolutos assim.

  4. isac says:

    pois é. eu sempre digo: nunca se metam com um artista frustrado.


  5. Nem com um artista frustrado, nem com colunistas desempregados (designação da Clara Ferreira Alves para os colaboradores dos blogues). Cuidado connosco!

  6. isac says:

    pois. eu vi essa “opinião”. é o medo do “quarto poder” perante o aparecimento galopante do “quinto poder”.Mas a pergunta inicial é muito pertinente e faz pensar como um acto inocente de comprar um mísero quadro sem grande valor de um autor “desconhecido” poderia influenciar toda a história sem se ter noção disso. Mas para perceber isso seria necessário uma verdadeira “máquina do tempo”.


  7. Sei que é leitor de FC. Ora, de acordo com a boa literatura do género, e com base na teoria de Einstein, as viagens no tempo, a serem possíveis, não podem nunca alterar o passado. Tudo o que se altere, por mínimo que seja, terá repercussões no futuro, isto é no nosso presente. Portanto, mesmo que conseguíssemos ir a Berlim, imediatamente após a I Guerra, teríamos de assistir impotentes ao evolucionar daquele estranho animal. Sabendo nós tudo o que se iria passar, sofreríamos muito.


  8. De facto, as paredes das salas de toda a Europa estão cheias de vistas de cidades bem piores que aquelas que AH pintava. Geralmente, pagamos pelo que fazemos e a mim, por exemplo, estão-me sempre a “rebentar castanhas na boca”. É claro que o caso AH é infinitamente mais sério, como o Carlos bem diz.Quanto à responsabilidade francesa na sua ascensão, dá em que pensar. O sr. Clemenceau e o seu governo, esqueceram-se rapidamente da forma como a França foi tratada no Congresso de Viena: pôde negociar, manteve a independência e regressou às fronteiras de 1789. Até nós, invadidos e com perto de 20% da população exterminada, devolvemos a Guiana que muito logicamente devia ter sido uma magra compensação a receber.Não. Eles impuseram uma política muito dura de reparações, ocuparam o Ruhr, distribuíram cacetadas a torto e a direito no operariado esfaimado, impuseram a continuação do bloqueio, etc. Quanto a Versalhes, os franceses não quiseram ouvir a opinião mais acertada dos ingleses que conscientes da realidade das coisas – o dinheiro, sempre o dinheiro – aconselharam a contemporizar. O próprio Churchill avisou acerca do que significava uma Alemanha “sem rei nem roque”. Viu-se! Semearam os ventos e colheram a tempestade em 1940, coisa que não os impediu minimamente de em grande número, engrossarem os livros de colaboracionistas da Gestapo, denunciando vizinhos “sabotadores” e “judeus”. Misérias…Nada deve dar mais prazer e realização pessoal aos historiadores, que a abertura dos arquivos fechados há décadas ou até, séculos. Quanta Estória tem sido vertida para os livros, afastando a História que existiu e que pouco a pouco vamos conhecendo. 


  9. Desde que não falemos do período entre o 31 de Janeiro e o 28 de Maio, há uma grande e harmónica convergência no que pensamos. Estou inteiramente de acordo com a sua análise ao período que antecedeu a II Guerra – nem ingleses, nem franceses, quiseram ver o que estava a acontecer na Alemanha. Durante as minhas andanças da juventude, vivi um tempo em França (em 1958-59) e pude observar como, numa grande percentagem percentagem, os franceses eram anti-semitas. Quando foram invadidos, muitos deles apressaram-se a ir denunciar os vizinhos judeus aos quais, em muitos casos deviam favores e dinheiro. Denunciar judeus era uma forma prática de arrumar dívidas. Por isso, eu lhe chamei a atenção para a injustiça de nos flagelarmos, atribuindo-nos todos os defeitos. Pelo que tenho visto, a percentagem de canalhas é sensivelmente a mesma que se verifica nos outros lados. A História é feita, muitas vezes, de mitos e de falsas ideias. É a tal «estória» de que o NUno fala.

  10. dal-TÓNICO says:

    Ricardo, Maria, Carla & Nuno (os 4 beatles aventares): Estive a ouvir e a treinar o meu alemão esquecido..dos bons velhos tempos da Pinocoteca de Munchen… aqui o discurso do queridissimo Adolfo, e dos tempos do Goethe Institut que já não o ouvia esta gritaria toda (a prof odiava-me a mim e à Paula! chumbava-nos sempre!!)..e gostaria de aproveitar a ocasião para saudar este discurso e estilo para substituir o meu despertador de manhã..com aquele vozeirão e estilo ‘Histérica de Rio Tinto’ eu acordava logo..qual lazy lazy mornings!!! …e se não se importam eu queria perguntar uma coisa ao darling Adolf baby:-Oh Tio Adolfo, podia dizer-me onde compra essa brilhantina tão boa e dura que lhe põe esse cabelo tão sedoso e pose de «IRREQUIETA»? Eu não sei porque é que as pessoas detestam tanto o tio, afinal só tem é dom de palavra e mais sucesso com as mulheres do que o Primo Ricardo do Monte dos Vendavais (RIO TINTO À NOITE QUANDO FAZ VENTO!!!)…-O tio já pensou em mudar as baterias para a Maia, e arrumar de vez com os gajos de chapéu… lá da zona…?…se ouvisse o que eles ouvem como melodias…era fogueira com eles, mas aí eu ajudava o tio também..até os empurrava para a valeta..bisoux do seu mais que tudo Primo dalby

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