Ai Mouraria…

Mas que raio se passa na Câmara de Lisboa cujo executivo decidiu expropriar uma série de prédios na Mouraria para que ali se construa uma mesquita? Não colhe a declaração de que os “prédios estão devolutos e em mau estado”, já que uma linha de edifícios sofreu recentes obras de restauro por determinação do próprio Município. Compreendo a fúria estético-urbanística de Manuel Salgado, grande arquitecto mas medíocre político. Mas a deliberação colectiva é surpreendente. Sublinho que se a expropriação fosse para construir um templo de qualquer outra religião – ou servisse qualquer interesse poderoso – esta nota seria exactamente igual. Quem quer construir seja o que for sujeite-se a comprar os terrenos disponíveis e a seguir a lei como toda a gente.

Derrubar muros

Muçulmanos, judeus e cristãos oram juntos na mesquita de Lisboa.”

Guerra da Guiné (Pequenas memórias)

Ainda Canquelifá, a minha primeira estadia no mato. Permaneci em Canquelifá durante o terceiro trimestre de 1966. Muitas coisas boas e más aconteceram durante esse tempo. Relatá-las levava um livro.

Canquelifá (à direita e em cima o nosso aquartelamento) [Read more…]

Uma mesquita no sítio das Torres Gémeas

A ideia de construir uma mesquita no Ground Zero, muito perto do local onde se erguiam as Torres Gémeas, só pode levantar polémica e despertar acesas discussões. Ainda bem que assim é.

Entre os vários argumentos apresentados, os defensores da mesquita salientam que a sua existência melhoraria o diálogo inter-religioso e ajudaria a lançar pontes entre as comunidades que professam outras religiões e as muçulmanas e islâmicas. Alguns líderes religiosos entendem que a solução deverá ser encontrada através do diálogo com as famílias dos mortos em 11 de Setembro, enquanto outros vêm aqui uma oportunidade de cimentar o que designam por macro-ecumenismo.

Por outro lado, o coro dos opositores afirma tratar-se de um ultraje e de uma chapada na cara dos nova-iorquinos. Há, inclusivamente, quem compare a construção da mesquita com a inauguração de um memorial a Hitler em Auchwitz ou com o estabelecimento de um centro cultural japonês em Pearl Arbour. Algumas vozes acusam os promotores da iniciativa de provocação e referem que estes pretendem reescrever a história.

Uma busca através do Google pela imprensa americana faz-me concluir que a ideia tem mais opositores do que apoiantes, sendo alguns artigos bastante violentos. Mas, digo eu, se a mesquita se concretizasse e alguns rancores fossem ultrapassados, estaríamos perante um exemplo de democracia, tolerância e respeito pela liberdade religiosa, valores que o ocidente afirma praticar. Mais importante ainda: seria dada uma forte machadada nos argumentos de muitos grupos fundamentalistas e nos discursos que, em ambos os lados, retiram a possibilidade de cada um respeitar o outro com base nas suas escolhas culturais e/ou religiosas.

O paradigma da Grande Mesquita de Cordoba

Mesquita de Cordoba 2

Interior da Mesquita de Cordoba

A história do Al-Andalus desperta sentimentos e emoções apaixonadas, discussões acesas e opiniões contraditórias.  E apesar de, numa visão superficial, ser uma história de antagonismos e conflitos, o Al-Andalus foi um espaço de aprendizagem de vida comunitária de várias realidades étnicas, religiosas e sociais, um espaço de convivência, de aplicação de modelos de organização social e política, de experiências espirituais, de florescimento cultural. Esta realidade esteve inclusivamente presente durante o processo de arabização da Península e também, de forma transitória, no período inicial do processo de conquista do Al-Andalus pelos Reinos Cristãos, conforme atestam inúmeros documentos da época.

Mas a realidade é que as disputas territoriais entre cristãos e muçulmanos terminaram invariavelmente com a demolição dos locais de culto de uns e outros. Inclusivamente na (erradamente) chamada reconquista cristã”, assiste-se invariavelmente à demolição das mesquitas e construção no mesmos locais de igrejas. Mesmo nos casos em que as mesquitas eram inicialmente “purificadas” (termo usado por alguns cronistas da época) para nelas se celebrar o culto cristão, e mesmo nas situações em que a vontade era a de adaptar a antiga mesquita a igreja, a mesquita acabava por ser demolida, salvo raras excepções. E demolida porquê? Simples ódio religioso, intolerância ou violência gratuita? Ou seja, apenas por razões ideológicas? [Read more…]