Breves discursos sobre a Primavera (Poesia & etc.)


Primavera, de Picasso.

Assinalemos a chegada da Primavera através de algumas vozes privilegiadas. Picasso viu-a assim. Vejamos agora como Pablo Neruda saúda a mais poética das estações (Excerto do poema Oda a la Primavera, de «Odas Elementales»):

Primavera
temible,
rosa
loca,
llegarás
llegas
imperceptible,
apenas
un temblor de ala, un beso
de niebla con jazmines,
el sombrero
lo sabe,
los caballos,
el viento
trae una carta verde
que los árboles leen
y comienzan
las hojas
a mirar con un ojo,
a ver de nuevo el mundo,
se convencen,
todo está preparado,
el viejo sol supremo,
el agua que habla,
todo
y entonces
salen todas las faldas
del follaje,
la esmeraldina,
loca
primavera (…)
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As conchas de Neruda

Pablo Neruda a recolher conchas em Cuba (Foto de Mario Carreño)

Pablo Neruda, o grande poeta chileno, coleccionava conchas e búzios. Fê-lo ao longo de décadas, recolhendo exemplares um pouco por todo o mundo. Doou a sua colecção à  Universidade do Chile, mas durante décadas, e por dificuldades várias, essa colecção ficou semi-oculta, estando apenas uma pequena parte em exibição. Recentemente, e com a colaboração de instituições espanholas, a colecção foi reorganizada, e mostra-se agora em Madrid, na sede do Instituto Cervantes, sob o título “Amor al mar”.

São perto de quatro centenas de exemplares, que Neruda recolheu e preservou ao longo de vários anos, desde os seus quinze anos, quando viu pela primeira vez o mar, até cerca de 35 anos depois, quando decidiu oferecer a sua colecção à Universidade, em conjunto com a sua vastíssima biblioteca, dizendo:

“El esplendor de estos libros, la gloria oceánica de estas caracolas, cuanto conseguí a lo largo de la vida, a pesar de la pobreza y en el ejercicio constante del trabajo, lo entrego a la Universidad, es decir, la doy a todos.” [Read more…]

A máquina do tempo: Víctor Jara

A música para este poema de Pablo Neruda – «Poema 15», «Me gustas cuando callas» – foi escrita por Víctor Jara, que interpreta também a composição. Todos ouviram já falar do cantautor Víctor Jara. Até existe em Portugal um agrupamento chamado Brigada Víctor Jara. Alguns até devem saber que era chileno. Outros, indo um pouco mais longe no conhecimento sobre este grande cantor, saberão que foi assassinado nos primeiros dias da feroz repressão que se seguiu ao golpe de estado de Pinochet. Vou hoje falar sobre esse homem que se transformou num dos símbolos da heróica resistência chilena à ditadura militar. Sábado passado, dia 5, foi realizada uma cerimónia, um segundo funeral do grande músico, já que o primeiro se fez clandestinamente. Desta vez, uma multidão acompanhou Jara  – sobreviventes da ditadura e do exilio. O cantor catalão Joan Manuel Serrat escreveu um texto de homenagem. Trinta e seis anos depois, Víctor Jara teve um funeral condigno. [Read more…]

A máquina do tempo: a XIX Cimeira Ibero-Americana de Lisboa, as Honduras e o bicentenário da independência

 

No próximo ano celebra-se o bicentenário de uma parte das nações latino-americanas. Essa luta de libertação foi particularmente empolgante pela grande solidariedade que existia entre os diversos povos e forças envolvidas na luta pelas independências nacionais. Por exemplo, os generais argentinos O’Higgins e San Martín atravessando a cordilheira dos Andes para libertar o Chile ou Simón Bolívar, nascido em Caracas, actual capital da Venezuela, avançando desde o norte do subcontintente, indo pela Venezuela e Colômbia, passando ao Equador para atingir o coração da América Latina e ali implantar uma nova nação – a Bolívia. Solidariedade que actualmente não se verifica, como se vê na posição que cada país da região toma face à grave crise hondurenha.

 

Neste momento, dois séculos depois dessa épica fraternidade, existe uma profunda divisão entre os países latino-americanos. Ilustrando bem essa divisão, no rescaldo da XIX Cimeira Ibero-Americana realizada no Estoril, e que terminou na passada terça-feira, salienta-se o facto de a crise nas Honduras, ter dividido os delegados das 22 nações representadas. A presidência portuguesa obteve uma declaração que condenando o golpe nas Honduras conseguiu reunir consenso. Porque os estados americanos de língua espanhola e portuguesa não se entendem quanto a este recente episódio da queda do presidente Manuel Zelaya, em 28 de Junho, e da não-legitimação das eleições .

 

A «Declaração de Lisboa» e os termos em que foi redigida, condenando «as graves violações dos direitos e liberdades fundamentais do povo hondurenho», mas não assumindo qualquer posição quanto à farsa das eleições de 29 de Novembro, demonstra bem a gravidade da divergência entre povos outrora irmãos. A clivagem faz-se entre os países que, alinhando a sua posição pela dos Estados Unidos – Panamá, Costa Rica, Colômbia e Peru – legitimam a vitória de Porfírio Lobo, e aqueles que consideram essas eleições aquilo que evidentemente foram – «uma paródia», como a classificou Cristina Kirchner, a presidente da Argentina; além deste país, recusam liminarmente a legitimação, o Brasil, a Venezuela, o Equador a Bolívia e Cuba.

 

Há depois os que assumem uma posição intermédia, apadrinhada por Espanha. José Rodríguez Zapatero reconheceu que se realizaram as eleições, conforme estava constitucionalmente previsto, mas em «circunstâncias anómalas». O Brasil, o gigante do hemisfério, apresentou a postura mais firme, recusando o resultado de umas eleições fraudulentas. Para que a beligerância dos discursos atingisse grandes proporções, faltou a voz de Hugo Chávez que não veio ao Estoril. Raúl Castro também não apareceu, fazendo-se representar pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez.

 

Todos os representantes presentes na cimeira do Estoril se comprometeram a colaborar no sentido de possibilitar um «diálogo nacional nas Honduras e a devolução do regime democrático ao povo hondurenho». Entretanto, em 27 de Janeiro, Porfírio «Pepe» Lobo toma posse e termina a hipótese do tal diálogo. Manuel Zelaya continua a ser o presidente constitucional, teoricamente em funções, embora na realidade esteja desde 22 de Setembro refugiado na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Por aqui se vê como foi pífia a decisão da cimeira.

*

Em resumo: não se chegou a acordo quanto às Honduras, nem quanto ao clima, um dos assuntos em que se deveriam ter centrado as conversações ibero-americanas, quando faltam poucos dias para abrir em Copenhaga a conferência da ONU sobre as alterações climáticas. Condenando a falta de resoluções concretas, activistas da Greenpeace escalaram durante a manhã de segunda-feira, dia 30 de Novembro, a Torre de Belém, para chamar a atenção dos líderes ibero-americanos. O protesto foi reprimido horas depois pela polícia, que deteve nove militantes da organização ecologista.

 

Entretanto, notícias da madrugada de hoje dão-nos conta da decisão do Congresso hondurenho ter votado contra o regresso de Zelaya à presidência para terminar o seu mandato. Dos 128 deputados, 78 votaram contra a restituição do mandato presidencial a Manuel Zelaya e 11 a favor, abstendo-se os restantes. Cada deputado pôde justificar o seu voto. Muitos dos que votaram contra, alegaram pretender «fortalecer a democracia», aludiram à «paz e tranquilidade do país», congratularam-se pela «limpeza» e pela «transparência das eleições». Alegou-se também a grande influência que Hugo Chávez exercia sobre o mandatário deposto. A palavra «pátria» entrou em quase todas as declarações de voto.

 

Por aqui se vê o que valem as palavras – gente que está a minar, a destruir a liberdade e a democracia na sua pátria, a apoiar o resultado de umas eleições que foram tudo menos transparentes e que uma grande parte da comunidade internacional se recusa reconhecer como legítimas, usa o nome dos valores que traiu para justificar a traição.

*

Voltando à próxima passagem, em 2010, do Bicentenário das primeiras independências de países latino-americanos, Ricardo Lagos, presidente da República do Chile entre 2000 e 2006, e que preside actualmente, com o escritor mexicano Carlos Fuentes ao Foro Ibero-América salienta num artigo publicado, sábado, 28, no El País, esta característica da luta de libertação dos povos da América Latina, colonizados até então pelo estado espanhol e por Portugal – a grande solidariedade entre os países irmãos que nasciam da extinção do império colonial espanhol. Chama-se esse texto «Uma nova independência» e termina assim:

 

«Celebramos estes 200 anos entendendo que agora, mais do que a afirmação da identidade nacional, devemos enfrentar em conjunto um processo de integração e, através desse processo, entender que nos reencontrámos com Espanha e Portugal para nos ajudarmos mutuamente na construção de um mundo melhor. Nesse contexto, as cimeiras ibero-americanas são determinantes no esforço por construir o início de uma comunidade de nações que, dos dois lados do Atlântico, compartilham ideias, história, língua e valores comuns. A partir da
,
essa comunidade entende que no século XXI temos um futuro para construir em conjunto. O bicentenário constitui uma oportunidade para renovar os laços de uma história que tem mais de 500 anos.»

 

Alusiva a essas figuras épicas e com base no XX poema do livro IV de «Canto General», de Pablo Neruda – (Los Libertadores), deixo-vos com a «Cantata a los libertadores», composta pelo argentino Raúl Mercado. É uma maravilha, o poema de Pablo e a música de Mercado, que dedico aos patriotas hondurenhos.

 

O’Higgins, para celebrarte

a media luz hay que alumbrar la sala…