A música para este poema de Pablo Neruda – «Poema 15», «Me gustas cuando callas» – foi escrita por Víctor Jara, que interpreta também a composição. Todos ouviram já falar do cantautor Víctor Jara. Até existe em Portugal um agrupamento chamado Brigada Víctor Jara. Alguns até devem saber que era chileno. Outros, indo um pouco mais longe no conhecimento sobre este grande cantor, saberão que foi assassinado nos primeiros dias da feroz repressão que se seguiu ao golpe de estado de Pinochet. Vou hoje falar sobre esse homem que se transformou num dos símbolos da heróica resistência chilena à ditadura militar. Sábado passado, dia 5, foi realizada uma cerimónia, um segundo funeral do grande músico, já que o primeiro se fez clandestinamente. Desta vez, uma multidão acompanhou Jara – sobreviventes da ditadura e do exilio. O cantor catalão Joan Manuel Serrat escreveu um texto de homenagem. Trinta e seis anos depois, Víctor Jara teve um funeral condigno.

nesta pequena parte
da cidade.
Somos cinco mil,
quantos seremos no total,
nas cidades e em todo o país?
Só aqui dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.
Quanta humanidade,
com fome, frio, pânico, dor
pressão moral, terror e loucura!
Seis de nós se perderam
no espaço das estrelas.
Um morto, um espancado como jamais imaginei
que se pudesse espancar um ser humano.
Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores
um saltando no vazio,
outro batendo a cabeça contra a parede,
mas todos com o olhar fixo da morte.
Que espanto causa o rosto do fascismo!
Levam a cabo os seus planos com precisão fantástica,
sem que nada lhes importe.
O sangue, para eles, são medalhas.
A matança é acto de heroísmo.
É este o mundo que criaste, meu Deus?
Para isso os teus sete dias de assombro e trabalho?
Nestas quatro muralhas só existe um número
que não cresce
e que lentamente quererá mais a morte.
Mas prontamente me golpeia a consciência
e vejo esta maré sem pulsar,
mas com o pulsar das máquinas
e os militares mostrando seu rosto de matrona,
cheio de doçura.
E o México, Cuba e o mundo?
Que gritem esta ignomínia!
Somos dez mil mãos a menos
que não produzem.
Quantos somos em toda a pátria?
O sangue do companheiro Presidente
golpeia mais forte que bombas e metralhas.
Assim o nosso punho golpeará novamente.
Como me sai mal o canto
quando tenho que cantar o espanto!
Espanto como o que vivo
como o que morro, espanto.
De ver-me entre tantos e tantos
momentos do infinito
em que o silêncio e o grito
são as metas deste canto.
O que vejo nunca vi,
O que tenho sentido e o que sinto
Fará brotar o momento…”
E vamos terminar com a «Plegaria a un labrador» esta pequena biografia de um grande homem, modesto trabalho que dedico ao nosso querido colega aventador Professor Doutor Raúl Iturra, um chileno que Pinochet obrigou a ser português. Agradecendo os seus textos, que iluminam este blogue e com um grande e fraterno abraço, dou a palavra ao imortal Víctor Jara cantando Pablo Neruda:






No DN de sábado «Creio que Victor Jara está por aqui, connosco (…) continua a viver e a lutar connosco por um mundo melhor» foi dito por Joan Turner viúva de VJ
Caro Carlos Loures,
bem tinhas-me advertido para ver o post da 2ª feira. Muito embora seja filho de espanhois, criado na Grã-bretanha, com descedência britânica, fui ao Chile do Allende. A historia a conheces porque está no mu post sobre Su Excelência. Conheci Victor Jara e, de volta em Cambridge, com 200 chilenos que levei, entre eles Hortênsia, tomé conta de Joan (Jara) e da filha deles, Paula. Carlos, fico sem palavras. Pablo Neruda era o nosso vizinho quando ele ou nós estávamos no Chile. Tenho um, de entre dezenas, livro escrito sobre Chile, com a Voz de Victor Jara: Te recuerdo Amanda. Sou romântico, chorava ao ouvir. Foi uma masacre. Como sabes, estive num campo também, mas as minhas mão não foram todas partidos como as do nosso Victor Jara, antes da tortura imensa que teve que suportar. O cantamos por toda Grã-bretanha em concertos de um grupo de chilenos e eu dava uma conferência. Alastrava multidões e foi quem angariou mais votos para a Sua Excelência, como chamamos aos Presidente do Chile. Preferi ler o teu post e coemntário, apenas a tarde. Sabia o que ia sentir….És um Senhor A nossa família, feliz com o Dictador. Ironias da vida: foi ao inferno -não sou homem de fé, mas para este sim, dev arder-no dia dos Direitos Humanos, em Dezembro
Raúl, querido amigo, peço-te muita desculpa por te ter causado uma emoção dolorosa. Mas tinha de homenagear o Víctor Jara no dia do seu funeral e não havia ninguém a quem fosse mais apropriado dedicar tão modesto trabalho. Um grande abraço.
Caro Carlos,
agradeço a homenagem ao Victor e pos causa dele, a mim. B
não fiques preocupado. É esse pranto silencioso, molhado, que não deixa ler, mas são tantos os prantos desde que visitei ao Chile da sua excelência e apenas me permiteram ir 35 anos depois. É o pranto do exílio das memórias, da terras amada, dos nossos amigos da infância, essa falta que, em criança, por causa das viagem do Senhor pai, faziamos, mas certos de tornar. Agora…é assim. Agradeçp o teu novo comentãrio. Não vou publicitar o meu telefone ne e-mail no Aventar, mas o Ricardo e o Luís sabem. Essa tristeza, Caro Carlos, nunca acaba. Todo acaba em vida, como denomino ao exílio, mas esa nostalgia….apenas com a morte. O Victor sofreu e duramente, mais mas mito mais do que eu. Foi a Joan quem teve a ousadia de resgatar o corpo,era britânica..como eu, resgatar a minha mulher e, neses tempo unica filha. Billy Callagham consultaca-me sempre a Cambridge e mal soube que a minha família, filha de General em Chefe a minha Mulher não as deixavam sair, diz-me: Professor, don’t you worry. A week later, they were, desculpa, uma semana a seguir estavam comigo e tivemos outra filha para recomezar a vida. Mas essas vidas nunca se recomeçam, o que acaba é duro demaos e separa….Abraço, Caro Carlos, vou fechar o computador.