A máquina do tempo: Víctor Jara

A música para este poema de Pablo Neruda – «Poema 15», «Me gustas cuando callas» – foi escrita por Víctor Jara, que interpreta também a composição. Todos ouviram já falar do cantautor Víctor Jara. Até existe em Portugal um agrupamento chamado Brigada Víctor Jara. Alguns até devem saber que era chileno. Outros, indo um pouco mais longe no conhecimento sobre este grande cantor, saberão que foi assassinado nos primeiros dias da feroz repressão que se seguiu ao golpe de estado de Pinochet. Vou hoje falar sobre esse homem que se transformou num dos símbolos da heróica resistência chilena à ditadura militar. Sábado passado, dia 5, foi realizada uma cerimónia, um segundo funeral do grande músico, já que o primeiro se fez clandestinamente. Desta vez, uma multidão acompanhou Jara  – sobreviventes da ditadura e do exilio. O cantor catalão Joan Manuel Serrat escreveu um texto de homenagem. Trinta e seis anos depois, Víctor Jara teve um funeral condigno.

Víctor Jara Martínez nasceu em Chillán, uma localidade da província de Ñuble, na região de Biobio, 400 km a sul da capital, Santiago, em 28 de Setembro de 1932, filho de modestos camponeses. Seu pai, Manuel Jara, trabalhava a terra e sua mãe, Amanda, era uma mulher corajosa e inteligente – cantora e tocadora de viola, oriunda do sul do país e de origem mapuche, possuía um grande conhecimento sobre a cultura popular chilena. Com a população da aldeia reunida em torno de uma fogueira, cantava para os aldeãos, trabalhadores rurais, suas mulheres e filhos.
Víctor recordava como sua mãe cantava e como se deitava escutando a sua voz e olhando as estrelas no céu imenso. Esta influência materna ditou, por certo, o futuro do jovem, pois trabalhando desde os seis anos no campo, ajudando seu pai, nos fins-de-semana acompanhava sua mãe, actuando em casamentos, baptizados, velórios. Apesar destas actividades, estudava e sempre foi bom estudante.
Víctor tinha quatro irmãos – María, Georgina (Coca), Eduardo (Lalo) e, o mais pequeno, Roberto. Devido a um acidente sofrido por María, a família foi morar para Santiago, em busca de melhores condições. Víctor e seu irmão Lalo foram matriculados no Liceu Ruíz-Table. Ambos obtiveram bons resultados nos estudos.
Entretanto, com a sua viola e a sua voz, Amanda ia permitindo que a família Jara sobrevivesse e até progredisse economicamente. Ao fim de algum tempo, os Jara mudaram-se para o bairro «Chicago Chico», onde Víctor se relacionou com outros jovens próximos do Partido Democrata Cristão. Conheceu Omar Pulgar. Em 1950, subitamente, Amanda morreu e os problemas recomeçaram.
Mudaram-se para Población Nogales onde Víctor reencontrou os irmãos Julio e Humberto Morgado, seus colegas do Liceu Ruíz-Table. A família Morgado acolheu Víctor que, abandonou temporariamente os estudos para ajudar Pedro Morgado, o chefe da família, no seu negócio. Foi então que o padre Rodríguez aconselhou Víctor a entrar no Seminário da Congregação dos Redentoristas, em San Bernardo. Conselho que Víctor acatou.
«Foi, para mim, uma decisão muito importante», dirá mais tarde, «Estava já envolvido com a Igreja e, naquele momento, procurei refúgio no seu seio». Porém, dois anos mais tarde, apercebendo-se da sua falta de vocação para o sacerdócio, abandonaria o seminário. Foi prestar serviço militar.
Em 1953, ingressou no grupo coral da Universidade do Chile, participando nos Carmina Burana, de Carl Orff. Começou a estudar arte dramática e direcção de actores na Escola de Teatro de Universidade do Chile. Fez parte do grupo de canto e dança popular «Cuncumén». Aí travou conhecimento com Violeta Parra, a grande folclorista chilena (1917-1967), que o incitou a prosseguir a carreira de músico.
Em 1959 encenou a sua primeira obra teatral. Entre as muitas peças que dirigiu, encontra-se a «Mandrágora» de Maquiavel. Com o grupo musical «Cuncumén», fez uma grande digressão pela Europa – Holanda, França, União Soviética e outros países de Leste.
Em 1961 compôs a sua primeira canção – «Paloma, quiero cantarte». Em 1966 gravou o seu primeiro LP. Começou a ser conhecido fora do Chile como cantor de intervenção. Em 1969, com a canção «Plegaria a un labrador», que aqui se reproduz na interpretação de Jara, venceu o I Festival da Nova Canção Chilena. Em 1970, envolveu-se activamente na campanha para a eleição de Salvador Allende.
Em 1971, nomeado embaixador cultural do Governo de Unidade Popular, trabalhou com o Ballet Nacional do Chile e colaborou no Departamento de Comunicações da Universidade Técnica do Estado. Continuou a editar discos e a sua fama cresceu, dentro e fora do Chile. Entre 1972 e 1973, trabalhou como compositor na Televisão Nacional. Fez uma nova digressão, agora por Cuba e pela União Soviética. Quando, em 1971, Pablo Neruda ganhou o Prémio Nobel da Literatura, Víctor Jara dirigiu a Homenagem nacional que prestada ao grande escritor. Como podemos ver, uma carreira brilhante. Até que chegou o dia 11 de Setembro de 1973…
O golpe de Estado de Augusto Pinochet, surpreendeu Víctor na universidade. Com outros professores e alunos, foi preso e levado para o Estadio Chile, transformado em campo de concentração. Membro do Partido Comunista do Chile, os seus versos contra a injustiça social são conhecidos pelos assassinos. Há muitas versões sobre as torturas a que foi sujeito. Cortaram-lhe as mãos (ter-lhe-ão dito, depois de o mutilarem: «Toca agora, filho da puta!»). No dia 16, após cinco dias de martírio, mataram-no. O fascismo sempre se sentiu ultrajado pela cultura. Porque será?
Aqui deixo o poema que escreveu nos primeiros dias de cativeiro e que alguns companheiros conseguiram preservar (não sei a quem se deve a tradução):
Somos cinco mil

nesta pequena parte
da cidade.

Somos cinco mil,

quantos seremos no total,

nas cidades e em todo o país?

Só aqui dez mil mãos que semeiam

e fazem andar as fábricas.

Quanta humanidade,

com fome, frio, pânico, dor

pressão moral, terror e loucura!

Seis de nós se perderam

no espaço das estrelas.

Um morto, um espancado como jamais imaginei

que se pudesse espancar um ser humano.

Os outros quatro quiseram livrar-se de todos os temores

um saltando no vazio,

outro batendo a cabeça contra a parede,

mas todos com o olhar fixo da morte.

Que espanto causa o rosto do fascismo!

Levam a cabo os seus planos com precisão fantástica,

sem que nada lhes importe.

O sangue, para eles, são medalhas.

A matança é acto de heroísmo.

É este o mundo que criaste, meu Deus?

Para isso os teus sete dias de assombro e trabalho?

Nestas quatro muralhas só existe um número

que não cresce

e que lentamente quererá mais a morte.

Mas prontamente me golpeia a consciência

e vejo esta maré sem pulsar,

mas com o pulsar das máquinas

e os militares mostrando seu rosto de matrona,

cheio de doçura.

E o México, Cuba e o mundo?

Que gritem esta ignomínia!

Somos dez mil mãos a menos

que não produzem.

Quantos somos em toda a pátria?

O sangue do companheiro Presidente

golpeia mais forte que bombas e metralhas.

Assim o nosso punho golpeará novamente.

Como me sai mal o canto

quando tenho que cantar o espanto!

Espanto como o que vivo

como o que morro, espanto.

De ver-me entre tantos e tantos

momentos do infinito

em que o silêncio e o grito

são as metas deste canto.

O que vejo nunca vi,

O que tenho sentido e o que sinto

Fará brotar o momento…”

E vamos terminar com a «Plegaria a un labrador» esta pequena biografia de um grande homem, modesto trabalho que dedico ao nosso querido colega aventador Professor Doutor Raúl Iturra, um chileno que Pinochet obrigou a ser português. Agradecendo os seus textos, que iluminam este blogue e com um grande e fraterno abraço, dou a palavra ao imortal Víctor Jara cantando Pablo Neruda:

Comments

  1. maria monteiro says:

    No DN de sábado «Creio que Victor Jara está por aqui, connosco (…) continua a viver e a lutar connosco por um mundo melhor» foi dito por Joan Turner viúva de VJ

  2. Raul Iturra says:

    Caro Carlos Loures,
    bem tinhas-me advertido para ver o post da 2ª feira. Muito embora seja filho de espanhois, criado na Grã-bretanha, com descedência britânica, fui ao Chile do Allende. A historia a conheces porque está no mu post sobre Su Excelência. Conheci Victor Jara e, de volta em Cambridge, com 200 chilenos que levei, entre eles Hortênsia, tomé conta de Joan (Jara) e da filha deles, Paula. Carlos, fico sem palavras. Pablo Neruda era o nosso vizinho quando ele ou nós estávamos no Chile. Tenho um, de entre dezenas, livro escrito sobre Chile, com a Voz de Victor Jara: Te recuerdo Amanda. Sou romântico, chorava ao ouvir. Foi uma masacre. Como sabes, estive num campo também, mas as minhas mão não foram todas partidos como as do nosso Victor Jara, antes da tortura imensa que teve que suportar. O cantamos por toda Grã-bretanha em concertos de um grupo de chilenos e eu dava uma conferência. Alastrava multidões e foi quem angariou mais votos para a Sua Excelência, como chamamos aos Presidente do Chile. Preferi ler o teu post e coemntário, apenas a tarde. Sabia o que ia sentir….És um Senhor A nossa família, feliz com o Dictador. Ironias da vida: foi ao inferno -não sou homem de fé, mas para este sim, dev arder-no dia dos Direitos Humanos, em Dezembro

  3. Carlos Loures says:

    Raúl, querido amigo, peço-te muita desculpa por te ter causado uma emoção dolorosa. Mas tinha de homenagear o Víctor Jara no dia do seu funeral e não havia ninguém a quem fosse mais apropriado dedicar tão modesto trabalho. Um grande abraço.

  4. Raul Iturra says:

    Caro Carlos,
    agradeço a homenagem ao Victor e pos causa dele, a mim. B
    não fiques preocupado. É esse pranto silencioso, molhado, que não deixa ler, mas são tantos os prantos desde que visitei ao Chile da sua excelência e apenas me permiteram ir 35 anos depois. É o pranto do exílio das memórias, da terras amada, dos nossos amigos da infância, essa falta que, em criança, por causa das viagem do Senhor pai, faziamos, mas certos de tornar. Agora…é assim. Agradeçp o teu novo comentãrio. Não vou publicitar o meu telefone ne e-mail no Aventar, mas o Ricardo e o Luís sabem. Essa tristeza, Caro Carlos, nunca acaba. Todo acaba em vida, como denomino ao exílio, mas esa nostalgia….apenas com a morte. O Victor sofreu e duramente, mais mas mito mais do que eu. Foi a Joan quem teve a ousadia de resgatar o corpo,era britânica..como eu, resgatar a minha mulher e, neses tempo unica filha. Billy Callagham consultaca-me sempre a Cambridge e mal soube que a minha família, filha de General em Chefe a minha Mulher não as deixavam sair, diz-me: Professor, don’t you worry. A week later, they were, desculpa, uma semana a seguir estavam comigo e tivemos outra filha para recomezar a vida. Mas essas vidas nunca se recomeçam, o que acaba é duro demaos e separa….Abraço, Caro Carlos, vou fechar o computador.