Diário de um chegano (2)

Diário macho

 

Foi com a alegria de um membro da Mocidade Portuguesa que pude ver o nosso André a regozijar-se com um jovem que, com ardor lusitano, mostrava o seu ódio aos estrangeiros que vêm para o nosso país preguiçar, violar as nossas mulheres e que recebem um subsídio mal saem do mar, depois de virem a nado desde Bombaim. Quando uma criança grita que é preciso mandar embora os estrangeiros, ergo as mãos e canto graças, porque está no bom caminho: quando acabar os trabalhos de casa (primeiro, os trabalhos de casa), irá cuspir em pretos e bater em homossexuais ou vice-versa, desde que cuspa e bata.

Foi também com enorme gáudio que vi a nossa Ritinha a divertir-se na presença de jovens que chamavam “gatuno” a Luís Montenegro. A minha cunhada, que é da corja esquerdalha e até nem gosta do Montenegro, veio dizer que não se pode andar assim a insultar pessoas, mas nós, no nosso partido, não temos medo das palavras, não queremos palavras que escondam. É por isso que nosso André fala em “bandidagem”, que é para toda a gente entender. Há quem diga que só se passa a ser “gatuno” quando isso é provado em tribunal, mas nós sabemos bem que os tribunais fazem parte do sistema corrupto que protege sempre os mesmos há 50 anos.

Além disso, só complicam – quando mandarmos nisto, nem vamos precisar de tribunais. Perguntamos ao nosso André, que é um perdigueiro de bandidos. Mostramos-lhe uma pessoa e ele dá logo a sentença e manda aplicar a pena. Mais: só não vê um gatuno quem não quer ver. É tão simples: ou tem a pele escura ou não é do Chega.

Isto da pele escura, a propósito, faz-me pensar que é perigoso uma pessoa ir de férias. O meu vizinho foi daqui branquinho e, quando voltou, todo bronzeado, via-se mesmo que era um gatuno, pronto a vender tapetes, a violar as nossas mulheres e a fritar chamuças ao mesmo tempo, porque os monhés, por causa daquela deusa com muitos braços, conseguem fazer tudo ao mesmo tempo.

Já me disseram que falo muito de os imigras violarem as nossas mulheres, mas eu bem vejo que a minha tem muitas saudades do Sandokan, que era um preto claro que batia nos brancos e andava metido com uma loura. Depois digam que não tenho razão.

O Chega virou woke (ou como o lambão baba o dedo para ver de onde sopra o vento)

Chega woke.

O Chega não tem ideias nem ideais próprios. Os ideais, esses, são os de antanho, de um tempo de miséria e penumbra geral. As ideias, essas, são aquelas que a extrema-direita, sobretudo a europeia, estiver a difundir por aí. No caso, como o único exemplo de uma espécie de moderação da extrema-direita surgiu do governo italiano, encabeçado por Georgia Meloni (e a sua amiga benzoilmetilecgonina), o Chega tem tentado, desde as últimas eleições, tornar Ventura numa Meloni.

Ora, se o Chega é contra os transexuais, convinha tentar não tornar o seu líder num. E se o Chega fala tanto em substituição populacional, que lhe importa se as portuguesas fornicam, engravidam e parem? Afinal, estamos a ser substituídos.

O melhor, nestas matérias, era pôr a anti-feminista Rita Matias a falar… porque já se provou que esta anta usa argumentos feministas para se dizer anti-feminista. E agora o Chega, cheio de tesão woke, quer pôr-se ao lado das feministas também… sendo anti-feminista. Está bem, abelha…

Por fim:

Rita, presta atenção:/Verás que não há nenhum mal,/abre lá o teu coração/e as pernas por Portugal. 
André, não tenhas vergonha/e não sejas salafrário;/eu sei que tu largas peçonha,/mas está na hora de saíres do armário. 

E que direitos serão esses, Ritinha?

Rita Matias: “Há direitos que os homens têm que eu não quero”

Tachos familiares no CH: o caso de Rita Matias

Durante a campanha, e antes dela, Ventura e o seu partido afirmaram, várias vezes, que se opunham e queriam acabar com os laços familiares no Parlamento. Fizeram disso uma bandeira. Talvez por isso, imagino eu, é que Rita Matias, a única mulher eleita pelo CH para a AR, é filha de Manuel Matias, assessor de Ventura na AR e antigo líder de um micropartido que o CH engoliu. E se dúvidas restarem, puxem a box atrás e vão ver o debate da jovem com a Joana Amaral Dias, na CNN, para perceberem a mediocridade. Parafraseando o saudoso Chicão, um esquadrão de cavalaria à desfilada naquela cabeça não esbarra numa ideia. Sim, é um tacho. E sim, a narrativa do CH é uma fraude. Mas cada um come os gelados que quer com a testa. Por enquanto, ainda somos um país livre.