Postcards from Romania (23)

Elisabete Figueiredo

Entre Sighisoara e Cluj-Napoca

Digo que o dia não começa bem. Tomo um pequeno-almoço sem jeito e, não sei porquê, aliás sei, mas para o caso não interessa, há qualquer coisa, que me diz que este dia será esquisito.
Ao pequeno-almoço reencontro os romenos da noite anterior, os mesmos que me convidaram para um copo de vinho branco que não aceitei, mas com quem acabei por conversar durante um bocado, antes do jantar. São 9h30 da manhã e estão já a beber cerveja. Aliás, verifico que isso acontece em quase toda a parte, aqui. São simpáticos, especialmente um deles, que fala melhor inglês e tem opiniões sobre tudo. De qualquer maneira tenho de ir apanhar o comboio.

Este comboio é um inter-regional, bastante aceitável, se comparado com o regional que tomei entre Brasov e Sighisoara. Viajo agora entre esta última vila e Cluj-Napoca, a terceira maior cidade da Roménia. Avanço para norte, um pouco na diagonal, quase até à fronteira com a Hungria. E à medida que o comboio avança ‘entre a floresta’ (tradução literal de Transilvânia), apercebo-me que a paisagem se torna diversa. As aldeias não são tão arcaicas, não há tantas carroças de ciganos, as vacas substituem, nos campos, as ovelhas, e tudo tem um ar, como direi, mais asseado.

A janela deixa passar as paisagens demasiado depressa para a fotografia. Eu vou um pouco sonolenta e aborrecida e tento passar o tempo (três horas e meia que, na verdade, serão quatro) a entreter-me. Pego no livro da escritora romena Gabriela Adamesteanu, que comprei em Lisboa antes de vi – ‘Uma Manhã Perdida’ – e continuo a lê-lo. Tem 498 páginas. Vou ainda na 107. A tradução parece-me má. Quando se lê bastante, estas coisas são evidentes. Quem me dera saber romeno, penso, como já tinha pensado há uns dias, ainda em Lisboa, quando o comecei a ler em frente a uma buganvília, de que guardo ainda uma flor, precisamente entre as páginas do livro. A flor está seca, mas ainda liberta perfume e a memória.

Em Lisboa, a buganvília e a mulher que fala como cantam os pássaros quando estão aflitos, o pátio, um pêssego e uma voz. Vou a embalar-me com o comboio, nestes pensamentos. E aborreço-me e estou ligeiramente incomodada. Há dias destes, outros bem piores e outros, bastantes, tenho de ser justa, melhores. De qualquer modo, há no dia de hoje qualquer coisa que me incomoda e me faz falta.

 (No comboio, entre Sighisoara e Cluj-Napoca, 11 de Agosto de 2012)

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